Tragam
a História de volta
*
Por Viegas Fernandes da Costa
Quando
houve o atentado de Charlottesville em 2017 nos Estados Unidos, o
historiador Fernando Horta escreveu um artigo no qual discutia a
necessidade de se devolver à história e aos historiadores o
protagonismo na leitura e interpretação do mundo contemporâneo.
"Tragam a História de volta", apelava Horta em seu texto.
Há
duas semanas o Ministério da Educação publicou a Base Nacional
Comum Curricular para o Ensino Médio. O documento define as
diretrizes e disciplinas que os alunos deverão estudar na sua
formação escolar. A História, como campo de saber próprio, não
está lá. A História foi empurrada para os desvãos das
perfumarias.
Quando
Temer assumiu o governo, mudou o lema nacional. "Ordem e
Progresso" estampam agora as peças publicitárias oficiais, o
lema do positivismo do século XIX. Abandonamos a pátria educadora
para calçarmos coturnos e marcharmos para a farsa do passado. Na
escola positivista só há lugar para a gramática e as matemáticas,
para aquilo que se convencionou chamar de ciências exatas. A
História só serve se for para enaltecer o Estado e seus heróis. Só
serve se puder fazer falar aqueles que já falam por meio dos
pronunciamentos oficiais. E se o historiador francês Lucien Febvre
alertava para a necessidade da história fazer falar as coisas mudas,
não porque necessariamente mudas, mas emudecidas, o Brasil da "ordem
e do progresso" dirá que ouvir a voz calada é desfraldar
partido. É próprio do positivismo acreditar no todo. Trata-se de
uma questão de fé. O todo nasce do silenciamento das partes. A
sociedade como um corpo de onde se deve extirpar a célula doente. Já
a História, esta que cresce no derramar do século XX com suas
guerras e fomes globais, com suas válvulas, transistores e fibras óticas com sua imagem em movimento capaz de relativizar a importância do registro escrito, será para os olhos do governo positivista verdadeiro câncer;
Morte
aos pombos que cagam sobre a cabeça de concreto do general
imortalizado na praça! Ou matam os pombos,ou suas fezes cobrirão de
podridão a face da memória.
A
história nas escolas é o pombo que caga sobre a cabeça de concreto
do general. O general com seu uniforme de gala e sua espada
desembainhada é a face de pedra de um Estado estéril.
As
elites sempre souberam contar e estudar sua história. As elites de
sangue e as de renda. A história pendurada nas paredes dos salões
de visita com seus olhos que miram a eternidade. A história
preservada em diários e cartas guardadas em delicadas caixas imunes
ao tempo. Os pobres, entretanto, de mãos e pés gigantes, os
abaporus lançados às margens, não possuem árvore genealógica.
Para estes a História deve ser vedada. Quem tem história espera
futuro. Pobre só tem presente. Pobre tem mesmo é que andar muito
cansado para estar incapaz ao sonho. Pobre não tem tempo para
estudar história.
"Meu
filho, se souber escrever, somar e multiplicar, é suficiente",
diz o homem simples que crê no paraíso. Enquanto isso, os filhos
com pedigree aprenderão a tocar violino, falarão idiomas e
discutirão a história da humanidade como que se este fosse um hobby
exclusivo à elite letrada.
Por
isso, tragam a História de volta!
*
O autor é historiador e professor no IF-SC..
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