A felicidade
* Por
Alberto Cohen
O mais engraçado é
que, dando de encontro com a felicidade, emudecemos ou pedimos desculpas.
Emudecemos frente ao inesperado de sua chegada, pedimos desculpas por não
estarmos preparados para recebê-la. E ela apenas sorri. Já viu a mesma cena
milhões de vezes em sua trajetória, esse não saber o que fazer com ela, a
hesitação entre abraçá-la ou pedir que sente na sala, enquanto a roupa de usar
em casa é trocada por outra melhor.
E é muito afobada, a
felicidade. Não pode perder tempo, pois tem tantas outras visitas e partidas
repentinas a fazer no seu dia-a-dia de médica da alma, que salva ou desengana,
devolve a saúde ou reconhece a doença incurável e vai embora sem ao menos
confortar o doente. E depois que parte não há maneira de localizá-la. Não deixa
endereço, telefone nem e-mail.
Interessante é que o
tempo de sua visita é contado em leves e brilhantes segundos, enquanto o da
ausência é conferido em séculos pesados e soturnos. É de notar, porém, que, nos
poucos instantes em que está presente, pinta a casa de cores alegres e claras e
decora todos os compartimentos com sorrisos fáceis. Depois de sua partida,
lentamente o cinzento volta a predominar e os sorrisos são banidos pelas
sobrancelhas franzidas.
E aqui ficamos nós a
esperar, como ela queria, sempre na expectativa de que volte, mande um recado,
enfim, dê sinal de vida. Cada vez que batem à porta é aquele sobressalto: Será
que é ela que está voltando? Dificilmente, pois, como foi dito acima, é muito
ocupada, tem muitos clientes, assim... Esperem um instantinho, que a campainha
está tocando! Será...?
*
Poeta e cronista paraense
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