segunda-feira, 2 de outubro de 2017

O segredo


* Por Emanuelle Adacheski 
 


Ele não conseguia ficar tranqüilo. Afinal de contas, ninguém poderia descobrir. Seria o fim. O melhor mesmo era ficar invisível. Se descobrissem, ele iria chamar muita atenção. Pior, seria alvo de chacotas: seu maior temor, seu trauma e sua desgraça.

Já bastava tudo o que havia sofrido quando criança. Adulto como estava, aos 37 anos de idade, não era hora de ele passar por aquilo de novo. Além do mais, vai saber se seu coração agüentaria. Ele não era mais tão jovem, seus hábitos não eram o que se podia chamar de saudáveis e a balança acusava bem mais do que apenas alguns quilinhos em excesso. E estava até na moda ter piripaques cardíacos antes dos 40. Era só dar uma olhadinha nos noticiários.

Passava esse nervoso todo diariamente. Não havia coisa em que pensasse mais. Aquela confusão mental até o deixava cansado. Acabou pegando no sono. De repente, seu maior inimigo o tira daquele raro momento de serenidade. Roonnnnc! Ronco maldito! Como se não bastasse ser completamente sem atrativos, tanto físicos como de personalidade, ele ainda roncava.

Nenhuma mulher iria querer saber dele se conhecesse aquele barulhento probleminha. Nem mesmo um casamento de aparências iria para a frente. Era mesmo muito azar. Ele devia ter feito algo muito macabro na vida passada para juntar tanto defeito numa pessoa só!

O segredo do ronco guiava toda a sua vida. Viajar? Só depois de dormir horas e horas para não correr o risco de cair no sono sem querer. Dormir fora de casa? Só em hotéis, nunca perto de qualquer outra pessoa. Nem cochilos no meio da tarde de domingo, depois daquele almoção na casa da mãe, eram permitidos. Muitos parentes por perto. Iriam falar dele pelas costas. Ele se preocupava até se os vizinhos podiam ouvir! Seu sono nunca era profundo.

Tantos anos de noites atormentadas um dia acabaram por traí-lo. Em plena tarde, no escritório, ao ler mais um daqueles chatíssimos memorandos, os olhos começaram a pesar e a pesar. Já não conseguia mantê-los abertos. Rooonncc!

Não! Não podia ser! Mesmo sem olhar, ele tinha certeza de que todos os olhos estavam pousados sobre ele, de maneira acusadora e discriminatória. Não pensou duas vezes, saiu correndo o mais rápido que sua corpulência permitia. Conseguiu ainda dar dois passos além da porta. Que dor lancinante!

Ele tinha razão. Aquele segredo algum dia iria terminar por matá-lo.

* Jornalista



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