sexta-feira, 2 de agosto de 2013

O garoto que podia voar

* Por Alberto Cohen

Hoje eu falei com Deus. Pedi perdão pelos meus sessenta e cinco anos de queixas e lamentações e agradeci pela escolha. Qual? Essa de ser uma das canetas que a poesia usa para contar causos. Imagino que ela seja um dos anjos mais travessos que o Pai possui no seu reino infinito e que Ele morre de rir de suas molecagens, como quando me acorda de madrugada e me induz a um verso sem ritmo ou a uma rima que não rima, só para me ver arrancar o resto dos cabelos. Logo em seguida passa a mão em minha cabeça e segreda em meu ouvido o mais belo poema que jamais escrevi. Fazemos as pazes, óbvio.

Deus calado e sério, só ouvindo. Falei do privilégio de viver milhares de vidas, enquanto a maioria das pessoas vive apenas uma. Disse das viagens, dos milhões de quilômetros que andei e ando ainda nos múltiplos universos que Ele colocou dentro de mim. Comentei sobre meus olhos que enxergam sonhos, mesmo que hermeticamente fechados nas caixas-fortes do pudor e do medo de sonhar. Ele quieto, quase enfadado com a conversa interminável.

Tantas eram as coisas que resultavam daquela escolha, que não tinha fim a ladainha de agradecimentos e pedidos de desculpa, como se, antecipadamente, Ele não os conhecesse todos. Por fim, levantou-se, dando a entender que o encontro estava terminado, e já ia partir quando criei coragem e fiz a pergunta que me persegue a vida inteira: Por que sou daltônico? Deus, para surpresa minha, sorriu carinhosamente, como fazem os pais diante de perguntas bobas dos filhos pequenos, e respondeu: Ora, rapazinho, se te fiz poeta não ia deixar que enxergasses cores e perdesses o meu tempo e o teu tentando ser o mau pintor que, no máximo, serias.

Ainda sorrindo, elevou-se ao Céu, deixando-me perplexo ante Sua Sabedoria. Por isso é Deus!


* Poeta e escritor paraense

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