Corrida de
obstáculos
* Por Pedro J. Bondaczuk
A vida dos mais de 7,2 bilhões de seres humanos que habitam
o Planeta é uma corrida de obstáculos, desde o momento da concepção, até a
extinção, sem prazo determinado para ocorrer. A morte ronda a cada um de nós,
em cada instante e lugar. Pode nos surpreender tanto ainda no útero materno,
quanto uma centena de anos, ou mais, após nosso nascimento, e geralmente sem
qualquer aviso prévio. A duração da nossa vida, portanto, é como uma roleta não
viciada: depende do acaso, das circunstâncias ou do nome que se queira dar.
Muitos dos que vêm ao mundo – certamente a maioria – não
conseguem realizar sequer suas potencialidades mínimas, por uma série de
razões, que vão desde a inaptidão para até mesmo viver, à falta de
oportunidades para se instruir, se adestrar, se desenvolver e poder, assim,
realizar alguma coisa que justifique, minimamente, sua vinda a essa perigosa e
ao mesmo tempo fascinante aventura.
Há, porém, os que, contrariando toda a lógica, conseguem se
superar e marcar sua passagem pela existência com feitos notáveis. Nossa
trajetória rumo ao sucesso, em qualquer empreendimento, é uma contínua saga de
superação das nossas limitações: físicas, culturais, mentais, sociais etc. O
êxito, em qualquer empreitada, seja de que natureza for, tem sempre um preço, em
geral muito maior do que aquele que estamos dispostos a pagar.
Raros têm a felicidade de concretizar, na idade madura, os
sonhos dourados da infância. Sem empenho, então... o fracasso é mais do que
certo. Não basta sonhar, ter um ideal, estabelecer metas, para lograr atingir
os objetivos. É preciso correr atrás do que se quer, com organização, empenho,
autodisciplina e persistência. Mesmo assim, nunca há a garantia de que iremos
conseguir. Não podemos, jamais, ceder ao desânimo diante do primeiro fracasso,
ou do centésimo, ou do milésimo ou do bilionésimo. Estes, certamente, virão e
em grande quantidade. Mas quem consegue?!
Desde criança, acalento o sonho de ser escritor. Não um
comum, que se limite a produzir qualquer romance mambembe, ou algum livro de poemas
melosos ou em linguagem cifrada que nem mesmo eu saiba o que significa. Aspiro
a ser autor de uma obra consistente, duradoura, inteligente, atrativa e
atemporal, que sobreviva não só a décadas, mas a séculos, milênios e, quem
sabe, à eternidade. Pretensão?! Certamente! Mas só conseguimos o mínimo na vida
se aspirarmos ao máximo. E se nos empenharmos a fundo, sem tréguas ou
desânimos, para a sua conquista.
Outro dia, comentei a respeito com um amigo jornalista.
Perplexo, ele me questionou, até com certa severidade. “Uai, você já não é
escritor?”, me perguntou, com seu sotaque mineiro, como que admirado diante do
que lhe pareceu um disparate, e dos mais absurdos. “Não!”, foi minha resposta
lacônica, seca e peremptória, apesar de, intimamente, me sentir lisonjeado por
sua admiração, que me pareceu sincera.
O amigo lembrou-me dos livros que já publiquei que, a rigor,
me deixaram frustrado, pois estão longe do padrão de qualidade, em termos de
idéias e de linguagem, que pretendi lhes imprimir. Mencionou os outros 17 que
escrevi, a que teve acesso, mas que permanecem inéditos. Só o fato deles não
haverem interessado a nenhum editor, já depõe contra eles. E, principalmente,
contra mim. “E o jornalismo?”, tornou a me questionar, “você já publicou na
imprensa mais de oito mil textos!”, observou. “Acho que, ou você é uma pessoa
insaciável ou está louco para receber elogios”, arrematou. Pode ser que o amigo
tenha razão... E nas duas alternativas!
Continuo, porém, enredado nos inúmeros obstáculos que a vida
me impõe, principalmente na necessidade de ganhar dinheiro para satisfazer os
compromissos mínimos de subsistência, meus e da minha família, mesmo depois de
haver dado a minha parcela de contribuição à sociedade e me aposentado por
tempo de serviço. Mas...aposentadoria no Brasil?! Não é prêmio, é castigo! Por isso, como tanta gente melhor do que eu,
que não consegue realizar nem uma ínfima parcela do que poderia, não encontro
tempo para me dedicar àquilo que de fato gosto e que tanto quero. Enquanto
isso, a vida vai se escoando, a conta-gotas, impondo urgência e crescente
empenho da minha parte a cada passo que dou. Sinto que se pudesse me dedicar de
maneira integral à literatura... Bem que poderia ter uma chance, mesmo que
mínima, de atingir meu objetivo. Como não posso... Mas o tempo, implacável, não
pára...
*
Jornalista, radialista e escritor. Trabalhou na Rádio Educadora de Campinas
(atual Bandeirantes Campinas), em 1981 e 1982. Foi editor do Diário do Povo e
do Correio Popular onde, entre outras funções, foi crítico de arte. Em equipe,
ganhou o Prêmio Esso de 1997, no Correio Popular. Autor dos livros “Por uma nova
utopia” (ensaios políticos) e “Quadros de Natal” (contos), além de “Lance
Fatal” (contos), “Cronos & Narciso” (crônicas), “Antologia” – maio de 1991
a maio de 1996. Publicações da Academia Campinense de Letras nº 49 (edição
comemorativa do 40º aniversário), página 74 e “Antologia” – maio de 1996 a maio
de 2001. Publicações da Academia Campinense de Letras nº 53, página 54. Blog “O
Escrevinhador” – http://pedrobondaczuk.blogspot.com. Twitter:@bondaczuk
Todos os dias sinto que meu tempo está esgotado. Isso não me deixa ânimo para quase nada.
ResponderExcluirSou forçado a dar razão ao já saudoso Umberto Eco que afirmou, tempos atrás, que as redes sociais deram voz aos imbecis. E como deram! Quanta imbecilidade leio diariamente no Facebook e no Twitter. Pior é que as pessoas nem se dão conta do ridículo que incorrem. Embora seja luta inglória, seguirei batalhando pela Literatura, provocando reflexão e debate de idéias, estes sim não só úteis, como indispensáveis. Se esta onda de ódio atual não for contida, temo, até, por uma guerra civil, o que será uma tragédia para este nosso já de per si trágico país. Enquanto tiver saúde e lucidez, seguirei “quixoteando”, contra tudo e contra todos.
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