Recortes da realidade (II)
* Por Marcos Alves
Em busca de um
bom assunto que me leve a emendar os pensamentos vou caçando manchetes,
chamadas, espaços em destaque nas páginas dos jornais. Confesso que prefiro
histórias edificantes a tragédias, depois de um dia cheio de releases, resumos,
pautas, e mais um monte de informação em forma de papel, e-mail, telefone,
gravações e tudo o mais que pode carregar uma mensagem escrita ou falada, eis
que o jornal termina.
Despeço-me da
turma e vou para casa. Agora posso ler descansadamente, sem pressa. Posso
escolher o que ler, posso tanta coisa e ainda assim não deixo de dar uma
olhadinha nos jornais. Como em uma pescaria, lanço a linha o mais longe que
posso jogar. Quando menino acreditava ser no meio da água escura da mais forte
correnteza que o rio guardava terríveis perigos e preciosos segredos. Acho que
ainda penso assim.
Quero um
bálsamo para cabeça e o coração. Como naquele anúncio de fim de ano manjado, em
que se lê "DESCOBERTA A VACINA PARA A AIDS", estou à caça de boas
histórias, quero algo como "AS MANCHETES QUE GOSTARÍAMOS DE PUBLICAR NO
ANO QUE VEM". Mas tá brabo.
BALA PERDIDA MATA JOVEM DE 20 ANOS
"Morreu na
noite de segunda-feira Carla da Silva Costa, de 20 anos, atingida por um tiro
na cabeça, na parte da manhã, no bairro Cachoeirinha, região Nordeste de Belo
Horizonte. Carla estava grávida de 21 semanas, mas o bebê não conseguiu
sobreviver."
Foi no meio de
um tiroteio entre policiais e traficantes. Deu mídia nacional. Um desses casos
em que um inocente morre, e depois a comunidade protesta contra a violência em
que vive exposta. Mas terminado o barulho, pouco se faz além de lavrar o B.O. A
vida segue e tudo volta ao normal.
Uma pesquisa do
IBGE divulgada esta semana conclui que no Brasil cada vez mais mulheres morrem
de forma violenta. Não só por violência doméstica. É a violência que atinge
quem fica a maior parte do dia fora de casa. A vítima é a mulher que sustenta
filho, fica no trânsito, pega ônibus em horários e locais perigosos, chega
tarde e sai cedo de casa. É a vítima preferencial da violência sem nome e sem
rosto dos grandes centros urbanos.
Do lado de cá,
dou graças a Deus todos os dias, benzo-me e peço proteção para os que amo. Dou
esmolas, às vezes. É pouco. Escrevo, falo dos problemas dessas pessoas. Melhor
assim. Mas está longe de resolver o problema. É melhor usar o dinheiro dos
impostos, mas isso quem deveria fazer não faz.
Carla é mais
uma vítima entre milhares. Mais uma a pagar a conta. É o chamado "custo
Brasil" dos pobres. No andar de baixo se paga com a própria carne – olha
que o termo não é novo. A violência é a conta que pagamos – com juros e
correção, por causa de tanta impunidade, corrupção e descaso com o povo desse país. Mesmo
contrariado, continuo à cata de boas histórias nos jornais.
"BEBÊ NASCE DENTRO DE VIATURA DA PM EM
COPACABANA"
Não é
propriamente uma notícia nova, mas se encaixa no perfil das boas notícias.
A moça teve um
mal-estar e ligou para o 190. Sem conseguir sair de casa, Marcela Santos de
Oliveira, 18 anos, deu à luz dentro da viatura da Polícia Militar, em
Copacabana, na Zona Sul do Rio de Janeiro.
O nascimento de
uma criança é sinal de renovação. A vida insiste, a natureza se impõe e
prevalece sobre a lógica ou o que for que insista no contrário. Como esses
arbustos teimosos que crescem tortos nas fendas de concreto. Embora tudo leve a
crer que o Brasil não vai melhorar tão cedo, esse novo brasileirinho é um sinal
de esperança. E assim a gente toca a vida, renovando o ânimo que mantém viva a
vontade de mudar as coisas.
SOBREVIVENTE DE VIGÁRIO GERAL É PRESO POR TRÁFICO
Vítor Santos
foi preso na Favela Salsa e Merengue, no Complexo da Maré, com 97 trouxinhas de
maconha e 63 sacolés de cocaína. Na 21ª DP (Bonsucesso), onde prestou
depoimento, contou ter deixado a casa da tia, na Baixa do Sapateiro, em março
de 2004, para vender drogas. "Eu estava sem dinheiro e precisava sustentar
minha mulher e minha filha. Ali cheguei a ganhar R$ 100 por dia" –
diz.
Pudera a
história de Vítor Santos fosse redentora e exemplar. Seria como escapar da
morte duas vezes. Aos 9 anos de idade a casa dele foi invadida por homens
armados e encapuzados. Naquela madrugada fria de 30 de agosto de 1993, 21
pessoas foram assassinadas na favela de Vigário Geral. Oito delas faziam parte
da família do menino, que foi poupado. A vida é mesmo dura para essa gente.
E faz pensar no
inexorável, no que é líquido e certo, no inescapável. Aquilo que tem que ser
será. Uma frase antiga, assustadora, equivocada em diversas oportunidades, mas
cristalina e verdadeira em outras, como na triste sina de Vítor.
HOMEM ACHA MALA COM DINHEIRO EM TREM E DEVOLVE
Isso ainda
existe. E aconteceu no interior paulista. Antonio Fernando Rodrigues, 53 anos,
seguia para o trabalho e encontrou a mala no trem que liga São Paulo a Jundiaí.
Dentro havia dinheiro, documentos e objetos de valor. No total, R$ 200 mil. O
homem levou para casa e decidiu devolver ao dono, um consultor financeiro da
capital. O consultor deu R$ 110,00
a Rodrigues.
O que o levou a
agir assim? Antonio Rodrigues explicou a decisão de forma simples: não pegou
nada porque a maleta não era dele. Antônio, quem te conhece que te compre, mas
tudo indica que você é um homem honesto. O que já é muito nesses dias em que se
desconfia de tudo. Não sou crédulo nem cético, mas vez em quando é bom fazer
uma figuinha escondido, jogar um pouco de sal grosso por sobre as costas, rezar
num cantinho.
Nesses tempos
trabalhosos também é bom exercitar a paciência, a fim de não perdê-la de vez. E
tentar não complicar nem explicar demais. Melhor deixar essa tarefa para os
jornais. Acredita quem quer.
* Marcos Alves é jornalista
e diretor de vídeos.
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