Aos
professores do Recife: a elite brasileira é burra
* Por
Urariano Mota
Conto o que vi no
último domingo, sem tirar nem pôr na medida do possível.
No chamado Marco Zero
do Recife, fazia-se mais um encontro de amantes do frevo. Ali, tocava uma
orquestra afinada, passistas faziam um passo de acrobata, gente de muitas
idades e lugares. Havia gente até do exterior, poderia completar um recifense
mais exaltado. Tudo muito bom, tanto a ideia do encontro quanto a execução. Mas
eis que de repente, no azul do céu do cais, foi anunciado o frevo de bloco Evocação
nº 1, de Nelson Ferreira. Para mim, coisa melhor não há, e me deixei ficar em
desarmada prelibação do que viria. Um calor de felicidade correu no peito em
atenção à lembrança que guardamos da letra, da canção, do coral de Batutas de
São José, do tempo imorredouro da melodia. Então a voz da cantora soltou:
“Felinto, Pedro
Salgado, Guilherme, Fenelon
Cadê teus blocos
famosos?
Bloco das flores, Andaluzas,
Pirilampos, Apois-fum
Dos carnavais saudosos
Felinto, Pedro
Salgado, Guilherme, Fenelon
Cadê teus blocos
famosos?
Bloco das flores,
Andaluzas, Pirilampos, Apois-fum
Dos carnavais saudosos
Na alta madrugada
O coro entoava
Do bloco a marcha-regresso
E era o sucesso dos
tempos ideais
Do velho Raul Moraes
Adeus, adeus, minha
gente
Que já cantamos
bastante
Recife adormecia
Ficava a sonhar
Ao som da triste
melodia”
No entanto, essa
reprodução da letra do Evocação nº 1 acima não diz bem o que ouvi, porque outra
canção se fez presente, já no começo. A cantora cometeu um “Fê-linto”. De
imediato, esclareço que tal variação na prosódia local não é um coisa boba, sem
importância. Nós estamos falando de um hino da cidade. Trata-se de uma das
maiores obras do maestro Nelson Ferreira. Mas não antecipemos o melhor que
aconteceu a partir daí.
Terminado o número,
fui ao apresentador do encontro e lhe fiz ver que aquela “pronúncia” não era
conforme a original. Então ele me respondeu com o ar mais puro e inocente da
tarde no Marco Zero:
- Todos cantam assim.
Ah, bom. Se todos
sacrificam igual, tudo certo. Mas isso não é verdade. Eu lhe respondi:
- Olhe, a gravação
original da Evocação nº 1 não é assim.
O rapaz ficou atônito.
Que enrascada, que coisa mais chata é esse cara vir dizer que estão cantando
mal Nelson Ferreira. Mas ele – creiam, é verdade – foi salvo por uma senhora,
que a tudo ouvia e, mesmo sem ser chamada, achou por bem intervir. Ela me
mostrou o celular onde estava a letra da Evocação no trecho “Felinto, Pedro
Salgado….”. E me disse:
- Está vendo? É assim
que se escreve: Fê-lin-tô.
Toma, além de me ver
como um homem sem memória, ela me fazia um indivíduo que não sabia nem ler. Eu
lhe respondi:
- É assim que a
senhora lê? Fê-lin-tô?
- Sim - E me fitou de
cima a baixo, indignada, como a me responder “se o senhor não sabe ler,
problema seu”, mas veio mais suave, digamos, porque me disse, autoritária: – Eu
sou professora de português.
Eu lhe respondi:
- Então a senhora sabe
que as palavras não se leem como se escrevem.
- É? Saiba que
português não é inglês. É diferente: aqui a gente lê como se escreve.
Vocês veem que era um
diálogo quase impossível. Uma verdadeira peleja do bem, que é o novo costume,
contra o mal, que pesquisa a história de uma cidade. E o mal sempre perde no
fim, diante do blockbuster. Mas para o leitor, retomo a palavra que não pôde
ser ouvida.
Primeiro, ouça, escute
a gravação original. Filinto, não é? Depois, ouça os Fê-lintos. E até com o
Bloco da Saudade, que vai na mesma onda:
Antes de continuar,
lembro que a mudança no som das vogais não é exclusiva da Evocação nº.1. Há um
caso mais atropelador. Cantam agora, no Bloco da Vitória, do mesmo Nelson
Ferreira: “quando o povo dê-cide”. Ora, o verso de Nelson vinha do refrão
eleitoral “quando o povo diz Cid”.
O original de O Bloco
da Vitória, sucesso do carnaval de 1959, fazia um trocadilho entre “o povo diz
Cid”, da campanha de Cid Sampaio, que venceu as eleições para o governo de
Pernambuco em 1958, e o verbo decidir. Daí que “diz Cid” virou “decide” na
letra e som. Mas jamais esta contrafação abaixo. Virou norma: o original
cantado dicide, cuja origem é “diz Cid”, se transformou em “dê-cide”.
Mas por que isso se
dá? Seria uma evolução natural da língua, que alcançou uma nova prosódia
pernambucana? Penso que não, porque agora mesmo, enquanto escrevo, o povo do
Recife, nos subúrbios de toda a cidade, não fala no modelo do “a palavra se lê
como se escreve”. O que acontece, entre os cantores dos frevos de bloco, de
classe média, é a reprodução de um modelo de fala que julgam culta, educada. É
constrangedor ouvir, ver blocos de carnaval do Recife submissos à prosódia dos
apresentadores da televisão. Cantam Nelson Ferreira traduzido para um modelo de
locução que vem do Rio de Janeiro. Mas nada mais antipernambucano, nada mais
violentador da história da cidade.
E nesta altura entram
os professores, que educam as novas gerações, como a senhora que me ensinou a
ler em seu celular. Muitos professores, pelo visto, ainda não foram informados
de que não se deve falar como se escreve. Para ser mais claro: a leitura das
palavras não é a cópia do que está escrito. Nessa última frase, se a lemos em
voz alta, diremos: “alei tura dais palavras naum é a cópia du qui istá
iscrito”, conforme dizemos, na fala do Recife .
Mais de um estudioso
da língua já observou que “muitos profissionais que atuam na área de ensino da
língua materna conseguem chegar à universidade (e por vezes sair dela) sem ter
consciência das especificidades da fala em contraposição à escrita. Há quem
acredite que se fala tal como se escreve e vice-versa”. Muitos professores
ainda não sabem, pelo visto, que a norma padrão da língua portuguesa é a
sistematização da variedade usada pelas elites socioeconômicas. O problema é
que a elite brasileira é burra. Como assim, como é que é?! Sinto a cotovelada
de um mestre irritado. A elite é burra?
É que a elite não
sabe, e quando é informada, despreza, que a fala popular é a própria língua da
história. Ela, a população, é que fala a língua culta, porque fala a língua
histórica, que guarda um fio de continuidade entre a identidade de um lugar e a
civilização.
Se os professores
foram domesticados a falar como se escreve, ou melhor, como pensam que falam
como escrevem, que renasçam urgente para a fala da nossa gente. Que saiam das
salas de aula e gravem a fala popular nas feiras, nos mercados públicos. Tentem
provocar a gente do povo para que fale as palavras, inclusive as menos
educadas.. Aí aprenderão, os mestres, que Beberibe sempre foi Bibiribe, jamais
Bê-bê-ribe.
No Dicionário Amoroso
do Recife observei que a elite, representada nos doutores tradicionais, nos
poderosos da comunicação nas tevês e rádios, ao pretender mandar no português,
acha sempre que a fala de uma cidade ou não se deve falar ou se corrige. Pela
massificação das telenovelas e dos telejornais, pelos locutores, não se trata
nem de corrigir, o objetivo se transforma em divulgar uma nova fala, pela
repetição como um hit parade da pronúncia. E em lugar de sotaque, a nova língua
passa a ser uma ortoépia. Uma nova ortofonia, que vem a ser o “ramo da
linguística que se concentra estritamente na correção dos traços fonológicos
(acento, articulação dos fonemas, ligação entre eles, etc.)”.
Mais de uma vez pude
notar que os apresentadores de telejornais possuem uma língua diferente da
falada no Brasil. Mas a coisa se tornou mais séria quando percebi que, mesmo
fora do trator absoluto do Jornal Nacional, os apresentadores locais, de cada
região, também falam outra língua. O que me despertou foi uma reportagem sobre
o trânsito na Avenida Beberibe, no bairro de Água Fria, que tão bem conheço. E
não sei se foi um despertar ou um escândalo.
Na ocasião, o
repórter, o apresentador, as chamadas da reportagem, somente chamavam Beberibe
de Bê-Bê-ribe. O que era aquilo? É histórico, desde a mais tenra infância, que
essa avenida sempre tenha sido chamada de Bibiribe, ainda que se escrevesse e
se escreva Beberibe.
Essa é uma imposição
que vem da matriz da Globo, lá no Rio. Ou seja, assim me informou uma pesquisa:
“Em 1974, a Rede Globo
iniciou um treinamento dos repórteres de vídeo… Nesse período a fonoaudióloga
Glorinha Beuttenmüller começou a trabalhar na Globo. Como conta Alice Maria,
uma das idealizadoras do Jornal Nacional: “sentimos a necessidade de alguém que
orientasse sua formação para que falassem com naturalidade”.
Foi nesta época, que
Beuttenmüller começou a uniformizar a fala dos repórteres e locutores
espalhados pelo país, amenizando os sotaques regionais. No seu trabalho de
“definição de um padrão nacional, a fonoaudióloga se pautou nas decisões de um
congresso de filologia realizado em Salvador, em 1956, no qual ficou acertado
que a pronúncia-padrão do português falado no Brasil seria a do Rio de
Janeiro”.
O tão natural
Pernambuco, que dizemos Pér-nambúcu, se pronuncia agora como Pêr-nambúcô. E
Petrolina, Pé-tró-lina, uma cidade de referência do desenvolvimento local,
virou outra coisa: Pê-trô-lina. E mais este “Nóbel” da ortoépia televisiva: de
tal maneira mudaram e mudam até os nomes das cidades nordestinas, que,
acreditem, amigos, eu vi: sabedores que são da tendência regional de transformar
o “o” em “u”, um repórter rebatizou a cidade de Juazeiro na Bahia. Virou
JÔ-azeiro! O que tem lá a sua lógica: se o povo fala jUazeiro, só podia mesmo
ser Jô-azeiro.
Então se compreende
como os versos de Nelson Ferreira se falam pela nova maneira. Filinto virou
Fê-linto, Dicide virou Dê-cide Até Felinho, o gênio universal das variações do
frevo Vassourinhas, já existe quem o chame de Fê-linho, em lugar do nosso mais
conhecido músico Fé-linho, o grande do frevo Formigão.
O meu apelo é que os
professores gravem a própria fala no cotidiano, para comparar, se pensam que
falam como se escreve. E descobrirão, se transcreverem o que tão cultamente
pronunciam, que o “l” final é transformado em “u”, assim como o “o” final em
múndu e imúndu, por exemplo. Quero dizer, mundo, imundo. Nôiti por Noite. Que
se guiem pela volta ao poeta Manuel Bandeira, na Evocação do Recife
“A vida não me chegava
pelos jornais nem pelos livros
Vinha da boca do povo
na língua errada do povo
Língua certa do povo
Porque ele é que fala gostoso
o português do Brasil
Ao passo que nós
O que fazemos
É macaquear
A sintaxe lusíada”.
Que tempos, Manuel
Bandeira. A sua Evocação do Recife não é mais “é-vocação”, nem é do “ré-cífi”.
Virou ê-vô-cação dô rê-cífê”. Em vez da sintaxe lusíada, hoje macaqueamos a
fala da televisão. E passamos a cantar Fê-linto, Dê-cídê, Fê-linho, dô Rê-cífê
.
*
Escritor, jornalista, colaborador do Observatório da Imprensa, membro da
redação de La Insignia, na Espanha. Publicou o romance “Os Corações
Futuristas”, cuja paisagem é a ditadura Médici, “Soledad no Recife”, “O filho
renegado de Deus” e “Dicionário amoroso de Recife”. Tem inédito “O Caso Dom Vital”, uma sátira ao
ensino em colégios brasileiros.
Caro Urariano, descordo totalmente, pois eu pronuncio Beberibe, Recife, de preposição, etc, e não "Bibiribe", "Ricife"... Daqui a pouco, lá por São Paulo, os apresentadores de telejornalismo irão falar errado colocando o "i" no lugar do "r": Poita, poico, paique, caitão... e "culégio" no lugar de colégio?
ResponderExcluirTal crônica teve lugar aqui mesmo há pouco dias, mas o repeteco é bom. A glória foi a Rede Globo ainda não ter conseguido unificar o sotaque do brasileiro. Comentei então, que tinha visto na Globo News uma reportagem na qual diante de um prato de arroz e feijão, mostrou-se a fala "desuniforme" do Brasil de norte a sul. Glória! Gloria! Muito interessante.
ResponderExcluir