Resultado de angústia
A
angústia, aquele misto de ansiedade, medo e frustração, é um dos
sentimentos mais difíceis de suportar. Todavia, é a marca
registrada dos artistas. Uma obra de arte, qualquer que seja sua
forma de manifestação, é fruto de muito trabalho, estudo,
concentração e autodisciplina.
É
uma enorme bobagem achar que numa súbita inspiração, alguém irá
escrever um poema como a “Ilíada”, de Homero, ou a “Eneida”,
de Virgílio, ou “Os Lusíadas”, de Camões ou algo semelhante.
Ou que irá pintar uma tela como Renoir, Rembrandt ou Velazquez. Ou
compor uma “Nona Sinfonia”, como Beethoven. Ou esculpir uma
estátua como “Moisés”, de Michelangelo ou “O Pensador”, de
Auguste Rodin.
A
inspiração, se existir, irá, quando muito, “sugerir” ao
artista o tema a ser explorado. Todavia, a forma que adotará é que
irá determinar a qualidade, beleza, transcendência e durabilidade
(diria perpetuidade) da obra e até mesmo se ela vai existir ou não.
O ato de criação é, portanto, uma contínua angústia: antes,
durante e depois de se optar por determinada idéia.
Já
escrevi, em inúmeras ocasiões, com base em experiência pessoal,
que a arte precisa ser instintiva, natural e selvagem. Não me refiro
à técnica de produção, claro. Mais do que outras atividades
quaisquer, ela carece de método, de organização, de direcionamento
da aptidão do artista. Mas a concepção, a abordagem do tema, a
visão de determinado objeto ou circunstância têm que ser
revestidos de autenticidade, de individualidade, de exclusividade e
de muita ousadia. Trata-se da única forma de sermos autênticos.
A
arte é a nossa carta de alforria. É a absoluta e irrestrita
liberdade de quem a produz. Afinal, ninguém é forçado a ser
artista: músico, escritor, pintor, escultor, poeta... É uma escolha
pessoal e intransferível, questão de vocação ou de talento. Ou se
é ou não se é artista, não existe meio-termo.
Fazer
arte, portanto, é o modo mais eficaz de que cada pessoa dispõe para
ser livre, para impor a personalidade, para deixar a marca no mundo.
A aceitação ou não do que o artista produzir é outra história.
Vai depender de critérios subjetivos de apreciação e avaliação
dos destinatários. O reconhecimento alheio, claro, foge-lhe por
completo das mãos. É uma roleta-russa.
Mas
a arte não comporta interferências e nem censuras. A liberdade de
escolha do artista tem que ser respeitada e irrestrita. Só a ele
cabe decidir sobre o que, quando, como e onde criar. Pois a arte é a
nossa carta de alforria. É o nosso "DNA". E a nossa marca
registrada. É o nosso ser. É a nossa vez. É a nossa voz...e
única... Tudo isso, no entanto, tem um preço.
O
que move o artista é uma contínua angústia, reitero, antes,
durante e depois da produção de uma obra. No momento da inspiração,
angustia-se, principalmente, ao procurar a melhor forma de expressão.
Durante a execução, preocupa-se em não omitir nenhum detalhe,
qualquer nuance que dê beleza ao que está executando. E, concluída
a produção, fica-lhe sempre um sentimento vago, de frustração, de
que não era daquela maneira que queria que a obra fosse, além do
temor de ser mal-compreendido pelos que vão apreciar (e de alguma
forma, julgar) o que produziu.
Por
isso, o poeta Carlos Drummond de Andrade sabia o que estava dizendo
ao constatar: “A obra de arte é o resultado feliz de uma angústia
contínua”. E eu aduziria: cujo final jamais satisfaz o artista. Se
o satisfizer, certamente ele não é do ramo. Ou então, trata-se de
um neófito dessa especialíssima confraria, que ensaia os primeiros
passos no mundo das artes e é dotado daquela ingenuidade
característica dos principiantes.
A
motivação do artista, raramente, é a pecuniária. Alguns, poucos,
enriquecem com seus trabalhos. Estes, todavia, são exceções. Tanto
que a maioria leva uma vida caracterizada por carências materiais de
toda a sorte, alguns, até, na miséria explícita, embora dotados
desse talento de transformar tudo o que tocam em ouro. Quem lucra com
sua criatividade, no entanto, são os outros: editores, marchands,
gravadoras etc. etc.etc.
Fosse
por dinheiro, por exemplo, Vicent Van Gogh jamais produziria as telas
que produziu. Desistiria à primeira pincelada. Talvez pintasse um ou
dois quadros, mas só. Logo, largaria mão da arte e faria outra
coisa qualquer, mais rentável, para se sustentar. Afinal, em vida,
vendeu apenas dois quadros. E assim mesmo, essa venda não foi feita
para nenhum apreciador de arte ou algum excêntrico colecionador.
Nada disso!
As
duas únicas aquisições de suas pinturas foram feitas pelo seu
irmão Teo, e de forma anônima, para não agastar o artista. E hoje,
quanto valem seus trabalhos? Literalmente, não têm preço! Custam
fortunas, ascendem aos milhões e a procura é infinitamente maior do
que a oferta. Quem tem um Van Gogh nunca comete a tolice de o vender.
Criar,
dar forma e substância ao que existe apenas na imaginação é,
sobretudo, descobrir mundos, às vezes fascinantes e outras,
assustadores. Portanto, é ousar. É ter coragem para aceitar o risco
do ridículo. É desafiar o sistema vigente com alguma novidade que
muitas vezes choca a sensibilidade alheia, mas não raro encanta,
deslumbra e embevece. É enriquecer o patrimônio da humanidade. É
colher os frutos desse supremo dom com humildade e inquietação. Só
a arte dá dimensões divinas ao ser humano. É apenas por seu
intermédio que o homem verdadeiramente se revela em toda a sua
grandeza e transcendência. Mas tem, como subproduto, intensa
angústia, que se renova a cada nova produção.
Boa leitura!
O Editor.
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O artista apenas suspeita até onde irá chegar.
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