O fim é uma certeza
*Por Samuel C. da Costa
"No
silêncio da madrugada, minha alma se propõe,
...ao
bem, ou ao errado? Não sei.
Quem
poderá me julgar?
No
silêncio da madrugada,
É
que minha mente é livre,
Para
atacar ou recuar,
E
quem virá me julgar?
Se
a sabedoria viesse no silêncio,
Da
madrugada,
Que
bom seria, pois ali eu estaria. ’’
José
Luis Grando
Os passageiros
dividiam o espaço do vagão, com correspondências e mercadorias advindas da
cidade portuária. O trem estava a caminho do litoral para o interior. Os poucos
passageiros, na maioria, eram de trabalhadores pobres e maltrapilhos, estavam
inertes em seus mundos particulares. O silêncio ali imperava, reinava absoluto,
em todos os sentidos, até o barulho da locomotiva parecia querer ficar lá fora.
Sentada em um banco de madeira uma menina vestida, com um modesto e surrado
vestido de chita floral rosa e incrivelmente limpo, laço surrado amarelo na
cabeça e os pés estavam desnudos. Ela parecia estar em estado catatônico, e um
menino, com poucos mais um ano, enrolado em uma manta marrom, estava sentado no
colo da menina, o pequeno dormia complacentemente o melhor dos sonos. De
repente ele acorda e sorriu para os homens sentados, a poucos metros, na frente
de ambos. Os três homens vestiam ternos pretos bem alinhados e feitos sobre
medida, gravatas vermelha, sapatos engraxados, unhas feitas, cabelos bem
cortados, dentes bem tratados e barbas feitas. Destoavam, em muito, dos
restantes dos passageiros vestidos modestamente. A menina, que aparentemente,
estava perdida em seu mundo particular, a olhar para o vazio, até virar a
cabeça de forma mecânica e olhar para os três homens bem alinhados. A menina
viu as roupas dos três homens, outrora bem vestidos, cobertas de sangue, os
sapatos cobertos de lama, exalavam um odor putrefato de cadáver dos três e os
olhos deles estavam injetados e inchados. O homem maior então fez menção de
pegar o menino que estava no colo da menina.
─ Não põe as tuas mãos
suja nele seu animal imundo! ─ gritou a menina, em plenos pulmões, a voz dela
soou gutural e ecoou na mente dele de tal forma que o deixou tonto. O demais
passageiros pareciam nem se importar com o fato
─ Calma menina, eu só
queria fazer graça, com o teu irmão! Não posso? ─ Armênio Vieira Souto se
impressionou quando viu os olhos da menina, tinham um brilho estranho, pareciam
sem vida, pareciam de uma pessoa morta.
─ Se tentar pôr as
mãos nele de novo, eu te mato! Sua pestilência assassina, pústula maldita e
infernal!
Os outros passageiros,
não estavam entendo nada do que acontecia. Armênio fez menção de chorar naquela
hora extrema.
─ O que acontece
contigo? O que foi irmão?
─ O que foi chefe? O
senhor está bem?
─ Nada seus idiotas,
me deixem em paz! Estamos chegando à estação, afinal de contas? Falta muito
ainda, pra gente chegar?
─ Estamos chegando
chefe!
─ Bom! Estou farto
dessa gente preta ordinária! Queria mesmo, é ‘’ter pegar’’ o vapor.
─ ‘’Tas’’ tolo seu
‘’abobado’’, ‘’tas’’ falando do que afinal, meu irmão? ─ O irmão mais novo de
Armênio, nunca viu o irmão em tal estado, tão fragilizado. Ele sempre fora tão
forte.
─ Ora! Ter que dividir
o vagão, com esta gente preta e ordinária! Laudelino meu irmão só não aguento
mais é só isto! Da próxima vez, pegamos o vapor.
─ Que gente preta
irmão? Não tem preto algum com a gente! Tás falando do que? ─ Os demais
passageiros, que até então estava em seus mundos particulares, de voltam para
acompanhar a cena que se desenrolavam.
Ao chegarem à estação,
os três homens enfim se encaravam, era hora do derradeiro fim daquela parceria.
Armênio estava em alerta total, estava entranhando as poucas pessoas na estação
naquela hora do dia. E viu um solitário policial militar negro bem alinhado,
alto e corpulento, ele estava armado com uma Mauser 98K, versão “sniper”
pendurado no ombro esquerdo. O soldado estava conversando com um teuto pequeno
que usava roupas surradas, óculos de aros de tartaruga, ele segurava um caderno
de notas e lhe fazia anotações rápidas, na visão Armênio, aquele homem era um
jornalista. O soldado encara Armênio nos olhos de forma rápida, ele sente a
mesma sensação de quando olhou para a menina no trem. O negro sorri e volta a
conversar com o jornalista como se nada houvesse acontecido.
─ Norberto as nossas
coisas chegam ainda hoje. O vapor chega ao fim do dia. Nossa pareceria acaba ai
e agora. Boa sorte pra tu! E espero mesmo que respeite o doutor Gustav
Blumenthal e fique longe do litoral, por um bom tempo. O serviço foi o último,
não tem mais nada para nós por lá.
─ Mas chefe?
─ Acabou Norberto! E
não me olha com essa cara de burro quando foge!
─ O que faço da minha
vida agora? O que faço Armando? ─ Norberto se virou para o outro irmão pedindo
ajuda.
─ Te vira homem! E
adeus! ─ retrucou Armando com certo pesar na voz. Então os dois irmãos pegaram
um carro de mola e desapareceu rua abaixo. Norberto pegou o táxi com destino
incerto.
* Poeta
de Itajaí/SC
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