Peralta
por onde andas
* Por
Marcelo Sguassábia
Faltam
peraltas na praça. E nas ruas, nas favelas e alphavilles, nas
escolas, nos shoppings, academias, quermesses, banheiros públicos,
desfiles cívicos, confessionários de igreja e onde mais haja espaço
e oportunidade para uma boa e bem arquitetada traquinagem.
O
mundo é cinza e tedioso sem um peralta aprontando das suas. Mas
tomou chá de sumiço, o danado. O que se vê é, de um lado, uma
molecada predominantemente bem-intencionada, e de outro os
delinquentes assumidos - tipo os hackers, os praticantes de bullying
e os que dão almôndega com veneno pra cachorro. Fora isso, temos os
nichos de nerds e outros esquisitos em suas órbitas particulares.
Mas o peralta legítimo - aquele gurizinho astucioso, vivaldino, que
comete sua maldade de salão de um jeito estudado e atrevido, esse
não tem nem pra remédio.
Não
é de hoje que o mundo anda escasso de levados. De levados e de
levados da breca, seja lá qual for a diferença entre uns e outros.
Aquele menino que pegava no telefone e passava trote perguntando se
tinha um fusca gelo parado na frente da casa. Brincadeira de fim
melancólico. O fusca, pobrezinho, saiu há décadas de linha, e o
trote ficou na saudade depois do identificador de chamadas. Aliás,
trote (além do literal sentido do andar dos equinos) está denotando
unicamente o rito de iniciação nas Universidades - que, por sinal,
também e felizmente anda caindo em desuso. Até mesmo o traquinas
passador do trote já deve estar na terceira idade, se conseguiu
sobreviver até agora. Não, peralta, esse mundo não é mais para
você. Foi-se o seu tempo, garoto de kichute.
"Nossa,
como esse menino é arteiro!". Isso é frase de tia Dirce,
Matilde, Odete, Leonor. Tente lembrar da última vez em que você
escutou isso, se é que já escutou. Sem chance, caso tenha nascido
depois de 1980 e não é baby boomer ou geração X.
O
peralta ficava de castigo, levava cintada e safanão, tinha mesada
suspensa. Tomava bronca, pito, sermão e lambança. E estava sujeito
a pescoções quando pego de surpresa escrevendo "lave-me"
com o dedo em vidro de carro sujo.
Um
autêntico travesso com T maiúsculo prendia o botão da campainha
com durex e saía correndo. Colava moeda com araldite no asfalto e
ficava na moita rachando o bico, vendo os tontos unhando o chão.
Pregava aviso de "sou bobo" nas costas do uniforme dos
colegas. Prendia carta de baralho na roda traseira da bicicleta para
imitar barulho de moto. Esse é o pá virada genuíno, tão em
falta.
Talvez
os últimos exemplares da espécie tenham ido dessa pra melhor em
1999. Era uma rede de supermercados que, sabe-se lá o motivo, tinha
o nome de Peralta. E que acabou sendo engolida pelo grupo Pão de
Açúcar.
*
Marcelo Sguassábia
é redator publicitário. Blogs:
WWW.consoantesreticentes.blogspot.com (Crônicas e Contos) e
WWW.letraeme.blogspot.com (portfólio).
Gostei da lista de sinônimos e do conteúdo. Conheço um autêntico exemplar da espécie de peraltas, meu filho Fernando. Acrescentaria o termo traquinas e danado, e aplaudo suas perspicácia e lembranças.
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