Um trem para as
estrelas
O trem tem uma grande importância em
minha vida. Não tanto como meio de transporte de média e longa distância, pois
para esse fim não troco o avião por nenhum outro. Mas as velhas locomotivas a
carvão, soltando fagulhas e fumaça pelo caminho, com seu apito lamuriento; os
vagões de madeira de segunda classe, abarrotados de pessoas cansadas e
sonolentas e de malas, sacolas e embrulhos atravancando os corredores e as
bucólicas estações interioranas estão marcados, de forma indelével, na minha
memória.
Foi em uma composição desse tipo que
deixei para sempre minha terra natal, a distante Horizontina, no Rio Grande do
Sul, há 67 anos, quando meus pais vieram para São Paulo para tentar melhor
sorte. Foi, também, em trens de subúrbio da antiga Santos a Jundiaí, mais
modernos e suntuosos, de aço, com bancos estofados e movidos a eletricidade,
que pude conhecer pessoas humildes, observar seus comportamentos e feições,
captar pedaços de suas conversas, fixar tipos e criar, dessa forma, os
personagens dos meus contos urbanos, que têm vida por terem sido transplantados
diretamente da realidade para a ficção.
Inúmeras vezes, em seus trilhos de aço,
fiz verdadeiras "viagens para as estrelas", parodiando um filme
nacional de relativo sucesso que tem esse nome. Muitos dos meus poemas foram
escritos entre sacolejos e balanços desses veículos, com o corpo no seu
interior; com os sentidos ligados nas imagens, cheiros e sons; mas com a cabeça
perdida nas nuvens, no espaço, no éter infinito, entre cometas velozes e
rechonchudos querubins.
Lembro-me que, quando adolescente, em
meus fins de semana, ou em ocasiões de festa, como o Natal e o Ano Novo,
costumava sair de casa logo cedo, rumo à estação de São Caetano, onde residia.
Comprava uma passagem para o ponto final do subúrbio, ora para Paranapiacaba da
Serra, ora para Francisco Morato. Chegado ao destino, descia, dava uma volta na
praça, parava em algum bar para um café ou sanduíche, e repetia a dose, em
sentido inverso.
Nunca disse à família onde ía nessas
ocasiões, deixando pairar no ar uma incômoda suspeita da sua parte. Meus pais
não entenderiam... Houve dias de fazer o trajeto por dez vezes, ficando por
doze horas no interior de vagões. Claro, com os olhos bem abertos e os ouvidos
atentos a todas as conversas, murmúrios, risadas, choros de criança, etc.
"Diversão tola", dirão, certamente, alguns. Pode ser. Mas era a forma
que eu conhecia de observar pessoas sem que estas reclamassem ou sequer se
dessem conta de que eram observadas. Eram outros tempos, todavia, mais amenos e
sem os riscos de assaltos e acidentes de hoje, sem a violência que nos
atormenta e ameaça.
Os trens são, sobretudo, poéticos.
Vários dos monstros sagrados da poesia mundial escreveram sobre e dentro deles.
E pensar que é um veículo historicamente tão novo, tão recente, mais
"jovem" do que o Brasil! A primeira locomotiva foi inventada na
Inglaterra em 1825, por George Stephenson. Completa, portanto, neste 2001, 190
anos.
Em nosso País é mais recente ainda. Foi
em 1854 que o visionário --- um dos brasileiros mais extraordinários e pouco
lembrados que já existiram --- Irineu Evangelista de Sousa, o Barão de Mauá,
inaugurou a primeira linha, ligando o Rio de Janeiro a Petrópolis,
estrada-de-ferro posteriormente incorporada pela Leopoldina Railway.
Esse magnífico empresário, que em seu
tempo era um dos três homens mais ricos do mundo, participou de outros
empreendimentos ferroviários, que embora não caibam nesta crônica, somos
tentados a citar. Um foi a construção, em 1855, da Recife and São Francisco
Railway Company. No ano seguinte, financiou a Santos a São Paulo, transferida
depois para a São Paulo Railway. Não se satisfez.
Em
1858, bancou a Estrada de Ferro Central do Brasil, cortando o Vale do Paraíba,
ligando a então capital do País à Paulicéia. Em 1860, contribuiu para que
nascesse a Bahia and São Francisco Railway Company. Grande brasileiro esse
Barão de Mauá! Foi daqueles raros que fazem e não se limitam a criticar
políticos, governos e o próprio povo a que pertence.
Dói no coração, a alguém tão ligado aos
trens, ver a situação de petição de miséria de virtualmente todas as ferrovias
do País, mesmo após a sua privatização, colocada entre nós como verdadeira
panacéia para todos os males. Nesse aspecto, também estamos na contramão da
história.
Afinal, são os velozes, modernos,
seguros e confortáveis TGVs que circulam no fantástico (e quase falido)
Eurotúnel, que faz a ligação, por baixo do Canal da Mancha, entre a França e a
Grã-Bretanha. Dá uma inveja enorme quando vejo os bólidos, que chegam a
trafegar a até 400 quilômetros horários sobre trilhos, no Japão e em muitas
partes da Europa.
Em todos os países de Primeiro Mundo (e
nos mais sensatos do Terceiro), esse meio de transporte é cuidado, preservado,
modernizado e ampliado. Enquanto isso, nossos trens e estações vão se
transformando em sucata. São cada vez mais inseguros, raros e decadentes.
Menos, evidentemente, o "expresso para as estrelas" das minhas
lembranças de menino...
Boa
leitura.
O
Editor.
Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk
Naquele tempo era permitida a lentidão dos trens, dando oportunidade de experiências como as que viveu, Pedro. Também lamento o sucateamento das nossas ferrovias e composições. Por aqui há saudosistas que querem reabilitar o trem de passageiros, pois o de carga ainda permanece.
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