Devaneios de uma roqueira 8
* Por
Fernando Yanmar Narciso
CAPÍTULO 4 (PARTE 1/2)
Pela primeira vez em
muito tempo despertei cheia de energia, antes mesmo de o despertador tocar, dos
vaqueiros passarem com seus berrantes ou até daquele sonho maluco que tanto me
assombra. Numa noite ‘ocê’ solava Maggot Brain do Funkadelic por quinze minutos
num inferninho e dois dias depois acorda com o 14 Bis, recriado por Picasso,
tatuado nas costas...
Seis e meia da matina!
Considerando que tenho fama de ser a ‘Miss Hibernação’ da família e despencar
por horas estando sóbria, chapada ou depois de transar a noite toda, acordar
tão cedo sem ter sido forçada é um feito digno de ser relatado à imprensa. Se
eu fosse religiosa, seria praticamente uma heresia! Depois da labuta de ontem à
tarde e do FDS miserável, tudo que eu precisava mesmo era de uma noite de sono
digna de um hipopótamo.
Dei uma olhada no
espelho e por pouco não me reconheci! As sardas nas bochechas eram as mesmas de
sempre, já o rosto ‘escondido’ atrás delas... Parece até que os deuses da
ironia me fizeram uma plástica durante o sono! Barbie sempre se impressiona com
o quanto minha pele se rejuvenesce enquanto eu durmo. Gosh, acordei tão bem que
‘tava’ até com um tiquinho de tesão. E como o único homem disponível por essas
bandas era meu ex, Ulysses, era melhor eu pensar em alguma coisa pra matar o
tempo até a Barbie fazer o café...
Preciso agradecer a
ela por ter conseguido resgatar minha guita depois do show de sábado. A neblina
amanheceu tão densa que dava pra abrir caminho dentro dela com facão. E com
esse friozinho do jeito que eu gosto, resolvi dar uma volta pelo caminho de
terra atrás do posto e levar comigo meu violão Tagima branco. Vai que surgia
inspiração pra alguma letra nova no caminho.
É o que Barbie chamava
de meu ‘momento Princesinha da Disney’ quando vim morar aqui, tocando violão
pros passarinhos, pras árvores... Depois de uma hora batendo perna no sereno,
não consegui pensar em nada que prestasse! Uma notinha aqui e ali, arranjos
aleatórios, umas duas frasezinhas sem muito nexo... ‘Falo com as plantas e elas
gritam comigo/ Canto para as rosas e elas apodrecem’. Melhor anotar no celular
quando voltar pra casa...
Crap, compor era mais
fácil nos meus tempos de mochileira, batendo perna pelas entranhas do país.
Escrevia em qualquer coisa, de guardanapo usado às roupas do corpo. Às vezes me
pego pensando se faz mesmo onze anos que eu tive coragem de fugir de casa e
girar pelo Brasil feito uma enceradeira, só pra acabar voltando pra São
Modesto, toda imunda e maltrapilha só com cinco reais no bolso...
Ainda estava a uns
três minutos de distância do posto de gasolina e já podia identificar os
típicos sons matinais: As frigideiras e a chapa chiando, Bárbara implicando com
alguém no balcão e, o que mais se ressalta, os grunhidos guturais de Tião
Chorume, o radialista mais desaforado e nojentão da história da rádio pirata
brasileira.
Reza a lenda que ele
apagou sozinho o fogo num prédio de três andares com o próprio vômito, ARGH!
Não dá pra negar o bom gosto musical dele, mas é a única coisa que se salva
naquele caminhão de lixo! De longe podia ouvi-lo pondo no ar Back In Black, do
AC/DC, e estabanado que só ele, ganindo junto com a música e obviamente
acabando com ela...
- Ah, me faça favor,
Ulysses!- Implicância é o maior hobby de minha prima... - Toda vez é a mesma
coisa: ‘Ocê’ chega aqui numa larica dos diabos, come umas quarenta banana
caturra numa sentada, não paga e ainda quer pernoitar de graça? Aqui não,
‘Ceição’! Ou me dá os dez do pernoite ou vai esfregar o chão do pátio pelo
resto da semana!
- De manhãzinha e já
arrumando briga, Barbie?- Cheguei de mansinho por trás dos dois.
- Uai, sô! Ó só quem
resolveu apostar corrida com o despertador, cumádi!
ATERRO FM, 109,2! A
RÁDIO QUE TOCA O QUE CHOCA!- Adoro as guitas desafinadas e a microfonia dessa
vinheta!- Eita, nós! E esse foi o mega-super-ultra-arqui clássico AC/DC,
podridão vinda direto da Austrália pros seus ouvidos! Lembrando ‘ocêis’,
masoquistas nascidos em São Modesto, que o desafio do mês continua. Levei um
ano pra encontrar, mas tenho aqui na minha mão o original, o chapéu verdadeiro
da Noviça Voadora! ‘Ocêis’ têm até sábado pra apresentar lá na frente da igreja
da cidade alguém doido o bastante pra colocar esse chapéu, subir na torre e
testar se ele funciona de verdade! Valendo um apartamento com seis cômodos em
Juiz de Fora, todo mobiliado! Ê, trem ‘bão’ da p****! Quem vos berrou foi o
primeiro e único Tião Chorume, despedindo-se desse buraco de rato chamado São
Modesto pelas próximas seis horas. Que vão todos pro inferno!
- Não fossem as
músicas que esse imbecil toca...- Bárbara comenta, passando uns mistos na
chapa.- E então, descontou na cama as duas noites horríveis?
- Um tiquinho... E
como é que foi aqui embaixo?
- A mesma coisa de
sempre... Pus o DVD de Woodstock e fiquei cochilando no balcão, até ‘ocê’ dar
de tocar guitarra dormindo e acordar todo mundo de madrugada.
- Kurt Cobain! De
novo?- Não se espantem, isso acontece comigo com muita frequência. Me dá crise
de sonambulismo e eu sonho que ‘tô’ no palco...- Well. Foi pelo menos uma
música calma?
- Hino da
Independência!
- Ai, sério isso? Foi
mal... Me passa aí um pão na chapa e faz um leite com abacate.
- Na horinha, Lexi.
Vai de geléia?
- É como perguntar se
boi quer capim, né, Barbie?
Além de pinguça e
junkie, também sou uma formiguinha. Com o tanto que eu tenho de caminhar indo e
voltando da cidade, podia perder ainda uns dois quilos, não fosse meu vício na
irresistível geléia de cajá Mãe Rotscheider. O alemão Chicão Rotscheider é
nosso prefeito quase desde o tempo dos dinossauros. Sua família, fundadora
dessa ratoeira, tem sustentado a cidade há gerações com geléias, compotas e
frutas cristalizadas.
CONTINUA...
*
Escritor e designer gráfico. Contatos:
HTTP://www.facebook.com/fernandoyanmar.narciso
cyberyanmar@gmail.com
Conheçam
meu livro! http://www.facebook.com/umdiacomooutroqualquer
Um pouco de ironia para não perder o costume.
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