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As águas não rolam mais!
* Por Mara Narciso
Aquela história de me levantar seis ou mais vezes à noite está começando a me intrigar. Reduzo os copos d’água após o jantar, mas continuo a ser acordada quase de hora em hora para ir ao banheiro. Não há dor e nenhum sintoma de infecção. A urina está clara e sem cheiro algum. Começo a achar que está clara demais. Observo que a cada dia o volume de urina aumenta e ela se torna incolor.
Deitada, com o olho pregado no teto, tento me lembrar de como e quando tudo isso começou. Não sei precisar, mas já tem uns dois meses, talvez mais. Antes disso deitava às 10 da noite e só me levantava às 6 da manhã. Nada me interrompia o sono. Agora é preciso beber água a noite toda. Tenho de marcar médico rápido. Amigas falam em diabetes. Estou com imensas dúvidas.
Não tem ninguém diabético na minha família. Sou magra e também não emagreci. Preciso falar com o médico. Estou há 40 minutos na sala de espera, fui ao banheiro duas vezes, e preciso ir mais uma vez. Também já bebi água. Foram dois copos grandes. Estou revendo a minha mudança de hábitos. De vários meses para cá não posso sair. Apenas quando é indispensável me arrisco. Já não tenho mais vergonha de pedir para usar o banheiro nas lojas. Sei que não gostam, mas falo que é urgente e acabo entrando. As atendentes vão comigo. Conheço todos os reservados da cidade.
A vontade de urinar é do tamanho da vontade de beber água. Meço mentalmente o que bebo e o que urino e calculo mais de dez, talvez doze litros ou mais ao dia. No começo pensei em deixar de viajar, mas abro o jogo ao entrar no ônibus. Quando não tem toalete a bordo, digo ao motorista que tenho um problema e ele entende. Antes ia para detrás do ônibus, mas agora não dá tempo. Urino na estrada, diante da porta da frente mesmo. Tudo tem piorado e preciso urinar a cada dez a quinze minutos. Às vezes com intervalos menores. Muitos motoristas e passageiros já perderam a paciência comigo. Largo as viagens de ônibus e passo a ir de carro, mas se cansam logo de mim.
O médico pede a glicemia, que dá 86. Ele não acredita e manda repetir. Dá menos: 78. Então fala que eu deveria ir ao endocrinologista. Vou, e a glicose, pela terceira vez vem normal. Eu não entendo e nem os médicos sabem o motivo de tanta sede. Chegam a falar que é mania de beber água. Um clínico diz que beber muita água não faz mal, que é até bom, já que minha cidade é muito quente.
Mas a vida está um transtorno só. Com pouco sono noturno, passo o dia entre zonza e sonolenta, com a cabeça enorme e a sede me torturando. Não posso trabalhar. O pouco apetite, devido o estômago sempre cheio d’água acabou por me emagrecer dois quilos. Outra glicemia dá 82, e a tireóide está funcionando mal. Tenho hipotireoidismo. Com a alteração encontrada, a endocrinologista se dá por satisfeita e passa o hormônio da tireóide. Melhoro, mas nada muda na minha peregrinação aos banheiros. O precioso líquido que entra, sai imediatamente do mesmo jeito, sem modificação alguma. Parece ligação direta.
Então vou noutra endocrinologista fazer o controle da tireóide. Urino antes de entrar no consultório, mas durante a consulta tenho de sair correndo. Na volta, a médica me fala pela primeira vez o nome de uma doença, então nova para mim: diabetes insípidus. Ela explica: existe o diabete mellitus, o do açúcar, referente a insulina e o diabetes insípidus, o da água. Fala que eu posso ter falta do hormônio antidiurético, que segura a água no corpo, e assim este seria o motivo do meu sofrimento. Pede exames de sangue e urina que mostram um sangue muito concentrado e uma urina muito diluída, e mesmo assim, devido à falta do tal hormônio antidiurético, eu continuo a perder mais água, urinando sem parar. Segundo ela, se eu ficar impossibilitada de beber água, morro desidratada.
O remédio receitado é um spray nasal, do hormônio que falta, para ser inalado a cada oito horas, ou conforme a necessidade. Inalo o hormônio, e já nos primeiros minutos sinto o seu efeito. Que alívio meu Deus! Após dois anos pela primeira vez consigo esquecer por algum tempo que a vida não é só beber água e urinar. Durmo por dez horas seguidas. Que maravilha! Sou orientada para reduzir o consumo de líquidos e isso é automático, pois à medida que não urino, não preciso beber tanto. Assim, os passeios e as viagens que não pude fazer antes, começam a fazer parte dos meus planos.
O nosso corpo tem muitos mistérios. Um deles são essas geniais substâncias chamadas hormônios. Existem em quantidades tão pequenas que nem nos damos conta da existência delas, exceto quando faltam.
Desde então as águas não rolam mais, exceto as dos rios.
* Médica endocrinologista, acadêmica do sétimo período de jornalismo e autora do livro “Segurando a Hiperatividade”.
* Por Mara Narciso
Aquela história de me levantar seis ou mais vezes à noite está começando a me intrigar. Reduzo os copos d’água após o jantar, mas continuo a ser acordada quase de hora em hora para ir ao banheiro. Não há dor e nenhum sintoma de infecção. A urina está clara e sem cheiro algum. Começo a achar que está clara demais. Observo que a cada dia o volume de urina aumenta e ela se torna incolor.
Deitada, com o olho pregado no teto, tento me lembrar de como e quando tudo isso começou. Não sei precisar, mas já tem uns dois meses, talvez mais. Antes disso deitava às 10 da noite e só me levantava às 6 da manhã. Nada me interrompia o sono. Agora é preciso beber água a noite toda. Tenho de marcar médico rápido. Amigas falam em diabetes. Estou com imensas dúvidas.
Não tem ninguém diabético na minha família. Sou magra e também não emagreci. Preciso falar com o médico. Estou há 40 minutos na sala de espera, fui ao banheiro duas vezes, e preciso ir mais uma vez. Também já bebi água. Foram dois copos grandes. Estou revendo a minha mudança de hábitos. De vários meses para cá não posso sair. Apenas quando é indispensável me arrisco. Já não tenho mais vergonha de pedir para usar o banheiro nas lojas. Sei que não gostam, mas falo que é urgente e acabo entrando. As atendentes vão comigo. Conheço todos os reservados da cidade.
A vontade de urinar é do tamanho da vontade de beber água. Meço mentalmente o que bebo e o que urino e calculo mais de dez, talvez doze litros ou mais ao dia. No começo pensei em deixar de viajar, mas abro o jogo ao entrar no ônibus. Quando não tem toalete a bordo, digo ao motorista que tenho um problema e ele entende. Antes ia para detrás do ônibus, mas agora não dá tempo. Urino na estrada, diante da porta da frente mesmo. Tudo tem piorado e preciso urinar a cada dez a quinze minutos. Às vezes com intervalos menores. Muitos motoristas e passageiros já perderam a paciência comigo. Largo as viagens de ônibus e passo a ir de carro, mas se cansam logo de mim.
O médico pede a glicemia, que dá 86. Ele não acredita e manda repetir. Dá menos: 78. Então fala que eu deveria ir ao endocrinologista. Vou, e a glicose, pela terceira vez vem normal. Eu não entendo e nem os médicos sabem o motivo de tanta sede. Chegam a falar que é mania de beber água. Um clínico diz que beber muita água não faz mal, que é até bom, já que minha cidade é muito quente.
Mas a vida está um transtorno só. Com pouco sono noturno, passo o dia entre zonza e sonolenta, com a cabeça enorme e a sede me torturando. Não posso trabalhar. O pouco apetite, devido o estômago sempre cheio d’água acabou por me emagrecer dois quilos. Outra glicemia dá 82, e a tireóide está funcionando mal. Tenho hipotireoidismo. Com a alteração encontrada, a endocrinologista se dá por satisfeita e passa o hormônio da tireóide. Melhoro, mas nada muda na minha peregrinação aos banheiros. O precioso líquido que entra, sai imediatamente do mesmo jeito, sem modificação alguma. Parece ligação direta.
Então vou noutra endocrinologista fazer o controle da tireóide. Urino antes de entrar no consultório, mas durante a consulta tenho de sair correndo. Na volta, a médica me fala pela primeira vez o nome de uma doença, então nova para mim: diabetes insípidus. Ela explica: existe o diabete mellitus, o do açúcar, referente a insulina e o diabetes insípidus, o da água. Fala que eu posso ter falta do hormônio antidiurético, que segura a água no corpo, e assim este seria o motivo do meu sofrimento. Pede exames de sangue e urina que mostram um sangue muito concentrado e uma urina muito diluída, e mesmo assim, devido à falta do tal hormônio antidiurético, eu continuo a perder mais água, urinando sem parar. Segundo ela, se eu ficar impossibilitada de beber água, morro desidratada.
O remédio receitado é um spray nasal, do hormônio que falta, para ser inalado a cada oito horas, ou conforme a necessidade. Inalo o hormônio, e já nos primeiros minutos sinto o seu efeito. Que alívio meu Deus! Após dois anos pela primeira vez consigo esquecer por algum tempo que a vida não é só beber água e urinar. Durmo por dez horas seguidas. Que maravilha! Sou orientada para reduzir o consumo de líquidos e isso é automático, pois à medida que não urino, não preciso beber tanto. Assim, os passeios e as viagens que não pude fazer antes, começam a fazer parte dos meus planos.
O nosso corpo tem muitos mistérios. Um deles são essas geniais substâncias chamadas hormônios. Existem em quantidades tão pequenas que nem nos damos conta da existência delas, exceto quando faltam.
Desde então as águas não rolam mais, exceto as dos rios.
* Médica endocrinologista, acadêmica do sétimo período de jornalismo e autora do livro “Segurando a Hiperatividade”.
Sua narrativa é clara e descrita com precisão.
ResponderExcluirVai tirar algumas pessoas do "escuro", tomara que leiam.
beijos
Talvez vc esteja se transformando numa fonte. Também eu bebo como dependente de H2O desde a infância. Atualmente, no dias quentes, chego à média dos quatro litros diários de líquidos, incluídos cafés e refrescos, e urino a madrugada toda até de manhã. Eu, igualmente, posso estar me transformando numa fonte, mas tal recorrência às águas resulta noutra suspeita: seria eu um anfíbio?
ResponderExcluirMara,
ResponderExcluirCuriosa a sua história....
Eu urino muito na TPM...
Núbia, Daniel e Celamar, agradeço os comentários, e vejo que atingi o objetivo: levantar a lebre( não a água). Quando a grande ingestão de líquido é intencional, pode não haver nada de errado, mas quando não é, e a urina está muito aumentada, é bom verificar se não há alguma doença. Descrever com minúcia um quadro clínico é lembrar um pouco os primórdios da medicina, quando os médicos se debruçavam sobre o leito de um doente e lá ficavam um dia todo conversando e anotando os sintomas. Muitas doenças foram descobertas assim. Gente, existe do Diabetes Insípidus.
ResponderExcluirLi na Folha de SP, há alguns meses, sobre a Diabetes Insípidus. Ainda bem que o controle dela, aparentemente, é mais tranquilo que o da Diabetes Melitus. Esclarecedor o seu texto, Mara. Parabéns por mais uma primorosa lavra médico/literária. Abraços.
ResponderExcluirAdorei seu texto, Mara. Muito esclarecedor.
ResponderExcluirBjo.
Ris
Marcelo e Risomar, obrigada pelo carinho da leitura e os comentários simpáticos.
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