Arremesso de anão
* Por
Marcelo Sguassábia
Tudo bem que é
humilhante, mas é bem pago. E por pagarem bem, fica mais fácil você aceitar e
se acostumar com a coisa. É estranho, nos primeiros tempos, você permitir que
qualquer marmanjo te pegue pelos fundilhos e te arremesse o mais longe que
puder como uma bola de boliche (para quem não sabe, o objetivo do jogo é lançar
o anão o mais distante possível da linha de arremesso, numa disputa que envolve
dois ou mais participantes).
Além do desconforto,
há sempre um certo grau de risco envolvido. Teve um dia que fui parar no
pronto-socorro, por conta de um sujeito que, ao invés de me arremessar pra frente,
me jogou pro alto. Depois de voar a uns cinco metros de altura, acabei caindo
fora do colchão de amortecimento e fraturei duas vértebras. É doído, admito, e
aterrissar de mau jeito faz parte do negócio. Porém, quanto à grana, não tenho
do que reclamar.
Em algumas regiões
surgiram variantes da prática, como o arremesso em cesta de basquete. O duro,
nessa modalidade, é quando a gente fica girando no aro até ser encestado. Você
cai zuretinha no chão, e antes que possa recobrar os sentidos já tem outro globetrotter
te encestando de novo. Pior ainda é se resolvem arriscar um arremesso de 3
pontos e erram. Aí é punk, porque ou você despenca no chão da quadra antes de
chegar à cesta ou dá aquela cacetada na tabela. Uma vez a porrada foi tão forte
que espatifei o vidro. E quem ganhou 3 pontos fui eu - na testa.
Conforme as disputas
vão acontecendo e conquistando espaço na mídia, a prática vai ganhando cada vez
mais adeptos. Quando é campeonato mundial, são necessários muitos anões para
arremessar, e todos têm que estar exatamente com o mesmo peso, para a disputa
ficar equilibrada. Antes de começar a prova, alguns anões são postos pra
vomitar ou esvaziar a bexiga, enquanto outros são forçados a engolir
quantidades industriais de leitoa assada, cupim, boi no rolete e outros
tira-gostos frugais. O juiz da prova fica enfiando comida na nossa goela e
botando a gente na balança, até atingirmos o peso certo. Depois já começa a
prova, não dão nem dez minutos pra fazer a digestão. É desumano, mas regiamente
remunerado.
Outro atrativo da
profissão é que ela acaba te abrindo um extenso network, o que inclui novas
oportunidades de business. Um bom exemplo é a Dwarfs Throw, uma rede de
franquias de casas noturnas especializadas em arremessos de anões, com matriz
na Austrália. Embora não estivesse na qualidade de franqueado, e sim de anão
arremessável, para mim foram quatro anos de realizações, amizades,
gargalhadas... e hematomas, evidentemente. Mas valeu muito a pena: ganhava o
mesmo que um senador em Brasília, incluindo as verbas de gabinete. O dono da
franquia, um “armário” de 2,15m, já era meu parceiro de outros tempos, quando
eu e ele nos apresentávamos em um circo mambembe. Éramos uma dupla: o maior
anão do mundo (ele) e o menor gigante do universo (eu).
Antes disso, trabalhei
por oito intermináveis meses como roto-rooter humano em tubulações de esgoto de
Kansas City, numa rotina um tanto quanto desgastante, insalubre e mal paga. Mas
tudo bem: temos que passar pelo purgatório para chegar ao paraíso.
* Marcelo Sguassábia é redator
publicitário. Blogs: WWW.consoantesreticentes.blogspot.com
(Crônicas e Contos) e WWW.letraeme.blogspot.com
(portfólio).
Esporte perigoso. Quebrar duas vértebras pode levar a paralisia permanente. A boa remuneração não valerá muito nesses casos. Sou mal-humorada e preciso levar a vida de forma mais leve? Sim, e por que não?
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