B de bunda
* Por Rodrigo Ramazzini
Sala de aula. Prova de química. No “fundão”, sentados lado a
lado, Mateus e Eduardo iniciam um diálogo no tom mais baixo possível para não
chamar a atenção da professora.
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Meu...
-
Hum.
-
Mateus...
-
Fala. Tô ouvindo...
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Sabe a quatro?
-
Qual? Não escutei. Fala mais alto.
-
A questão quatro. Sabe a resposta?
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Não fiz essa ainda.
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E a doze?
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Também, não!
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E a treze?
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A.
-
A?
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Isso.
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Tem certeza?
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Acho que sim. Eu marquei essa.
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Acha ou tem certeza.
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Tenho certeza.
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Eu achava que era b.
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Marca a que tu quisé.
-
Vou de A. Vou confiar em ti.
-
Eu não estudei muito. Já aviso...
-
Eu não estudei nada! Há! Há! Há!
-
Psiu! Fica quieto, mané! A professora vai ver...
-
Vai nada. Essa aí não vê nada. Olha a grossura das lentes dos óculos dela.
Parece um fundo de garrafa! Há! Há! Há!
-
Há! Há! Há!
-
Posso saber o que está tão engraçado aí no fundo?
-
Nada professora!
-
Nada mesmo, professora!
-
Fiquem quietos, senão vou tirar a prova de vocês!
Dez
minutos depois.
-
Mateus...
-
Hum.
-
Sabe a vinte? Falta só essa pra mim.
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Qual? Não entendi.
-
A vinte. Sabe?
-
Não entendi. Fala mais alto...
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A vinte...
-
Qual?
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A vinte, meu!
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A vinte é...
-
O que é isso, Eduardo e Mateus?
-
O que, professora?
-
Quié, professora?
-
Vocês acham que eu sou boba, é? Que eu não ouvi vocês conversando! Tentando
colar, hein? Me deem essa prova!
-
Tá louca, professora?
-
É... Professora...
-
O que é então, Mateus? Explica...
-
O Eduardo enchendo o saco... Tirando sarro da minha cara dizendo que já estava
na questão vinte... Que eu sou burro e não terminei ainda!
-
E?
-
E eu o mandei tomar na bbbbuuuunda!
-
O que é isso, Mateus?
-
Só estou contando o que aconteceu, ora...
-
Tu já terminaste a tua prova?
-
Não! Quase...
-
E tu, Eduardo?
-
Já, professora! Toma... E tu, Mateus, estou te esperando lá fora para a gente
acertar as contas... Ninguém me manda tomar na bunda e fica assim!
Silêncio
na sala de aula. Furioso, Eduardo deixa o local reclamando e gesticulando com
os braços. Parte da turma fica chocada com a sua reação. O restante dos alunos
eufóricos pela possibilidade de briga entre os até então amigos. Com a atitude
de Eduardo, a professora até esqueceu que fora tirar a prova dos dois
estudantes que estavam colando. Oito minutos depois do ocorrido, Mateus termina
a prova e deixa a sala, reencontrando Eduardo no pátio da escola. Uma “plateia”
assiste ansiosamente a cena esperando o desfecho do episódio turbulento
iniciado durante a prova. Mateus e Eduardo param-se frente a frente um do
outro. São cercados pelos outros alunos. Olham-se seriamente. Breve silêncio e
então...
-
Há! Há! Há! Dá um abraço aqui, Mateus!
-
Há! Há! Há! Tu entendeu, né?
-
Há! Há! Há! Claro, Mateus! Captei vossa mensagem amado mestre, quem nem diria
aquele personagem da escolinha do professor Raimundo. Era “B” de bunda a
resposta da vinte, né?
-
Era! Garoto esperto é outra coisa, hein?
-
Há! Há! Há!
-
E a professora, Eduardo? Nem se ligou!
-
Pois é...
-
Também! Com aquele teu teatro... Convencia qualquer um. Já pode virar ator! Há!
Há! Há!
-
Há! Há! Há! Vou pensar no assunto...
* Jornalista e contista gaúcho
Eu passaria batido nessa. Não captei nada. Acho que é porque nunca colei na vida.
ResponderExcluirPô, Mara! "Quem não cola, não sai da escola". Como te formaste? Há! Há! Há! Brincadeira! Obrigado pela leitura e comentário!
ResponderExcluirTenha um ótimo final de semana!
Aquele abraço!