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O gosto do batom ainda lhe soa amargo
* Por Eduardo Murta
O maior dilema em Hortência não é exatamente que caminho tomar. Mas com que sapato. Há variação espantosa nas salas que construiu tão-somente para abrigá-los. Bota, plataforma, sandalinha, salto 15, versões em vermelho bordel. Tudo descrito em programa de computador que lhe sugere casar modelo com ocasião – de batizados a festas a rigor. Mas se curvava também ao ofício de por vezes escandalizar. Um modelito de tango no velório da avó, um oncinha em evento protocolar.
E o que dizer da bota cavalaria num delicado chá de senhoras da sociedade, em que chapéus ornados, leques e discrição clássica compunham figurino? Pois foi lá que reforçou essa natureza de contrastes. Editor de modas de revista fina a vislumbrou em meio ao emaranhado de pernas. Começou pelos pés, foi subindo em curiosidade, e quando enquadrou o rosto, os olhos dela já o desnudavam por inteiro.
Nenhum, porém, se desconcertou. Ao contrário. Ambos desarmaram em sorriso que prenunciava o tanto que tinham a dizer um ao outro. Quatro passos e já se apresentavam. Exalavam charme de acasalamento por todos os poros. Ela encarnando tipo frágil, ele rico em amabilidades. Um café, um drinque, um jantar. A cama.
Por ora, circunscritos ao script conservador. Hortência impondo luz apagada, reprimindo os gritos. E Ubiratã economizando na liberalidade das mãos ou na variação de posições. Até que, na quinta transa, revelou que a queria só em sapatos. Foi ao armário – o queixo se desarmando à diversidade da coleção de 613 pares – e escolheu a bota mulher-gato. Aquilo era o encontro do rio com o mar.
Ela gostando tanto, que chegou a variar de calçado nove vezes. Ele mais seguro, dose a dose despindo seu lado B. E atravessariam a madrugada às bênçãos de vinho, muito vinho, gemidos que abalariam a vizinhança. Desta vez, sob iluminação generosa, a que registrassem cada segundo em filmagem de recordação os beijos, os pés com as mesmas medidas, os arranhões. Às 6 da manhã, estavam pelo avesso. Mas felizes. O tom radiante foi parar no ensaio sobre sapatos que Ubiratã produziria para a revista. Uma Hortência como nunca se vira.
Brindaram com champanhe e, claro, sexo. Ela, pela primeira vez, relutaria a um pedido dele. Que se pusesse em salto fino desfilando sobre seu abdômen. Estremeceu, desconversou e, à insistência, cedeu. Dormiu se perguntando se fizera mesmo o certo. Enxergou uma ponta de prazer naquilo, mas o instinto feminino sugeria que talvez melhor refrear ímpetos assim.
Estranhou ainda mais, semanas à frente, a transferência dele confirmada para o escritório de Nova York, o homem chegando com rolo de cordas, gancho, chicote negro e máscara. Ela pisou forte, denunciando insatisfação, quebrou pratos e, naquela noite, trancou portas, se fechou solitária. Ubiratã, manhã posta, cheio de mimos. Ovos mexidos, salada de fruta, pão italiano, geléia e café à bandeja estilo barroco que ela adorava. Antes, um buquê em rosas vermelhas, um bilhete invocando perdão, ar de despedida. Hortência agora se derretendo. Viveu dia de princesa.
No retorno a casa, fim de tarde, pressentiu que experimentaria a extensão daquelas delicadezas. Recebida com fragrância floral, pétalas e cheiros fazendo o caminho ao quarto. Meia-luz, já o encontrou nu. O leite à travessa, a esponja com que teria seu corpo banhado. Se despiu. Deslizou em lençóis de cetim. Viu orgasmos se pluralizarem. Até permitiu que se amarrasse. E jamais, jamais se esquecerá da cena. Ele em sandálias de prata, riso de escárnio. Ela, pés e mãos atados, vendo Ubiratã recolher par por par seus sapatos, despejá-los em três malas. Se aproximou, apartou-lhe as lágrimas com um lenço, sussurrou au revoir, besuntou os lábios e aplicou-lhe beijo longo, quente, bandido. O gosto do batom lhe soa amargo inda hoje.
* Jornalista, autor de "Tantas Histórias. Pessoas Tantas", livro lançado em maio de 2006, que reúne 50 crônicas selecionadas publicadas na imprensa. É secretário de Redação do jornal Hoje em Dia, diário de Belo Horizonte. Já teve passagens também pelos jornais Diário de Minas e Estado de Minas, além de Folha de S.Paulo e revista Veja. É um dos colunistas do Hoje em Dia (www.hojeemdia.com.br), onde publica às quartas-feiras.
* Por Eduardo Murta
O maior dilema em Hortência não é exatamente que caminho tomar. Mas com que sapato. Há variação espantosa nas salas que construiu tão-somente para abrigá-los. Bota, plataforma, sandalinha, salto 15, versões em vermelho bordel. Tudo descrito em programa de computador que lhe sugere casar modelo com ocasião – de batizados a festas a rigor. Mas se curvava também ao ofício de por vezes escandalizar. Um modelito de tango no velório da avó, um oncinha em evento protocolar.
E o que dizer da bota cavalaria num delicado chá de senhoras da sociedade, em que chapéus ornados, leques e discrição clássica compunham figurino? Pois foi lá que reforçou essa natureza de contrastes. Editor de modas de revista fina a vislumbrou em meio ao emaranhado de pernas. Começou pelos pés, foi subindo em curiosidade, e quando enquadrou o rosto, os olhos dela já o desnudavam por inteiro.
Nenhum, porém, se desconcertou. Ao contrário. Ambos desarmaram em sorriso que prenunciava o tanto que tinham a dizer um ao outro. Quatro passos e já se apresentavam. Exalavam charme de acasalamento por todos os poros. Ela encarnando tipo frágil, ele rico em amabilidades. Um café, um drinque, um jantar. A cama.
Por ora, circunscritos ao script conservador. Hortência impondo luz apagada, reprimindo os gritos. E Ubiratã economizando na liberalidade das mãos ou na variação de posições. Até que, na quinta transa, revelou que a queria só em sapatos. Foi ao armário – o queixo se desarmando à diversidade da coleção de 613 pares – e escolheu a bota mulher-gato. Aquilo era o encontro do rio com o mar.
Ela gostando tanto, que chegou a variar de calçado nove vezes. Ele mais seguro, dose a dose despindo seu lado B. E atravessariam a madrugada às bênçãos de vinho, muito vinho, gemidos que abalariam a vizinhança. Desta vez, sob iluminação generosa, a que registrassem cada segundo em filmagem de recordação os beijos, os pés com as mesmas medidas, os arranhões. Às 6 da manhã, estavam pelo avesso. Mas felizes. O tom radiante foi parar no ensaio sobre sapatos que Ubiratã produziria para a revista. Uma Hortência como nunca se vira.
Brindaram com champanhe e, claro, sexo. Ela, pela primeira vez, relutaria a um pedido dele. Que se pusesse em salto fino desfilando sobre seu abdômen. Estremeceu, desconversou e, à insistência, cedeu. Dormiu se perguntando se fizera mesmo o certo. Enxergou uma ponta de prazer naquilo, mas o instinto feminino sugeria que talvez melhor refrear ímpetos assim.
Estranhou ainda mais, semanas à frente, a transferência dele confirmada para o escritório de Nova York, o homem chegando com rolo de cordas, gancho, chicote negro e máscara. Ela pisou forte, denunciando insatisfação, quebrou pratos e, naquela noite, trancou portas, se fechou solitária. Ubiratã, manhã posta, cheio de mimos. Ovos mexidos, salada de fruta, pão italiano, geléia e café à bandeja estilo barroco que ela adorava. Antes, um buquê em rosas vermelhas, um bilhete invocando perdão, ar de despedida. Hortência agora se derretendo. Viveu dia de princesa.
No retorno a casa, fim de tarde, pressentiu que experimentaria a extensão daquelas delicadezas. Recebida com fragrância floral, pétalas e cheiros fazendo o caminho ao quarto. Meia-luz, já o encontrou nu. O leite à travessa, a esponja com que teria seu corpo banhado. Se despiu. Deslizou em lençóis de cetim. Viu orgasmos se pluralizarem. Até permitiu que se amarrasse. E jamais, jamais se esquecerá da cena. Ele em sandálias de prata, riso de escárnio. Ela, pés e mãos atados, vendo Ubiratã recolher par por par seus sapatos, despejá-los em três malas. Se aproximou, apartou-lhe as lágrimas com um lenço, sussurrou au revoir, besuntou os lábios e aplicou-lhe beijo longo, quente, bandido. O gosto do batom lhe soa amargo inda hoje.
* Jornalista, autor de "Tantas Histórias. Pessoas Tantas", livro lançado em maio de 2006, que reúne 50 crônicas selecionadas publicadas na imprensa. É secretário de Redação do jornal Hoje em Dia, diário de Belo Horizonte. Já teve passagens também pelos jornais Diário de Minas e Estado de Minas, além de Folha de S.Paulo e revista Veja. É um dos colunistas do Hoje em Dia (www.hojeemdia.com.br), onde publica às quartas-feiras.
Leitura arrebatadora, quase mágica. No lugar do casal, os protagonistas são os sapatos.Originalidade pura. Destaco: "Viu orgasmos se pluralizarem." Parabéns!
ResponderExcluirEi, Mara, é que os sapatos são um pouco a extensão da alma da gente.
ResponderExcluirFetichismo eletrizante! Mas fetichismo de larápio, desconcertante, que dão graça e originalidade a esta crônica, incomum em relação às demais já publicadas e, por isso mesmo, não bastasse a excelência do texto, impossível esquecer. Parabéns, caro Murta!
ResponderExcluirTexto vivo. Em cada frase consegui ouvir o bater de corações das personagens. Muito bom! Abraço, Murta.
ResponderExcluirNossa!...Que sensualidade...Henfil adoraria ler este texto!
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