O
Miguel de Cervantes de Maria Augusta Vieira
* Por
Mara Narciso
Como
admiradora da Literatura corri a sorver a palestra de Maria Augusta
Vieira sobre Miguel de Cervantes e Dom Quixote de La Mancha.
Aconteceu no Clube de Leitura Ateliê Galeria Felicidade Patrocínio,
parceiro da Academia Feminina de Letras, cuja presidente Ângela Vera
Tupinambá Castro trouxe a palestrante de São Paulo.
Admirável
e cheia de títulos, Maria Augusta é uma mulher de voz macia e
modéstia exuberante, sendo possuidora de mestrado e doutorado em
Literatura Espanhola. Dedicou amplos estudos a Miguel de Cervantes, o
maior ás da Literatura Mundial, autor que leu tudo o que havia em
seu tempo e escreveu o mais imortal de todos os livros, obra que
provoca reuniões como esta, 400 anos depois.
Maria
Augusta, que considerou a nosso encontro algo “cervantino”,
explicou que na época de Cervantes eram comuns reuniões literárias
chamadas tertúlias, que aconteciam em tabernas, nas quais o escritor
lia em voz alta seu escrito, enquanto os demais opinavam. Não havia
a intenção de ser criativo, pois a cópia estava na moda, mas
Cervantes inventou uma nova forma de narrar.
O
escritor não era nobre, numa época em que usar as mãos para
produzir era desabonador, e aos nobres era proibido trabalhar. Por
sua vez, o lazer contava com jogos de cartas, vinhos, teatro, música
e literatura na Península Ibérica, que vivia uma ebulição
cultural de viagens e livros, num momento de riqueza dada pelo ouro e
prata trazidos das colônias na América.
Cervantes
escreveu Dom Quixote de La Mancha, de mil páginas, em duas partes,
sendo a primeira publicada em 1605 e a segunda dez anos depois. Não
teve apoio financeiro, numa época em que as publicações só saíam
após autorização da Coroa. Esta normatizava temas a abordar, num
movimento conhecido como Contrarreforma, que tinha assuntos
proibidos.
O
protagonista Dom Quixote, fidalgo e cavaleiro andante, numa paródia
aos romances de cavalaria, passeia mundo afora, dialogando com as
novelas campesinas e picarescas. O autor fala dos conhecimentos de
então, passando pela Astronomia, guerras, viagens, costumes de
países, utilizando palavras de cada área, mas, numa linguagem
acessível, mostrando um fácil entabular de conversa entre a
Literatura erudita e a popular.
Dom
Quixote e seu fiel escudeiro Sancho Pança vivem histórias que ora
contam, ora ouvem. Acontece uma conversa entre dois mundos opostos
representados pelo intelectual Dom Quixote e o tosco Sancho Pança.
Mesmo iletrado, o escudeiro tem sabedoria popular, e, diferentes em
tudo, convergem no diálogo. Ambos os personagens trazem a dualidade
em si, com um Dom Quixote louco e lúcido, e um Sancho Pança rude e
sábio.
A
obra expõe o mundo social da época, com humanismo, dando voz aos
grupos humanos, ousando nos experimentos narrativos e psicológicos.
A vida da pastora Marcela tem leves pitadas feministas, com um
Cervantes mostrando a posição da mulher na sociedade. Nela, um
pastor se apaixona por Marcela, que não quer se casar, e sim, viver
livre pelos campos. O moço rejeitado morre, não ficando claro se se
suicidou, ou não.
Noutra
história, uma mulher virtuosa é colocada à prova duas vezes. Tudo
combinado entre seu marido e um amigo, a mulher acaba não resistindo
aos encantos do intruso. Na primeira viagem do marido, a mulher
resiste, mas ele se afasta novamente. Desta vez a esposa cai em
tentação, ainda que em pensamento, mostrando que o ser humano de
bem tem limites. Devido às habilidades literárias e sutilezas do
autor a personagem adúltera é perdoada pelo leitor.
Noutra
narrativa uma personagem feminina mostra falta de sabedoria em viver,
sugerindo misoginia de Cervantes ao colocá-la inábil em escolher
com quem se casar, vivendo em constantes apuros.
“Cervantes
sustentava mulheres suas parentes e teve vida pobre, mas não tão
miserável quanto a pintam”, explicou a palestrante, que, além de
destacar as personagens femininas, estimulou a leitura da obra na
língua original.
À
medida que nos dirigia sua retórica melodiosa, de expressões
catadas num rico manancial, foi
levando os
cerca de 80 ouvintes ao intrigante Dom Quixote de La Mancha, sua
viagem, histórias e paixões. Nutridos pela força de suas palavras,
após a imersão de duas horas, poderíamos, sem medo, enfrentar
nossos moinhos de vento.
*
Médica endocrinologista, jornalista profissional, membro da Academia
Feminina de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico, ambos de
Montes Claros e autora do livro “Segurando a Hiperatividade”
É como você diz: já são passados 400 anos, e esse monumento ainda provoca debates, teses, ensaios, elucubrações filosóficas as mais diversas... Obra eterna.
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