Rede de cobras
* Por
Nilto Maciel
O nome de Pedro Campos aparecia duas vezes na notícia das “atrocidades
cometidas pelos fazendeiros contra os índios”. O jornal só podia ser dos
comunistas.
– Até rima com jornalista.
Os homens da fazenda olhavam para o chão, parados, feito marmotas. Nem
tossiam.
– Cambada de putos!
Pedro Campos avançou para o jornal, plantou-lhe as
garras, estraçalhou-o.
– Como se eu fosse um bandido.
Ninguém arredava o pé do alpendre, todos caladinhos,
miudinhos.
O sol engatinhava nas fronteiras da fazenda.
***
Trouxeram o bode, que berrava e esperneava, e o
amarraram ao pé da estaca.
– Venham ver para aprender.
Pedro Campos esfaqueou o tempo e o sol. Uma luz
medonha queimou os olhos dos homens. O animal deu um berro sem fim, a faca
plantada nas costelas. A segunda facada amputou-lhe uma perna. O terceiro
golpe, profundo, correu-lhe a barriga de lado a lado. O sangue saltava longe e
ninguém ria. Tripas penduradas, olhos esbugalhados, e os ais quase sumidos.
Cansado, coberto de suor, o fazendeiro rilhava os
dentes, praguejava.
– Morre, diabo.
Os homens pisavam o chão com força, pregados. As
bocas – sacos costurados a agulha fina.
– Estão vendo? É assim que vou fazer com eles.
O sol já brincava com as nuvens.
***
Pedro Campos fincou as esporas no cavalo, gritou,
chicoteou o vento e desembestou no rumo da venta. Os homens também montaram e
picaram os animais. Meteram-se em altas cavalarias, fazenda adentro. Os
bichinhos do mato corriam da estripulia, escondiam-se detrás dos pés de pau. E
as vinte patas de átila engoliam palmos e comiam léguas. A poeira do espanto
levantava-se e morria. Vagarosamente.
***
Nos confins do mundo, o cavalo de Pedro Campos
levantou as patas.
– Volto daqui. Vocês seguem.
Um relincho adiante viviam os índios. Os homens
fossem espiar, de longe.
– Vejam se ainda estão lá.
O animal do fazendeiro se aquietou, comeu capim,
mijou.
– E se já enterraram os outros?
Os quatro homens olhavam para a boca suja de Pedro
Campos, em cima de seus cavalos, quietinhos, a comerem capim e mijarem.
– E só me levem boas notícias.
***
O dono da fazenda espichou-se na rede, pesadão, e
os armadores rangeram. Rede nova, grande, presente dos índios. Cheinha de
desenhos engraçados. De cobrinhas amarelas, encarnadas, verdes, azuis, pretas.
Muito bonita mesmo.
Seus olhos fecharam-se, abriram-se. Fecharam-se,
abriram-se. Fecharam-se. Escancarou a boca, e fiapos de carne de bode
intrometiam-se entre os dentes. O peito subia e descia, subia e descia. Moscas
passeavam sobre sua gordura, beliscavam-lhe as bochechas, cagavam-lhe a testa,
varriam-lhe as ventas, brincavam de morrer na caverna de sua imensa boca.
Pedro Campos remexia-se, coçava-se,
impacientava-se. Só faltava pular dentro da rede. Coçava os braços, as costas,
a bunda. Picavam-no os demônios da sujeira? Pulou, zonzo, cambaleou, de pé. Não
podia tirar um cochilo. A rede só podia estar muito suja. Maldizia-se, aos
berros.
Todas as mulheres correram para a varanda,
alarmadas. A sua, as filhas, as criadinhas.
– Que merda!
O sol descia a ladeira do oeste, morno.
As mulheres abraçaram e cheiravam a rede.
Lambiam-na, apalpavam-na, miravam-na com os olhos da cor do medo.
– Está limpinha, patrão.
Pedro Campos foi se acalmando, conformado, sem
coceiras. Só queria arrotar e dar uns peidos.
– Vão, vão, vão.
***
O sol se meteu
debaixo da fazenda, os cururus não pararam mais de coaxar, nem o cricri dos
grilos tinha fim.
– Vou esperar os
homens lá fora.
A rede armada
piscava os olhos para Pedro Campos. Todas as mulheres se trancaram nos quartos,
solitárias, sem sono. E os homens não traziam as boas notícias.
***
Lá pelo primeiro
canto dos galos, a mão submissa da mulher do fazendeiro apalpou o lençol. No
telhado nenhuma estrela brilhava. A cama media cem léguas. O quarto não tinha
tamanho. Seu coração cavalgava feito uma égua. Fechou as pernas e saltou para o
desespero. Caminhou as infinitas passadas da noite. Os galos entoaram a marcha
pavorosa. Alcançou a varanda. A rede ia e vinha, a ninar Pedro Campos.
Extravagâncias de homem. Riu a fazendeira e encheu-se de dengues. Pisava com
pés de lã o chão das novas núpcias. Os galos cantaram nova sinfonia. Abeirou-se
do leito a mulher. E nenhum desenho de serpente mais havia no tecido. Como se o
tivessem lavado seguidamente.
Tatuado de
pequeninas cobras, porém, o imenso corpo de Pedro Campos jazia de frio.
*
Escritor cearense.
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