Nas ondas alemãs
* Por
Mara Narciso
Inova, inventa,
captura, seduz, envolve e leva o leitor pelos meandros do raciocínio de um
gênio. Privilégio tem quem entra em seus pensamentos e o acompanha em sua
aventura em busca do “Irmão Alemão”, perdido noutro país e noutras épocas. Munido
de uma foto e de uma carta, Francisco caminha pelas suas suposições, deduções e
ilusões, atrás de algo vago, porém estimulante para si e para quem o lê.
Escrito na primeira pessoa, os nomes são levemente mudados, e a verdade
salpicada de fantasias. Assim, Chico Buarque de Holanda nos leva por um mundo
que não é de todo real, mas também não é fictício.
Na condição de
consumidora do que Chico Buarque faz, e faz tão bem, embarco na onda alemã e
vou com ele em busca do seu irmão, que, sendo vivo já passou dos 80 anos. E
pode-se imaginar o que teria sido se tivesse vivido no Brasil. Desfilam entre
livros clássicos e seus personagens, pessoas remanescentes dos hippies,
escritores e compositores famosos, mães em busca de filhos desaparecidos, transgressões
adolescentes, sexo, música, teatro, bares, cigarros de tabaco e de maconha,
LSD, perdas e conquistas. O ritmo é rápido e, à moda de José Saramago, não são
gastos parágrafos para se escrever os diálogos, marcados em texto corrido.
O personagem
principal, contrariando o nome do livro, não é o irmão, e sim a biblioteca
gigante do pai, onipresente. Garante o autor que a estrutura da casa são os
livros, empilhados do chão ao teto, que seguram a casa, sejam dentro de
estantes, em cima de móveis, ou em caixas no chão. São como o ar para seu pai,
um tabagista arquejante, amigo de grandes escritores e mimado pelos editores,
que lhe mandam novas remessas de obras todos os dias. Sem falar com ele e dando
atenção e dinheiro apenas ao irmão Domingos, que odeia livros, Sérgio de
Hollander, o pai, não o enxerga. A mãe italiana, Assunta, mistura-se aos livros
e à comida do marido, sendo uma mulher que não existe, a não ser escorada por
essas duas providências que a levam vida afora.
Udo, o vizinho, buzina
dentro de um Karmann Ghia novinho, exceto pelo vidro do carona arrebentado por
um paralelepípedo. Uma alusão à primeira vez em que Chico Buarque aparece no
jornal, não na página literária, mas na página policial, por ter furtado um
carro. Seu irmão Domingos tem o vício de atrair para a cama moças virgens que,
depois de defloradas são descartadas. Assim como o pai lê e escreve nas margens
dos livros que sobram para Francisco ler em segredo, também as mulheres que
foram do seu irmão são o que lhe resta. Até Maria Helena, que foi uma
descoberta sua, fica com o irmão antes de estar com ele.
Sente-se feio,
compara-se ao irmão, e usa roupas dele. Louco por livros, carrega sempre algum.
Formado em Letras, é professor de Francês, e vive com pouco dinheiro. Idealiza
com prazer escrever um romance que será lido pelo seu pai. Em busca de
informações sobre o irmão alemão Sérgio Ernest, aproxima-se de uma família
alemã de professores de piano e encontra um caminho, finalmente. Adiante, Udo,
o tal vizinho, some de repente, levando consigo o seu irmão, então tido como
subversivo. O autor vê uma abordagem policial de alguém que nunca mais volta.
Assim, vai contando a sua busca, enquanto alfineta a História.
Usa de humor, apimenta
a narrativa, fala um ou outro palavrão, enquanto diverte seu leitor. Não se
separa o que é real do que é ficção. Em nome da clareza, inventa passagens
fantasiosas, que lhe servem de ligação. Disse que seu pai, ainda que aprendesse
todas as línguas e lesse todos os livros do mundo, ainda assim não estaria
satisfeito. Desta forma, palavras de diversos idiomas visitam a narrativa, como
ilustração e não como esnobismo.
A Alemanha da década
de 1930 desfila diante do leitor, com suas ruas, edificações, costumes e alusão
à II Guerra Mundial, inclusive, em nome da dignidade, com cenas dentro de um
campo de concentração.
Para provar o que diz,
o autor apresenta documentos da época, ocasião em que Anne Ernest tem um
relacionamento com Sérgio de Hollander e geram o filho Sérgio Ernest, mas a mãe
não tem como sustentá-lo. A criança será adotada por um casal alemão, porém é
preciso comprovar, em tempos de purificação da raça, que a criança é ariana
pura, de ambos os lados. Mas isso se torna impossível, considerando-se
necessárias as certidões de nascimento do pai, dos avós e bisavós. Tal não é
feito, e os contatos se perdem. As páginas já estão acabando e o leitor se
pergunta se dará tempo. E assim, mantém-se o suspense.
Compositor impar, com
suas músicas políticas, líricas e feministas, suas peças de teatro engajadas,
suas marcantes trilhas sonoras para cinema e televisão, seus livros “Estorvo” e
“Benjamim”, que viraram filmes, “Budapeste”, em que detalha uma cidade na qual
não tinha estado, “Leite Derramado”, em que embarca no esquecimento do Mal de
Alzheimer, pode-se não gostar da ideologia socialista de Chico Buarque de
Holanda, de 70 anos, porém não há como ficar indiferente ao que faz. E que
venham mais irmãos. E de qualquer nacionalidade.
*Médica endocrinologista, jornalista
profissional, membro da Academia Feminina de Letras e do Instituto Histórico e
Geográfico, ambos de Montes Claros e autora do livro “Segurando a
Hiperatividade”
Embora tenha me desencantado com seu apoio declarado a um governo que passará à história como o mais corrupto de todos os tempos, "O irmão alemão" encabeça minha lista de futuras leituras. Muito boa resenha, Mara. Abraços.
ResponderExcluirAgradeço o apoio, Marcelo. A ideologia não compromete o romance, que, me contaram, é uma declaração de amor ao pai dele. Acredito que você irá gostar.
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