Inconformismo salutar
O
inconformismo é marca registrada de heróis e santos, de artistas e
cientistas, das pessoas que, de fato, fazem a diferença no mundo.
Nem todos concordam. Há moralistas, por exemplo, que pregam que o
conformismo é uma virtude. Que quando não podemos modificar
determinada situação, nitidamente ruim, devemos nos conformar com
ela, nos adaptar e tocar a vida.
Se
as coisas fossem assim, o homem ainda estaria vivendo nas cavernas,
se alimentando da caça e dos frutos que colhia, a mercê do acaso e
dos elementos. Claro que em algumas coisas, que não sejam
essenciais, devemos nos conformar, para sermos felizes. Por exemplo,
se não temos riquezas, isso não deve nos desesperar, desde que
tenhamos o suficiente para viver. Afinal, que valor intrínseco têm
essas bugigangas, pelas quais muitos empenham a vida?
Mas
de nada adianta a pessoa ser criativa, gerar milhões e milhões de
ideias e ter uma infinidade de conhecimentos se mantiver somente para
si própria os frutos do seu privilegiado cérebro. Tudo isso será
inútil se não causar efeitos positivos no mundo. Como todos nós,
sem exceções, esse pensador e criador irá morrer. E se não
partilhar com os outros o que souber, tudo o que sabe irá se perder
com sua morte.
Ideias,
por melhores que sejam, só têm valor quando partilhadas. Quando
geram efeito multiplicador, que implique em avanços da coletividade.
Quando projetam sombras, que outros transformem em atos. Conheço
muitos indivíduos bem-dotados mentalmente que enterram seus
talentos, por não saberem como os transformar em dinheiro. Quem age
assim comete um dos maiores pecados que uma pessoa pode cometer: o da
omissão. Saber muito, afinal, é tão importante? Claro que sim!
Muitos
espíritos retrógrados atribuem ao conhecimento todos os problemas
que a humanidade enfrenta na atualidade. Em certos aspectos, não
deixam de ter razão. Por exemplo, o avanço da tecnologia, que
resultou na invenção do automóvel, do avião e de outros meios de
locomoção que utilizam o petróleo como combustível, reduzindo
distâncias e “encolhendo” o mundo, resultou, em pouco mais de um
século, numa poluição do Planeta que 12 mil anos de civilização
não haviam produzido.
Só
que o “remédio” que eles receitam é, na verdade, veneno.
Defendem o desprezo ao conhecimento, o que levaria o homem de volta à
caverna primitiva. Só outro conhecimento, mais avançado, poderá
resolver este e outros tantos problemas que a tecnologia gerou.
Vivemos
numa época em que as pessoas têm verdadeira obsessão pelo novo.
Palavras como mudança, modernidade e novidade, entre outras tantas
de igual significado, frequentam, amiúde, todas as conversas e são
repetidas bilhões de vezes, todos os dias, mundo afora. É errado?
Depende!
Convém
observar que é rematada tolice, senão estúpido desperdício,
desprezar, liminarmente, tudo o que já existe, se estiver
funcionando e satisfazendo as necessidades das pessoas. Mudanças são
importantes, de fato, mas apenas se forem para melhor, evidentemente.
Nem sempre são.
Não
raro, valores fundamentais são derrubados, apenas por serem
“antigos”, sem que nada de melhor seja criado para substituí-los.
O moderno não passa do velho com roupagem nova. O correto é pensar,
sim, em inovação, mas sem dispensar, sem mais e nem menos, a
tradição.
Embora
com critério – conservando o que funciona bem e, se preciso,
melhorando-o – temos, portanto, sempre, que mudar o que requeira
mudanças: comportamentos, atitudes, pensamentos, sentimentos e
objetivos, entre outras tantas coisas. Mas, reitero, sempre em
sentido evolutivo, com critério e com rigorosa análise dos nossos
passos.
Mudanças
consistentes e necessárias significam evolução, amadurecimento,
sabedoria. Claro que não podemos sair por aí mudando tudo e todos
afoitamente. Corremos o risco de gerar “Frankensteins”, em vez de
belos e aperfeiçoados espécimes. Mudanças, no entanto, fazem parte
da vida.
A
natureza nos muda diariamente, ora para melhor, ora para pior, mas
nos deixando sempre diferentes do que fomos ontem. Henri Bérgson
escreveu o seguinte a esse respeito: “Para um ser consciente,
existir consiste em mudar, mudar para amadurecer, amadurecer para se
criar a si mesmo indefinidamente”. Devemos nos criar do berço à
tumba, sem cessar. Mas sempre com critério e bom-senso.
Boa
leitura!
O
Editor.
Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk
Pode ser que eu me engane, mas sou capaz de jurar que já li este texto há algum tempo.
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