Pobre
diabo
* Por Eduardo
Oliveira Freire
... Gente arrogante! Sempre tem alguém
que me diz: "Você tem que contar tudo". Não quero. Agora estou em
casa, escrevo no computador e às vezes vou ver o mar. Plagiando, na cara-de-pau,
Clarice Lispector, a imensidão do mar é a imagem refletida da minha essência.
Tudo que escrevo não é original, todos nós somos seres amórficos com capacidade
de digerir pensamentos e teorias que nos antecedem há gerações. Nada é novo e
sim repaginado.
Um amigo disse que escrevo as mesmas
coisas, está certo. Sou como as ondas, vou e volto... até na época das ressacas
de inverno. Uma vez me disseram que devemos resolver os nossos problemas, se
não acumulam. Ora, não somos um poço de alegrias, tristezas, perdas e
recalques? Vida real é deste jeito, se você ganha de um lado, perde de outro.
Se você é bem-resolvido numa área, em outra, é uma droga. Não me venha com a
lógica racional ou de auto-ajuda. Somos bestas feridas e famintas, que
constroem castelos de nada.
O pessoal da minha família se divide em
dois grupos: os que me acham vagabundo e os que me acham maluco. Sou um pouco
vagabundo e maluco. A vadiagem e a loucura que tenho me acompanham, desde
quando minha mãe me pariu. Tentei mudar, não consegui e o pior de tudo é que se
pelo menos fosse um artista genial, talvez justificasse minhas excentricidades.
Gosto de observar minha filha na
escola. Fico de longe, ela é linda. Muitas vezes, parece ser minha mãe:
"Papai, você tá fedendo... Papai, quando você vai crescer e ser pai de
verdade". Ela foi um delicioso acidente que aconteceu na minha vida. A
última notícia que tive da mãe dela, era que virou prostituta na Itália. Quem
cuida da menina são os meus pais e eu sou o irmão-mais-velho-desajustado que só
arranja problemas.
Ultimamente, fico horas no computador
trancado no quarto. Todos lá de casa perguntam o que escrevo tanto "neste
maldito computador". É difícil explicar, só sei que me sinto bem, paro de
pensar asneiras. Quando termino, vou direto para cama e apago. Acordo e
recomeço a mesma rotina. Estou trocando os antigos vícios por um novo. O
analista disse que não estou resolvendo os meus problemas e que somente os
aglutino.
Mas a vida não é um jogo de vídeo-game
em que se precisa vencer as etapas e as dificuldades. Quem é feliz pra sempre?
Quem é bem resolvido? Quem não tem fantasmas? Quem não tem um pouco de
mesquinhez? Quem não tem manias obsessivas? Quem não tem certo quê de
perversidade e tenta se controlar para não cair totalmente no lado obscuro?...
* Eduardo Oliveira Freire
é formado em
Ciências Sociais pela Universidade Federal Fluminense, está
cursando pós-graduação em Jornalismo Cultural na Estácio de Sá e é
aspirante a escritor, blog http://duduoliva.blog-se.com.br
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