O
voo, de Vitor Soltau
* Por
Marcelo Labes
No
primeiro livro a gente faz questão de acertar, mas sempre erra mais
do que acerta e, no fim das contas, estão lá nossos erros, acertos,
acidentes que deram certo, tentativas frustradas de mais acertos que
erros, e por aí vai. Para os que não desistem do primeiro voo, vem
o aprendizado de ter continuado a voar. Não me refiro aqui, preciso
deixar claro, ao primeiro EP de Vitor Soltau, de nome Gratidão, de
2016, que já é um acerto em si. Mas preciso falar do álbum desse
jovem músico, O
Voo,
que será lançado em breve, cujo áudio já podemos ouvir aqui
e
aqui,
e que demonstra que Vitor amadurece enquanto compõe e voa mais, mais
alto.
Conheci
o Vitor num sarau muito bonito, organizado aqui em Blumenau. De uma
reunião de poetas — alguns de primeiros versos, alguns de muitos
livros — eis que lá surge o menino com o violão. Pensei: isso
pode sair muito bem como também pode resultar muito mal. A minha
surpresa! Porque Vitor Soltau é sonoro dum jeito muito específico,
e o que canta são poemas muito bem escritos. De “jovem rapaz com
um violão embaixo do braço” (minha primeira impressão), fiquei
orgulhoso de ter tido oportunidade de ouvi-lo.
Avisei-o
de que escreveria este singelo texto e pedi, claro, ajuda para
identificar ritmos e saber com o compositor sobre suas composições.
Faixa a faixa, eis o disco:
Menino
Passarinho, a canção que abre O voo, não poderia ter sido
melhor escolhida para a ocasião. Ali Vitor se apresenta como o
compositor sensível que acompanharemos pelas faixas seguintes do
álbum. E já na abertura ele nos aponta que as palavras, em suas
composições, têm valor de importância, pois que:
Pássaros
voando são poemas Que pousaram tão distante Que nos falta alcançar
Poetas
caçam pássaros voando Nessa imensidão azul Que temos a explorar
Dos
cantos de pássaros na abertura da música, passando pelo dedilhado
singelo, sonoro, sincero, voamos alto, voamos junto do artista. Por
um instante, o voo é o que existe. Mas se a gravidade há de exercer
sua força — e ela exerce, salve Newton! — Cenários
de Beleza apresenta-se telúrica, breve, sagaz. O pouso é
forçado e turbulento, e chegamos onde “São tantos cenários de
beleza / Torturados pelas elites efêmeras”. Exatamente aqui, eu
diria. Mas Vitor faz isso de maneira leve, ainda. Numa voz de
sussurro e sossego (ou será tensão?), o artista que nos havia
convidado ao voo, nos traz de volta à terra e acho que essa é a
primeira vitória do álbum.
Vitor
Soltau viveu em Córdoba, Argentina, e é do país vizinho que traz o
folklore que mistura ao samba para este passeio litorâneo, Canto
Estelar, em que nos é apresentada a cosmogonia do compositor:
“Busque o bem sempre”, é o recado.
Gratidão,
este candombe, traz tanto que emociona. Voamos novamente, e dessa vez
para o universo familiar de Vitor. O artista que havia se apresentado
nas faixas anteriores, agora apresenta o lugar de onde veio. E
poetiza a família, a quem agradece; agradece “à estrela / à
alegria / de vê-la”, agradece “às Marias e Joanas / em semanas
tão mundanas”. E é assim que Vitor desenvolve suas composições:
entre céu e terra, voo e queda, sendo sobretudo sincero,
mostrando-se profundamente agradecido.
O
fato de ter morado fora, e quem já passou que fosse uma semana fora
do Brasil entenderá, explica a ingenuidade bonita de Como
Vento, onde o Brasil é cantado com clichês que o descrevem,
com os quais o descrevemos e de como lembramos de casa quando não
andamos por aqui. Lembrei-me do final de minha primeira viagem,
quando cruzei com um rapaz pelas ruas de San Telmo, em Buenos Aires.
Ele carregava um surdo e pedi que ritmasse samba. O que senti naquela
hora, Vitor descreveu nesta faixa.
Curiosa,
Poesia em Ti começa funk, e funk
permanece. Aqui o compositor pede ajuda de poetas mais velhos e segue
de mãos dadas com Drummond, Manoel de Barros, Pessoa... e nós damos
as mãos ao artista que visita sons e palavras com leveza e
segurança, na companhia de Marianella Anelli Colucci, que o
acompanhará também em A(mar), Aquela
do Céu e Estrella. A distância,
a propósito, é encurtada pelos versos claros desta bela canção em
espanhol: “No me olvidé de la fuente / de sus ojos brillantes”.
Porque
O Voo precisa terminar (e são assim
essas experiências de lirismo, elas precisam ter fim), termina logo
nos lembrando do inevitável. Tempo tem
essa capacidade de encerrar o disco, nos fazer pousar (agora um pouso
tranquilo, equilibrado, sem turbulência) e lidar com o dolorido da
falta dele, como numa cantiga de ninar que não faz dormir, mas
convida à insônia.
Ouçam
Vitor Soltau sem medo. Permitam-se esse Voo para o qual o artista, já
alto, nos convida a voar junto. Se for um dia de vento, o Voo será
certamente mais prazeroso, ainda que nos dias nublados e úmidos
(aqueles em que tememos embarcar), a voz, os violões, os ritmos e os
poemas de Soltau possam nos mostrar que pra além das nuvens existe
um céu de brigadeiro. Não que isso seja uma novidade, mas é sempre
bom parar para recordar — e o menino-passarinho faz isso muito bem.
*
Poeta de
Blumenau/SC
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