Amor
casual
* Por Aliene
Coutinho
Eles se encontravam uma vez por semana.
Sempre em restaurantes badalados para não levantar suspeita. Conversavam horas
sem tirar os olhos um do outro, mas não podiam se tocar. Ana e Pedro eram
casados, mas com outras pessoas. Conheceram-se no prédio que moraram por dois
anos. Foram vizinhos. E como vizinhos mantinham um relacionamento superficial,
de cumprimentos rápidos e pequenas gentilezas, como segurar o elevador para o
outro entrar, ou ficarem apenas os dois contra todos os outros moradores nas
reuniões de condomínio por pura solidariedade.
O primeiro contato de verdade foi no
dia da mudança de Pedro. Com a desculpa de que estava colocando o apartamento à
venda, tocou a campainha do apartamento dela, sorriu, e passou o telefone num
pedaço de guardanapo. Pediu também o dela, afinal podia precisar para saber
sobre os possíveis interessados. Passados dois dias, o telefone de Ana tocou.
Era meio-dia. Ela não reconheceu o número e atendeu com o maior desdém – deve
ser engano – pensou.
Era ele, convidando-a para almoçar.
E ela foi curiosa, como toda mulher,
para descobrir o que aquele gato, muito mais novo, queria. E ele não se fez de
rogado, de cara falou o quanto a achava interessante, e de quanto ele desejara
aquele momento, adiado muitas vezes por medo de uma reação contrária. Não
escondeu o tesão que sentia, e contou sobre
todas as vezes que ouvia a voz e
o sorriso dela através das paredes, que percebia seus passos na sala ao
lado, sabia até quando ela entrava no banheiro e ficava horas no chuveiro.
Ela teve de admitir que havia percebido os olhares, mas sempre pensou que tudo
era uma brincadeira.
Ele era dez anos mais novo,
recém-casado. Ela já tinha filhos e muita história pra contar. Enfim, como se
explicam essas coisas? Depois do primeiro almoço vieram outros que se repetiam
sempre às quartas. De vez em quando trocavam de restaurante, e também de motel
que era onde sempre os encontros acabavam. Passavam a tarde se amando feito bichos, sem
compromisso, sem promessas, eles sabiam um da vida do outro e sabiam que
estavam ali pelo prazer, sexo por sexo, nada que os fizessem sequer pensar no
fim de seus casamentos que eles juravam
serem quase perfeitos.
Viviam assim, marginais, mas sem
remorsos, ou culpa. Até se ajudavam nas crises conjugais. Lembravam personagens
de filmes e de peças teatrais. Seria possível um amor assim? E como acabaria? Fiz
essas perguntas a Ana que me confidenciou essa história entre muitos pedidos
para guardar segredo. Nem ela, nem Pedro estão preocupados com o que vai dar.
Querem manter o que sentem, sem interferir em suas vidas familiares.
Enfim, os nomes são fictícios,
acrescentei alguns pontos, mas não desvirtuei a essência que é a possibilidade
de existir um amor assim...carnal, casual,
descompromissado, sem o estresse das contas a pagar, das
responsabilidades a cumprir – que muitas vezes acabam os casamentos. O caso deles já dura quatro anos e eles vão
muito bem, obrigada!
* Jornalista, professora de Telejornalismo.
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