Tuiuti,
assunto requentado (ou quente?)
* Por
Mara Narciso
“Meu
Deus, meu Deus, está extinta a escravidão?”
Frases
colhidas no Facebook: “Escola hipócrita, é contra a reforma
trabalhista, com destaque para as carteiras de trabalho destruídas,
e não formalizou contratos de trabalho neste carnaval”. “Escola
financiada por partido político e com carnavalesco militante, de
visão unilateral”. “A mando de um partido, fez protesto
setorizado, deixando de lado o PT, o ‘Petrolão’ e outros
escândalos.” “Escola de Samba vendida, patrocinada pelo PT,
deixou de fora os crimes do partido”. “A desonestidade
intelectual chega ao carnaval. Para a Tuiuti a culpa é dos
brasileiros, para a Beija-Flor, a culpa é dos corruptos”. Os blogs
e redes sociais fervilham Tuiuti, escola que desfilou no Grupo
Especial no Rio de Janeiro no dia 12 de fevereiro, e foi o assunto
mais comentado no Twitter no Brasil e o segundo na imprensa
internacional.
A
esquerda se apropriou do samba enredo, enredo e desfile do Grêmio
Recreativo Escola de Samba Paraíso do Tuiuti transformando-os em seu
hino. As comunidades negras desentalaram os 130 anos de escravidão
pós Lei Áurea em seu desfile-protesto. Contou a história desde a
escravidão, até os dias atuais, com denúncia de golpe político, o
que surpreendeu a Rede Globo, que, segundo alguns, foge da notícia.
Resultado
da fusão da Escola de Samba Paraíso das Baianas e Unidos de Tuiuti,
a agremiação existe desde 1954. No ano passado protagonizou um
acidente na Avenida Marquês de Sapucaí, quando um carro alegórico
atropelou e feriu 20 pessoas, prensando-as contra uma grade e matando
uma jornalista. Segundo a família, ainda não recebeu indenização.
Para
desmerecer a segunda colocada, que perdeu para a Beija-Flor de
Nilópolis por um décimo, os blogueiros de orientação à direita,
destacam os erros da escola de São Gonçalo, enquanto os de
orientação à esquerda fazem a festa. A comissão de frente “Grito
de Liberdade” recebeu o Estandarte de Ouro. Mostrou negros
escravizados, com máscaras fechando a boca, apanhando do feitor,
numa cena dramática (“Comissão de muita verdade”, diz seu
coreógrafo Patrick Carvalho).
A
letra fala:
“E
assim, quando a lei foi assinada
Uma
lua atordoada assistiu fogos no céu
Áurea
feito o ouro da bandeira
Fui
rezar na cachoeira contra a bondade cruel”...
Enquanto
o desfile mostra pessoas prisioneiras em sufocantes casas na favela,
no serviço pesado dos canaviais e outras prisões. A escravidão
persiste e se acentua agora, com a Reforma Trabalhista. O presidente
Michel Temer é representado vampirizando a classe trabalhadora,
coisa ignorada pelos comentaristas da Rede Globo. Devido à má
repercussão, que os apoiadores do governo chamaram de fanatismo na
leitura do desfile, teve de refazer seu discurso.
Quem
bateu panela pelo impeachment de Dilma Rousseff, não gostou de se
ver representado como “manifestoche”, dentro do Pato Amarelo da
FIESP, e manipulado por imensas mãos, que seriam o Poder (Rede
Globo), mas que representam a própria Globo, dizem os opositores da
mídia tradicional.
O
toque de gênio, falam os entendidos, do carnavalesco Jack
Vasconcelos, tornou o enredo de leitura fácil. Trabalhou em cima do
Samba Enredo, composto por Cláudio
Russo, Moacyr Luz, Dona Zezé, Jurandir e Aníbal,
e que está condenado à imortalidade, devido à força dos seus
versos. “Não sou escravo de nenhum Senhor”, mostra a
insatisfação das classes da base da pirâmide, que, no desfile teve
sua voz pela própria liberdade.
Para
amenizar o efeito da mensagem que fazia crítica ao racismo, à
exclusão social e acusava o poder de golpe político, parlamentar e
midiático, os simpatizantes do Governo Temer desmoralizam o emissor.
Em resposta, um internauta retrucou: “não importa quem produz a
mensagem, ela fala por si”. A visibilidade conseguida pela
ex-pequena Escola de Samba Paraíso de Tuiuti mostrou a capacidade de
superação dos seus componentes, levando-a para a mira dos
holofotes. Dois dias depois, contrariando os índices alardeados, o
General Walter Souza Braga Netto, nomeado por Michel Temer para
comandar a Intervenção Federal no Estado do Rio de Janeiro falou
que o suposto aumento da violência era resultado de efeito
midiático. Especulava-se sobre uma represália do Governo à crítica
da Tuiuti, mas quando a escola se reapresentou descaracterizada a
dúvida se esvaneceu. A censura voltou.
*
Médica endocrinologista, jornalista profissional, membro da Academia
Feminina de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico, ambos de
Montes Claros e autora do livro “Segurando a Hiperatividade”
Errata: A Paraíso de Tuiuti é de São Cristóvão, e não São Gonçalo como está denominada.
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