Reconhecimento posto que tardio
A história da Filosofia é incompleta quando ignora o papel
das mulheres na sua gênese, evolução e consolidação. Todavia, são raros os
livros a esse propósito que sequer mencionam, mesmo que de passagem, a
imprescindível contribuição dada por tantas e tantas e tantas filósofas notáveis,
que fizeram com que “a mãe de todas as ciências” fosse o que é hoje e, dessa
forma, cumprisse seu papel na evolução humana, inclusive no aspecto material,
muitas delas com o sacrifício da própria vida. Nesta série de comentários que
me propus a fazer, que são como que um longo parêntese na análise do livro “O
mundo de Sofia”, do norueguês Jostein Gaarder, mencionei 37 mulheres que se
dedicaram à Filosofia, nas diversas eras históricas, das milhares, quiçá
milhões que atuaram nessa área e de cuja existência sequer desconfiamos.
Trata-se de pífia tentativa da minha parte de estimular o reconhecimento da
importância das mulheres, mesmo que tardio. Adotei como base a enciclopédia
eletrônica Wikipédia, uma das raras fontes que encontrei desse tipo de
informação.
No que se refere a filósofas da Era Contemporânea – de meados
do século XIX até nossos dias – citei, posto que, infelizmente, apenas de
passagem, cinco mulheres cultas, eruditas, sábias e, sobretudo corajosas: Rosa
de Luxemburgo, Lou Andréas-Salomé, Edith Stein, Maria Zambrano e Hannah Arendt.
No entanto, esta série de comentários ficaria mais vazia e incompleta ainda do
que já é se deixasse de citar a atuação das outras seis mulheres, relacionadas
pela Wikipédia, que atuaram nesse período. Elas foram as pioneiras que abriram
caminho para milhões de filósofas que se dedicam a essa indispensável atividade
mundo afora na atualidade.
A francesa Simone de Beauvoir (Simone-Lucier-Ernestine Marie
Bertrand de Beauvoir), que nasceu em 9 de janeiro de 1908 e morreu em 14 de
abril de 1986, passou para a história como representante da corrente filosófica
conhecida como Existencialismo. Sua linha de pensamento teve nítida influência
de Jean-Paul Sartre, Friedrich Nietzsche e Karl Marx. Foi colaboradora da
revista “Tempos Modernos”. Nas décadas de 50 e 60 do século passado viajou pelo
mundo, divulgando e debatendo suas idéias filosóficas com os mais heterogêneos
grupos políticos e feministas. Seu livro “Segundo sexo” tornou-se fonte
obrigatória para o conhecimento da verdadeira condição feminina na época em que
atuou e que serviu de inspiração para os mais sólidos movimentos feministas.
Outros três livros dela, bastante importantes, entre tantos que publicou, são: “Por
uma moral da ambigüidade”, “A força das coisas” e “Balanço final”.
A norte-americana Angela Yvonne Davis, que nasceu em 26 de
janeiro de 1944, está, aos 71 anos de idade, em plena atividade, atuando como
filósofa e ativista política vinculada ao Partido Comunista dos Estados Unidos.
Destacou-se por sua atuação no movimento “Black Power” dos anos 70 do século XX
que, entre outras bandeiras, moveu implacável oposição à Guerra do Vietnã e batalhou
para a conquista dos direitos civis da população negra em seu país. Sua obra e
sua constante atuação pública debatem conceitos tais como liberdade e liberação
e refletem sobre sexismo e racismo, além dos princípios de classe e de poder.
Seus livros e tantos artigos na imprensa fundamentam-se num pensamento
transformador como desafio para a reflexão filosófica deste nosso tempo.
A outra filósofa norte-americana de relevo, Suzanne Langer,
seguiu linha bastante diversa da de Angela Davis. Essa mulher erudita nasceu em
20 de dezembro de 1895 e morreu, aos 90 anos, em 17 de julho de 1985. O foco da
sua atividade foi a filosofia da arte, como seguidora do notável filósofo
Ernest Cassirer. Tem várias obras traduzidas para o português, sendo que a mais
conhecida é “Filosofia em nova chave”. Seus livros e tantos artigos enfocam o
papel da arte no conhecimento humano. Suzanne Langer influenciou uma quantidade
enorme de intelectuais e de artistas, mundo e tempo afora. Omitir sua
importância na história da Filosofia seria, além de incompreensível injustiça, verdadeira
heresia.
A filósofa, escritora, dramaturga e roteirista Ayn Rand (cujo
nome de batismo era Alisa Zynovievna Rosenbaum) nasceu na cidade russa de São
Petersburgo, em 2 de fevereiro de 1905, mas adotou a nacionalidade norte-americana,
por viver a maior parte da sua vida, atuar e morrer (em 6 de março de 1982) nos
Estados Unidos. Era de origem judia. Como filósofa, ficou conhecida pelo
desenvolvimento do sistema filosófico que chamou de Objetivismo. Tanto sua
filosofia, quanto sua ficção, enfatizam noções de individualismo, egoísmo racional
e capitalismo.
A filósofa Sarah Kofman, que nasceu em 14 de setembro de
1934 e morreu em 15 de outubro de 1994, foi uma das mais significativas
pensadoras da França no pós-guerra. Sua obra, vasta e eclética, consiste de
mais de vinte livros publicados, com estudos sobre a mulher na psicanálise
freudiana (considerada a mais completa análise da sexualidade feminina na visão
de Freud), a contribuição das filósofas na filosofia ocidental e análises sobre
o pensamento de Nietzsche, entre tantos temas a que se dedicou.
Finalmente, Júlia Kristeva, que nasceu na Bulgária, em 24 de
junho de 1941, mas que vive e atua na França, além de filósofa, é, aos 74 anos
de idade, escritora, psicanalista, crítica literária e ativíssima feminista.
Essa mulher erudita e sumamente culta é autora de vários livros, com temas das
mais diversas áreas do conhecimento, com ênfase nas artes, na lingüística, no
feminismo e no pós-estruturalismo. Entre suas obras destacam-se “Introdução à
semanálise”, “As novas doenças da alma” e “Estrangeiros para nós mesmos”.
Espero que, com esta série de comentários, mesmo que
sumamente resumidos e incompletos, eu possa ter dado uma pequena e pálida
contribuição para a divulgação do relevante papel das mulheres para o
nascimento, evolução e consolidação da Filosofia, o que só agora começa a ser
minimamente reconhecido, graças à inteligente, persistente e corajosa atuação
de tantas e tantas filósofas que comprovaram, na prática, que inteligência e
competência não são e nunca serão questões de sexo.
Boa leitura.
O Editor.
Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk
Aplausos a você pelo esforço e às mulheres corajosas de outros tempos, ainda que algumas ainda estejam atuantes.
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