“Chove
lá fora e aqui tá tanto frio” (Me chama-Lobão)
* Por
Mara Narciso
Nuvens
vinham passear na cidade, ficavam grávidas, escureciam, passeavam
pelo céu e iam embora sem acontecer. Talvez ficassem tímidas com as
nossas súplicas, por não tirarmos os olhos do alto, implorando por
elas. Então, não choviam.
Mas,
enfim, depois de 45 dias de primavera e quatro chuvas rápidas,
finalmente choveu em Montes Claros. Foi a 5ª chuva do período e
ainda que tenha tido ventania, foi chuva calma, e de certo volume. O
vento cantou no telhado, os grilos estão cantando e as mariposas
apareceram. De manhã, a passarada enfeita o tempo com sua cantoria
feliz.
Soube
pela Copasa que, caso a chuva volte ao seu volume normal nos períodos
de primavera e verão, em cinco anos a barragem atingirá seu volume
de segurança. A represa de Juramento, que fornece 65% da água para
Montes Claros, estava com 15% da sua capacidade. Os rios Saracura e
Juramento que a abastecem, tinham parado de correr. O drone nos
trouxe imagens chocantes da nossa seca e da ameaça de fuga da
população. Grandes rios sem água, inclusive o Rio São Francisco,
manteve a população em permanente pânico. Agora o norte de Minas
pode entender os retirantes do nordeste.
Há
dois anos estamos em situação de restrição hídrica, com
racionamento de água. A cidade foi dividida em zonas e cada setor
recebe água num dia, faltando dois. Ameaçam ampliar os dias
faltosos. Nas residências, as cisternas e alguns poços artesianos
estão secos. A maior parte da população está consciente e
economiza em tudo, até na descarga sanitária. Banhos curtos e com
chuveiro desligado ao ensaboar, reutilização de água de banho para
lavar quintal e dar descarga, coleta de água de chuva dos telhados,
uso de roupa por mais tempo, economia de utensílios domésticos, uso
de descartáveis, redução de plantas em casa, nada de usar
mangueira, apenas balde e economia de consumo no limite máximo.
Desde o dia 19 de outubro, o município estipulou multa para quem
utilizar mangueira para limpeza e jardim. Gastamos, em três dias, o
que gastávamos em apenas um.
A
Meteorologia previu chuva para toda a semana. Demorou a engatar, mas
finalmente a chuva nos pegou em dias falhados, a semana inteira.
Ficou nublado todo o tempo. A temperatura caiu dos 36 para 22ºC.
Hoje teve ligeira cerração. A cidade se animou. Em vez de reclamar
da restrição e por outro lado imaginar que alguns dias de chuva nos
salvaram, vamos plantar árvores e nos conscientizar que a
monocultura de eucalipto é nefasta ao clima, especialmente o
descuido com as terras em volta, com suas erosões e destruição das
nascentes. Levaram nosso cerrado e estão transformando o norte de
Minas num deserto, mas quem sabe ainda haja tempo de nos educar em
cima de conhecimentos técnicos?
Montes
Claros perdeu investimentos, pois sem água, como implantar negócios
aqui? A Cidade Industrial está recebendo o precioso líquido todos
os dias, e em quantidade para seu consumo habitual, mesmo assim,
poucos se arriscam. Também o Bairro Morrinhos tem água todos os
dias, por estar logo abaixo da ETA - Estação de Tratamento de Água.
A
nossa seca histórica, que nesse ciclo já dura sete anos, fez
desacostumarmos com água fria pingando do céu. Uns poucos respingos
incomodam, mesmo que estejamos alegres com eles. E, perdurando uns
poucos dias, já ouvimos gente reclamando. Circulou um vídeo de uma
senhora, sob sombrinha e chuva forte, molhando uma planta na rua com
um regador. Ninguém entendeu.
E
que a chuva caia em abundância em nossa cidade, e quando houver
festas, que se usem toldos ou se festejem dentro das edificações, e
as mulheres estejam preparadas para molhar as barras dos seus
vestidos longos e desmanchar os seus cabelos com os respingos. A
sobrevivência em primeiro lugar. E a vaidade, essa que venha
depois.
*
Médica endocrinologista, jornalista profissional, membro da Academia
Feminina de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico, ambos de
Montes Claros e autora do livro “Segurando a Hiperatividade”
Que a benfazeja chuva venha pra ficar, Mara. Vocês merecem! Abraços.
ResponderExcluirContinua chuviscando por aqui, mas a água do reservatório permanece imutável.
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