Regularidade e beleza
O
artista (não importa de qual arte) tem sensibilidade superior à
média, muito mais aguçada que as pessoas comuns. Conta, por
exemplo, com raro dom de vislumbrar beleza onde ninguém, que não
tenha esse senso estético tão apurado, sequer suspeita que exista.
Enxerga
as coisas comuns, aparentemente banais, sob um prisma diferente da
maioria, que surpreende os que não têm esse dom. Ouve sons que para
os outros é mera algaravia dissonante de ruídos, nos quais detecta
harmonia e musicalidade.
Sente,
na ponta dos dedos, nuances que tornam asperezas e rusticidades em
coisas suaves, refinadas e belas. Distingue olores especiais onde
parece haver, somente, cheiro acre e enjoativo de decomposição,
quando não de podridão.
Descobre
sabores inusitados – mistura exótica de doce, salgado, azedo e
amargo – em frutos e alimentos que para a maioria sabem a um gosto,
se não desagradável, pelo menos não atrativo. Sim, amigos, a
culinária também é arte. E das mais difíceis, porém prazerosas.
Essa
sensibilidade acima da média, porém, não se manifesta, apenas,
ocasionalmente. Uma vez ou outra, quem não é artista, também a
tem. Neste, todavia, ela está incorporada à sua personalidade, faz
parte da sua pessoa. Está ali, sempre presente, e ocorre, sobretudo,
com regularidade. Esta é a palavra-chave do talento. Sua busca por
beleza é permanente, incessante, obsessiva até. E por tanto
procurá-la, encontra-a, amiúde, e em profusão, embora, via de
regra, sequer se dê conta de que a encontrou. .
O
escritor alemão do século XVIII, Georg Phillip Friedrich von
Hartenberg, conhecido pelo pseudônimo de Novalis (também chamado de
“Profeta do Romantismo”) escreveu, certa feita: “Na verdade, o
pintor pinta com a vista. A sua arte é a de ver tudo com
regularidade e beleza”.
Claro
que esta constatação vale, igualmente, para as demais artes, apenas
substituindo os olhos por outros sentidos, como ouvidos, nariz, tato
e papilas gustativas, quando for o caso. O comum para todos é o fato
do artista utilizar a aguçada sensibilidade que tem com
“regularidade e beleza”.
O
conceito de belo é subjetivo. O que é bonito para uns, pode não
ser para outros e vice-versa. É o artista que lhe confere
universalidade e, em determinadas ocasiões, até unanimidade, o que,
convenhamos, é bastante raro.
Arte
não é algo que se possa fazer ocasionalmente. Da concepção de uma
obra, até a sua conclusão, transcorre um tempo imenso, sobretudo
esta última parte. Seu executor praticamente nunca se satisfaz com o
resultado do que produziu. Encontra, a todo o momento, imperfeições
onde o leigo nunca suspeitaria que houvesse.
Batalha,
incessantemente, para encontrar o jogo mais apropriado de luz e
sombra e a tonalidade mais adequada de cor em sua pintura. Busca,
obsessivamente, a nota musical mais expressiva e harmônica na
composição musical que produz, cuja diferença, talvez, só ele
consiga perceber. Garimpa a palavra mais precisa, que torne clara e
sem qualquer ambigüidade cada estrofe de um poema, ou cada parágrafo
de um conto, ou cada descrição de um cenário, no caso de se tratar
de escritor.
Por
mais que o produto final da sua concepção original pareça perfeito
aos que o rodeiam, o artista nunca se satisfaz. Não raro, paga preço
proibitivo por sua hipersensibilidade. Sofre demais e chega a
lamentar por seu talento. Faz arte pela arte e raros conseguem um
padrão pelo menos razoável de vida, do ponto de vista material.
Esquece-se
de tudo e de todos na sua busca regular por beleza. E empenha-se por
perpetuá-la em tintas, em pedra, em metal, em sons, em textos, em
perfumes, em sabores etc.etc,etc, Consegue, mesmo que não se
convença.
Fosse
deixado para impor sua vontade, possivelmente jamais completaria
qualquer obra de arte, tamanha a obsessão que tem pela perfeição.
Permaneceria, enquanto vivesse, a burilar, a pincelar, a rasurar, a
corrigir, incessantemente, “defeitos” que apenas ele vislumbra.
Instado
a dar por concluída sua produção, a contragosto, parte para outra
obra, mas com a mesmíssima regularidade e com igual relutância em
concluí-la, no momento do arremate final. É, pois, previsível,
pelo menos nesse aspecto.
Creia-me,
amável leitor, sei do que estou falando. Sou tomado a todo o
instante por essa incontrolável obsessão, que me faz detestar tudo
o quanto escrevo, a despeito da freqüente (provavelmente generosa)
apreciação alheia.
Boa
leitura!
O
Editor.
Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk
Há momentos de erros e acertos no tom. A cada avanço, mais exigente o artista se torna.
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