Poema
do vilarejo1
* Por José Paulo
Lanyi
(Tiago caminha contra a chuva
em rua escura. Tenta aproximar-se do Estrangeiro, que anda à sua frente, sem
lhe perceber a presença. O vento dificulta os passos de Tiago, lentos e claudicantes,
por vezes retrógrados. Voz declama um poema)
VOZ- Marchai... Marchai.... Marchai contra as
verdades, ouvidas, lembradas... Aura de lama à cabeça... Pobre cabeça, cheia de
séculos... Pobre cabeça, cheia de séculos! Marchai... E adiante a encontrar os
prados... Além das cercas... E afinados,
o desejo e a esperança... Os sonhos de um mundo, de um todo que habita... as
mais belas grinaldas da alma.. E da alma tirai o ímpeto... E então vencer o
santo e o profano das grandes porteiras... Ao alto, o sol a queimar... Meter-se
pelas cercas... Rasgar a pele, tingir o cetro com o sangue vertido por dentro.
Vertido por dentro! O sangue a empurrar-se...para fora... para frente... sem
derramar-se, contudo. E o vento será o de sempre... E o sangue vencerá o vento...
Sangra...! Sangra...! Inunda a alma dos
tempos! Que manda na vida! Sangra! Que manda na morte! Sangra! Que manda na
morte do morto! Pois que o passado é o morto no presente! O tempo a matar o
morto! Põe-se pra frente, sangue do peito! O sangue vivo do peito... O peito é
só um escudo... O peito... é só um escudo... Onde está o cetro?! Onde está o
cetro?! Muitos cetros... Muitos cetros... Forjados no aço dos tempos... Dos
mortos que vivem e que matam! (pausa) Onde está o cetro? Como ganhar os prados?
Onde a imensidão dos prados? Onde as cercas, onde as cercas e os cetros? Onde
os anos dos séculos? Onde a morte na vida? Onde a vida na morte dos dias? Onde o cetro, onde a cerca? (pausa) Houve cercas e cetros... Houve a
morte em vida... Os tempos jorraram e o sangue estancou... Os tempos jorraram e
o sangue estancou... O sangue jorrou pra fora... Sangue jogado fora... E
estancado por dentro... Inútil, estancado por dentro. Inútil, escondido do
peito. E o peito é só um escudo... Por que estancar o sangue?!
O peito é só um escudo...Por que
matar os prados?! Por que colher a morte da vida?! O peito é só um
escudo... Por que semear os tempos?
Semear cabeças
com aura de lama? Semear
cabeças, cheias de tempo e de lama? Cabeças cheias de séculos... De cercas e
cetros... Marchai... cortai as cabeças dos séculos!
(Apagam-se as luzes)
1- Da
peça “Quando Dorme o Vilarejo”.
(*) José
Paulo Lanyi é jornalista, escritor e dramaturgo, autor do romance
"Calixto-Azar de Quem Votou em Mim", do romance cênico (gênero que
criou) "Deus me Disse que não Existe", da peça "Quando Dorme o
Vilarejo" (Prêmio Vladimir Herzog) e da coletânea “Teatro de José Paulo
Lanyi e Outros Loucos” (no prelo), todos da editora O Artífice. Trabalha com o
músico paulistano Flávio Villar Fernandes, com quem compôs a trilha “Invernada”
e a sinfonia “Atlântica”.
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