Minha
riqueza
* Por Pedro J. Bondaczuk
O prazer e o trabalho são as duas únicas formas que o ser
humano dispõe para esquecer os estragos que o tempo faz em seu corpo e em sua
mente. Claro que os resultados desses dois tipos de ação são muito diferentes.
Mas a escolha é livre, ditada exclusivamente pelo livre-arbítrio. As
conseqüências, no entanto, é que são inflexíveis.
Os hedonistas entendem que o homem veio ao mundo apenas para
gozar as suas delícias. Já os pragmáticos acham que o seu papel é o de produzir
obras, que o tempo, afinal, se encarregará de destruir. Quem tem razão? Sei lá!
Da minha parte, entendo que a virtude está no meio. Ou seja, que o mais sábio é
dosar, e muito bem, os prazeres com o trabalho.
A vida é constituída de escolhas, cuja exatidão vai
determinar nosso sucesso ou fracasso, felicidade ou amargura, bem ou mal.
Escolhemos profissões, companhias, amizades etc. e até clubes de futebol para
torcer. Somos sempre instados a escolher alguém ou alguma coisa, e não nos é
permitido errar.
Essas escolhas têm que ser estudadas, ponderadas e,
sobretudo, cautelosas. Se escolhermos uma profissão para a qual não tenhamos
talento ou habilitação, por exemplo, ficaremos à margem do mercado de trabalho.
Se a escolha de uma companhia não for feita por amor, o resultado será de
frustração e infelicidade. E isso vale para tudo o mais na vida.
Se nossas escolhas forem corretas e adequadas, o resultado
será o sucesso, a alegria e a plena realização. Se equivocadas... esses
equívocos vão gerar, com certeza, fracassados, marginalizados e seres amargos e
infelizes. Há os que optam por serem apenas amados, com o que se dão para lá de
satisfeitos. Incluo-me entre estes.
Há, porém, quem não se importe tanto com afetos e que queira
ser admirado, ou pelo que é ou pelo que faz. Há, também, os mais ambiciosos,
que querem as duas coisas. Ou seja, serem amados e admirados, simultaneamente.
E existem, ainda, inúmeras outras opções, de todos os tipos e naturezas.
Embora muita gente não concorde, somos senhores absolutos do
nosso destino. Deus concedeu-nos o livre-arbítrio para que escolhamos nosso
caminho e arquemos com as conseqüências dessa escolha. Por piores que sejam os
acontecimentos e as circunstâncias que nos cerquem, temos plena capacidade de
viver com dignidade, justiça, alegria e bom-humor. Basta que queiramos e
manifestemos esse querer por atitudes.
Devemos colocar tudo o que de belo, de sublime e de
construtivo sonhamos no plano do real. Os caminhos são pedregosos e cheios de
espinho? São! Mas o resultado vale a pena. Como a fábula de La Fontaine, da
Cigarra e da Formiga, assim são os homens. Enquanto uns trabalham, construindo
templos, cidades, tumbas e monumentos, outros "cantam", gozando as
delícias do ócio e do fruto do trabalho alheio.
Enquanto uns criam, outros aproveitam e esbanjam. Qual o
valor das obras, além do óbvio, utilitário, de uso imediato? São fontes de
perpetuidade da memória, ou não passam de frustradas tentativas para evitar o
esquecimento após a morte? Os pioneiros da civilização, os que fizeram
descobertas marcantes, práticas, que facilitaram ou até mesmo garantiram a
sobrevivência humana, são absolutamente anônimos.
Quem descobriu a roda? Ou a maneira de produzir o fogo? Quem
foi o inventor do primeiro alfabeto? Ou da escala musical? Ou dos números? Ou
dos princípios básicos da matemática? Estes são alguns dos fundamentos da
civilização e foram criados por alguém. Mas por quem?
Gosto das pessoas, mesmo das que ajam mal e mostrem,
ostensivamente, que não gostam de mim. Entendo que, para agir dessa forma, têm
lá suas razões, que respeito, mesmo que não as compreenda. Claro que gosto
delas à distância. Afinal, como diz o povo, “cautela e caldo de galinha não
fazem mal a ninguém”.
Sou grato a todos os que me beneficiam e tornam minha vida
melhor, senão possível. Respeito os milhões, que sequer conheço, trabalhadores
em usinas de eletricidade, lixeiros, padeiros, pedreiros, médicos, cientistas,
filósofos, professores, jornalistas etc.etc.etc., que fazem o mundo, bem ou
mal, funcionar e possibilitam minha sobrevivência.
Os marginalizados, injustos, violentos e néscios não nascem
assim. São frutos da falta de educação, do ambiente em que vivem e das
circunstâncias. Procuro fazer, da melhor forma possível, minha parte na
sociedade, como forma prática de gratidão. Reitero: gosto das pessoas!
Apego-me, ferrenhamente, por convicção e formação, a elas, jamais a coisas.
Tenho noção do quanto o conceito de propriedade é nocivo
para a convivência harmoniosa dos homens. Nada, efetivamente, me pertence. O
que “tenho” só é meu enquanto eu estiver vivo. Ou seja, toda posse é
transitória. Claro que não saio distribuindo, tolamente, por aí o que consigo
com o fruto do meu trabalho. Mas quando perco, o que quer que seja, não me
sinto frustrado ou derrotado.
Esse sentimento, porém, é bem diferente quando ocorre a
perda de um parente, um amor ou um amigo. Estes, sim, são meus patrimônios.
Quando essa perda acontece, por desavenças, morte ou por outras circunstâncias,
sinto morrer um pouco. Fico menor, mais pobre e mais mesquinho. E essa sensação
sequer é exclusiva. Emily Dickinson, por exemplo, declara, num magnífico verso:
“Todo meu patrimônio são meus amigos”. O meu também! Esta é a riqueza que busco
preservar a todo custo. O resto...
*
Jornalista, radialista e escritor. Trabalhou na Rádio Educadora de Campinas
(atual Bandeirantes Campinas), em 1981 e 1982. Foi editor do Diário do Povo e
do Correio Popular onde, entre outras funções, foi crítico de arte. Em equipe,
ganhou o Prêmio Esso de 1997, no Correio Popular. Autor dos livros “Por uma
nova utopia” (ensaios políticos) e “Quadros de Natal” (contos), além de “Lance
Fatal” (contos), “Cronos & Narciso” (crônicas), “Antologia” – maio de 1991
a maio de 1996. Publicações da Academia Campinense de Letras nº 49 (edição
comemorativa do 40º aniversário), página 74 e “Antologia” – maio de 1996 a maio
de 2001. Publicações da Academia Campinense de Letras nº 53, página 54. Blog “O
Escrevinhador” – http://pedrobondaczuk.blogspot.com. Twitter:@bondaczuk