Viver é que é difícil
O livro de ficção mais vendido no Brasil, neste início de
2015, é um romance lançado em fins de 2014 (embora nos Estados Unidos seu
lançamento tenha ocorrido em 2009) que, a exemplo do que ocorreu na terra de “Tio
Sam”, caiu de imediato no gosto tanto do público quanto da crítica. Refiro-me a
“Se eu ficar”, da jovem (tem 44 anos de idade) escritora californiana Gayle
Forman, que antes de se aventurar pelo incerto mundo da Literatura, atuava como
competente jornalista. É mais um dos tantos casos em que o jornalismo contribui
com qualidade para a atividade literária.
O livro chega ao Brasil após vitoriosa trajetória em várias
partes do mundo. Já foi lançado, por exemplo, em 35 países, com excelente
aceitação em todos eles. É, portanto, “tacada certeira” da Editora Novo
Conceito, que apostou nesse empreendimento e vem se dando bem. As vendas
crescentes atestam esse acerto. A edição brasileira conta com a tradução de
Amanda Moura. É um desses romances que a gente não consegue parar de ler
enquanto não chegar à última página. Seu ritmo é tão dinâmico, que foi
transformado em filme – dirigido por R. J. Cutler, tendo no elenco Chloë Grace
Moretz, Mireille Enos, Joshua Leonard, Stacy Keach, Lauren Lee Smith, Liana
Liberato e Jamie Blackley, entre outros – que será lançado nos Estados Unidos
em agosto e previsto para chegar ao Brasil um mês depois.
“Se eu ficar” narra a história de Mia Hall – jovem artista, adolescente de 17 anos, amante
de música erudita, cujo sonho maior era estudar violoncelo na célebre escola
Jilliard, de Nova York – que está em coma na UTI de um hospital, após acidente
automobilístico que matou seus pais e seu irmão mais novo Teddy. A garota tem
24 horas decisivas nas quais precisará compreender o que aconteceu e fazer a
mais importante escolha de sua vida: ficar neste mundo (e viver) ou morrer.
Antes do acidente, também enfrentava um dilema, posto que não tão dramático e
decisivo: tinha que escolher entre seguir seus sonhos na escola de música
Juilliard ou optar por caminho diferente com o amor de sua vida, seu namorado
rebelde, Adam, guitarrista e vocalista da banda Shooting Star, em uma pacata
cidade do Estado de Oregon em que vivia com a família.
O enredo transcorre em um único dia. O livro, portanto, não
tem capítulos, tem horas. Gayle Forman maneja, com habilidade e muita
sensibilidade, presente e passado, alternando o que se passa na mente de Mia
enquanto em coma na UTI do hospital com flashes de sua vida antes do acidente.
Apesar do ritmo veloz, de tirar o fôlego, da narrativa, habilidade que poucos
escritores têm, a autora traz à baila, sem que nos
apercebamos, importantes reflexões sobre vida, morte, escolhas, amor, sonhos
etc.etc.etc. Claro que não irei resumir a história e muito menos revelar seu
desfecho. Não sou estraga prazeres e não quero acabar com sua surpresa, caro
leitor, que certamente planeja adquirir o livro. Se fizer esse “investimento”,
asseguro-lhe que não se arrependerá.
Entre os pensamentos que passam pela cabeça de Mia, está
este: “Eu não estou certa de que este é um mundo a que pertenço. Não tenho
certeza que quero acordar”. Em outro trecho, a adolescente pensa: “Sei que pode
ser idiotice de minha parte, mas sempre me perguntei se o papai se sentia
frustrado por eu não ter me tornado roqueira. Esta era a minha intenção,
também. Até que, na terceira série, me deparei com o violoncelo durante as
aulas de música e ele me pareceu mais humano. Parecia que, ao tocá-lo, ele lhe
contaria segredos, então não hesitei. Isso já faz dez anos e desde então, nunca
parei”.
E Adam, o namorado rebelde, o que pensava de tudo isso?
Amava Mia sem restrições ou se tratava de um namoro fortuito, ocasional,
passageiro como tantos outros? Sua declaração à amada, que se debatia entre a
vida e a morte, responde; “Se você ficar, eu faço o que você quiser. Eu largo a
banda, vou com você para Nova York. Mas se você precisar que eu vá embora, eu
faço isso também. Eu estava conversando com Liz e ela disse que talvez voltar
para sua antiga vida seja doloroso demais, que talvez seja mais fácil você nos
apagar. E isso seria uma droga, mas eu faço. Eu posso perder você assim se eu
não a perder hoje. Eu deixo-a ir. Se você ficar".
Concordo plenamente com esta observação que li no blog “Livros
pra ler e reler”, a propósito deste romance: “Gayle Forman emociona e fala
sobre amor, perda, sacrifício e escolha. Principalmente, nos faz refletir sobre
os mistérios da vida, da morte e do coma, nos conduzindo a uma reavaliação de
nossas vidas e do que é importante para nós, valorizando assim cada segundo de
nossa vida, pois nada é para sempre”. E não é mesmo!!! É como Mia Hall conclui
à certa altura: “Percebo agora que morrer é fácil. Viver é que é difícil”.
Boa leitura.
O Editor.
Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk
Os momentos decisivos são exatamente isso: decisivos. Entrar nesse mundo comatoso com essa propriedade e fazer um trabalho reconhecido por tantos é um feito memorável. Despertou completamente a minha curiosidade, Pedro.
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