Lições do
cotidiano
* Por Pedro J.
Bondaczuk
As pessoas deveriam prestar mais
atenção nas pequenas coisas do cotidiano; atentar para os gestos espontâneos de
gentileza (e até de amabilidade), que partem de estranhos, de completos
desconhecidos, com os quais cruzamos casualmente e que mal são reparados;
valorizar atitudes generosas, de solidariedade, com as quais somos agraciados
todos os dias, sem que sequer reconheçamos ou atentemos; reconhecer a nobreza,
a amizade, o talento, a generosidade e o real valor das coisas ao nosso redor e
daqueles que nos cercam, ou com os quais nos encontremos, posto que por acaso.
A vida não é constituída, na maior
parte, de ocorrências grandiosas, dramáticas, sensacionais ou marcantes. Tais
eventos acontecem, mas costumam ser raros e tendem a mudar nosso destino (para
melhor ou para pior). São exceções. Em regra, são as pequenas coisas,
supostamente sem importância, que tornam os relacionamentos espontâneos, suaves
e agradáveis. Ou, ao contrário...
Mas mesmo que os tornem azedos e
rixentos, temos como mudar tal situação: desarmando o mal-educado, o pessimista
ou o mal-intencionado, com gestos de simpatia e compreensão. Ou, quando estes
forem de todo intratáveis, nos afastando deles. Agindo com empatia em relação a
esse "próximo" infeliz e amargurado, temos alguma chance de mudá-lo.
Como? Compreendendo suas falhas e deslizes e procurando ajudá-lo (mesmo que ele
não peça ou nem queira ajuda). Nisto é que reside grande parte da sabedoria de
viver.
Meu vizinho do lado, do qual pouco ou
nada conheço, tem o saudável hábito de ler poesia em voz alta. Faz esse
exercício todas manhãs, faça sol ou faça chuva, absolutamente todos os dias,
inclusive nos feriados. A proximidade de nossas casas, (moro no Jardim
Chapadão, em Campinas, logo atrás do prédio da Telesp), divididas por uma
simples parede, propicia a que, mesmo que não queira, eu possa
"bisbilhotar" o que se passa com sua família. E o que tenho ouvido
neste tempo todo fez crescer seu prestígio aos meus olhos. Da minha parte, não
sou tão expansivo, daí não termos feito (ainda) amizade.
No pouco tempo de vizinhança que temos
(há um ano), embora raras vezes tivéssemos nos cumprimentado e nunca parássemos
para dois dedos de prosa (mais por culpa minha do que dele, insisto), aprendi a
admirá-lo. Agrada-me seu constante bom-humor, típico de quem já viveu muito e
aprendeu, com os anos, a distinguir o que realmente importa do que não tem
tanta (ou nenhuma) importância e que, em nossa cegueira intelectual (ou moral,
ou estética) achamos que é fundamental para nos fazer felizes. Mas não é. Esse
senhor circunspecto, avô, profissional bem sucedido (parece-me que advogado) e
agora aposentado, é um sábio!. E na verdadeira acepção da palavra.
Quantas
vezes, angustiado face às dificuldades financeiras (rotina neste país em
permanente crise), ou magoado por alguma desfeita dos filhos (os jovens
raramente têm sensibilidade no trato com quem quer que seja, especialmente de
pessoas que não pertençam à sua geração), ou frustrado pela não valorização profissional,
ou preocupado em elaborar um texto de suposta sabedoria (que nem mesmo sei se
será lido ou apreciado), tenho subitamente caído na realidade, ao ouvir sua
declamação vibrante e entusiástica de versos de Rilke, Rimbaud, Byron, Shelley,
entre outros!
Tenho o sumo privilégio de embeber-me
na beleza poética dos maiores gênios do gênero e absolutamente de graça! Basta,
apenas, manter os ouvidos atentos, a mente aberta e o coração acessível às
divinas mensagens. Bendito vizinho! Bendito acaso que nos aproximou! Mark Twain
escreveu que "o nome do maior dos inventores é casualidade". Acabo de
comprovar, pela milionésima vez, que é mesmo. Foi ele que colocou em meu
caminho uma pessoa com tamanha cultura e sensibilidade. Nem todos, convenhamos,
têm esse privilégio. Pelo contrário...
A rigor, as maiores amizades que
consegui fazer (e que prezo tanto), foram frutos do acaso. Muitas eram de
leitores que ligavam para a redação do jornal em que eu trabalhava, para
fazerem alguma reclamação (nem sempre pertinente ou dirigida à pessoa
apropriada). Procurava atendê-los sempre bem, mesmo que suas palavras, a
princípio, não fossem exatamente gentis ou que meu humor não estivesse dos
melhores. Tentava compreender suas motivações e era, em geral, muito feliz
nesse aspecto. Às vezes, mesmo contando com escassez de tempo, dada a minha
função de editor, prolongava a conversa mais do que deveria. Sintia, do outro
lado da linha, em geral, a presença de uma pessoa angustiada, ou solitária, ou
ambas as coisas. Não tenho vocação para santo, mas o sofrimento alheio me
sensibiliza e comove. Talvez por me sentir muito feliz e não achar que seja
merecedor dessa graça.
Tal exercício de empatia tem me rendido
bons frutos. Anatole France escreveu que "o acaso é o pseudônimo de Deus
quando Ele não quer assinar". Estou cada vez mais convencido disso! Dia a
dia, meu círculo de amigos se expande e a solidão, característica de todo o ser
humano nesta vida (não sei se existe outra) repleta (ou toda ela constituída)
de mistérios, se torna menor. Ou, pelo menos, fica mais suportável. Do mundo
não levamos nada... Deixamos: lembranças boas ou más, obras idem e só
sobreviveremos no coração daqueles que soubermos cativar. É a nossa única
chance de "imortalidade". O resto... é, como diria Eclesiastes,
"vanitas vanitatis". Vaidade...nada mais do que vaidade...
*
Jornalista, radialista e escritor. Trabalhou na Rádio Educadora de Campinas
(atual Bandeirantes Campinas), em 1981 e 1982. Foi editor do Diário do Povo e
do Correio Popular onde, entre outras funções, foi crítico de arte. Em equipe,
ganhou o Prêmio Esso de 1997, no Correio Popular. Autor dos livros “Por uma
nova utopia” (ensaios políticos) e “Quadros de Natal” (contos), além de “Lance
Fatal” (contos), “Cronos & Narciso” (crônicas), “Antologia” – maio de 1991
a maio de 1996. Publicações da Academia Campinense de Letras nº 49 (edição
comemorativa do 40º aniversário), página 74 e “Antologia” – maio de 1996 a maio
de 2001. Publicações da Academia Campinense de Letras nº 53, página 54. Blog “O
Escrevinhador” – http://pedrobondaczuk.blogspot.com. Twitter:@bondaczuk
Um texto bom por dia é demais. Salve a tua fecundidade.
ResponderExcluirTambém temos cá nossos privilégios, também ditados pelo acaso. Deixei para saborear na segunda o texto de domingo. Como a fome estava maior, aproveitei cada letra.
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