Sófocles esbanja talento na descrição
da peste
As epidemias são retratadas, em todas suas trágicas dimensões
e consequências, em vários e vários livros da mais remota antiguidade, quer a
grega, quer a indiana, quer a chinesa etc., como se pode comprovar nas relativamente
escassas obras que chegaram incólumes até nós. É certo que, invariavelmente, são
tratadas como fenômenos naturais, posto que nefastos, da natureza ou, o mais
das vezes, como “castigo dos deuses”. Pudera! Não se conheciam as verdadeiras
causas dessas doenças (e nem se poderia), notadamente da peste bubônica, aquela
que mais vezes é citada, posto que não nominalmente, mas mediante a descrição
dos sintomas. É o caso, por exemplo, de uma das mais famosas
(e geniais) peças da dramaturgia mundial: “Édipo rei”, do grego Sófocles.
Ressaltar a importância desse drama, e de seu autor, chega a
ser redundante. Não há pessoa razoavelmente bem-informada, de cultura mediana,
que não conheça, nem que seja algum escasso detalhe, por ínfimo que seja, desse
icônico personagem, mesmo que nunca tenha lido sequer o resumo da obra em que
ele aparece e jamais tenha assistido à peça, ou mesmo freqüentado, algum dia,
qualquer teatro. Édipo, para refrescar a memória dos “esquecidos”, é aquela
figura que acabou se apaixonando pela mãe, com a qual se casou e assassinando o
pai, sem saber, claro, seu vínculo filial com uma e com outro. A psicanálise
apropriou-se desse infeliz monarca ficcional para nomear um complexo, que nem
mesmo é tão raro.
Recorde-se que a peça foi escrita há quase três milênios (por
volta de 430 a.C) e, ainda assim, continua incrivelmente atual. Segue sendo,
por exemplo, encenada (décadas, séculos, milênios) em palcos os mais diversos,
tanto de escolas quanto de grandes teatros mundo afora e praticamente todos os
dias. Quantas foram suas encenações? Como saber?! Provavelmente, milhões!!!
Quem sabe, até mais. Não tenho dúvidas, por exemplo, que hoje mesmo, no momento
em que escrevo estes comentários, alguma companhia teatral, alhures, está
encenando “Édipo rei”, em algum palco de
Londres, Paris, Roma, Nova York, Boston etc.etc.etc. Dela, sim, se pode afirmar
que se trata de campeã de audiência. Cabe, aqui, até mesmo, um superlativo (tão
ao meu gosto): campeoníssima!
O drama, criado por Sófocles, começa com a cidade de Tebas
sendo assolada pela epidemia de peste. É certo que o dramaturgo utilizou a
doença como uma espécie de metáfora. Pretendeu, e conseguiu, com grande
maestria, simbolizar a violência que se irradiava e se expandia naquela comunidade
de maneira contagiosa, que resultaria, ao fim e ao cabo, na desgraça do infeliz
personagem central.Sófocles escreve, a certa altura da peça:
“(...) Ó poderoso Édipo, rei da minha pátria! Já vês que
somos de diferentes idades, nós que nos achamos aqui, ao pé dos teus altares. São
crianças que apenas podem andar; velhos sacerdotes encurvados pela velhice; eu,
o sacerdote de Júpiter, e estes, que são os escolhidos entre a juventude. Nós e
o resto do povo, com os ramos dos suplicantes nas mãos, estamos na praça
pública, prosternados diante dos templos de Minerva e sobre as fatídicas cinzas
de Imeno. A cidade, como tu mesmo vês, comovida tão violentamente pela
desgraça, não pode levantar a cabeça do fundo do sangrento torvelinho que a
revolve. Os frutíferos germes secam nos campos; morrem os rebanhos que pastam
nos prados, assim como as crianças nos peitos de suas mães (...)”
Terrível descrição de uma cidade tomada pelo medo, com a
morte ceifando, sem cessar, multidões. É o relato de alguém que já testemunhou
uma epidemia, com suas catastróficas conseqüências e captou com precisão as
reações dos atingidos. E Sófocles prossegue: “(...) Invadiu a cidade o deus que
provoca a febre: a destruidora peste que deixa desabitada a mansão de Cadmo e
enche o inferno com nossas lágrimas e gemidos. Nem eu e nem estes jovens que
estamos junto ao seu lugar, viemos implorar-te como a um deus, mas porque te julgamos
o primeiro entre os homens para socorrer-nos na desgraça e para obter o auxílio
dos deuses. Tu, que recém chegaste á cidade de Cadmo, nos redimiste do tributo
que pagávamos à terrível esfinge e isto sem haver nos inteirado de nada e nem
haver dado nenhuma instrução, mas que só, com o auxílio divino – assim se diz e
se crê – foste o nosso libertador (...)”.
Não irei, óbvio, sequer resumir o enredo da peça. No caso,
não me importam as circunstâncias que levaram Édito a matar o pai, Laio (cuja
paternidade desconhecia) e nem a casar-se com Jocasta, a mãe. Meu foco é a
descrição de Sófocles da epidemia que assolava Tebas, tão terrível, ou mais, do
que a esfinge, da qual nosso herói (ou anti-herói?) a livrou antes. Recomendo
ao leitor que leia essa magnífica obra, uma das sete (entre as 123 que o
dramaturgo compôs) que escaparam incólumes da destruição, para a satisfação dos
que apreciam a boa literatura (as outras seis são “Ajax”, “Antigona”, “As
Traquínias”, “Electra”, “Filoctetes”, e
´”Édipo em Colono”). Só adianto que, para salvar Tebas da peste que a assolava,
Édipo enviou seu cunhado, Creonte, para falar com o oráculo de Delfos. E este
afirmou que a cidade só seria salva depois que se expulsasse dela o assassino
de Laio, o rei anterior. E este era o infeliz herói criado por Sófocles. Ou
seja, o próprio Édipo.
Boa leitura.
O Editor.
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Terrível peste bubônica. Quando uma ameaça surge, fico a me lembrar das sete pragas do Egito.
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