Dialética de trevas
* Por
Marco Albertim
O Flamboyant de flores
vermelhas pareceu repercutir o entrechoque de ideias. O chalé com as paredes
brancas por dentro e por fora, fora pintado daquela cor para não dar conta da
renhida disputa entre o casal. Sabiam-se afins, por isso mesmo tinham
consciência de que abrir mão de um dado ou de outro do juízo de cada um, seria
uma capitulação; e isso empobrecer-lhes-ia o currículo de casal amoroso, mas
acima de tudo apaixonadamente polemista.
- Sônia Yevuchenka,
sua dialética é de uso particular. Serve tão somente à conveniência de seus
pontos de vista. E, o que é mais grave, não reflete a tradição revolucionária
que Marx conferiu à categoria.
- Você, Bóris, está
tão longe do pensamento de Marx, quanto do seu túmulo em Londres. Mas saiba que
o seu maniqueísmo no trato de nossas relações, pode reverberar nas reuniões do
Partido. Nós estamos perto da separação, e você está perto de abrir uma
dissidência dentro do Partido.
- É provável. Já estão
insinuando que as asas de seu pensamento têm o mesmo tamanho das asas de Rosa
Luxemburgo. Estão confundindo o inchaço de suas ideias, com a largueza do
pensamento de Rosa Luxemburgo. Você não pensa, Sônia Yevuchenka, você infla.
A noite cresceu tão
densa quanto a discussão entre Bóris Preobrajenski e Sônia Yevuchenka. Em que
pese a origem eslava de seus nomes, são brasileiros. Os pais também, mas foram
gerados por famílias ucranianas. Bóris e Sônia, atraídos pela origem, creram-se
fadados à vida em comum; juntaram-se como uma espécie de conúbio sanguíneo. O
contato carnal deu-se simultâneo aos debates sobre como enriquecer a relação
entre os dois, sem o risco de se deixar contaminar pelo vírus da concepção
burguesa de casamento. Antes, uma mera tertúlia, inda que entremeando as lidas
dos sexos. Com o tempo, a tertúlia tornou-se tão feérica quanto a disputa entre
duas águias famintas pela presa.
Mas a noite
adensou-se. Nenhum dos dois deu sinal de que a discussão esmoreceria. A
acusação de que Sônia Yevuchenka enchia de ar comprimido suas ideias, seu
juízo, convenceu-a de que o contra-argumento estava nos membros rijos de sua
carnação. Ela eriçou-se feito uma tartaruga que emerge lenta, mas dura na
marcha. Os bicos dos seios duros, tudo fazia crer que logo romperiam a maciez
do sutiã. Tinha consciência disso, e fitou o parceiro com os olhos tão
chispantes quanto a fúria dos mamilos.
- Ainda sentimos
atração um pelo outro? - quis saber ela.
- Sim.
- Por quê? - insistiu.
- Porque não quero
nunca que você abra mão da intransigência de sua ortodoxia.
- E se eu lhe fizer
uma concessão? - provocou-o.
- Perderei até a
libido por você.
Sônia Yevuchenka não
quis tirar a roupa, porque sabia que, mesmo com o fustão amarelo enodoado
cobrindo-a dos ombros à altura dos joelhos, Bóris Preobrajenski sabia
apreciar-lhe os contornos do corpo. Ele sucumbiu à força penetrante dos olhos
dela; desceu os olhos, adivinhando os traços da vibração nas curvas do corpo da
parceira. Ela, tão dura quanto acessível, sequer moveu um dos dedos. Parecia
convidá-lo ao desafio. Nos olhos luminosos de Sônia, leu:
- Tenho meu jeito de
fazê-lo curvar-se as minhas ideias.
Ele abriu a janela,
convencido de que o acanhamento das quatro paredes do quarto não daria conta da
percepção dos sentidos de cada um. Sentiram o sopro conivente do vento na
altura da noite fechada. O relógio da parede, com onze badaladas geladas, por
certo tinha a força de um desvão há muito fechado, agora reaberto. Não havia
lua; para quê? O lume de sua luz, até então só fora notado por escribas da
burguesia, com poemas tão balofos quanto a inconsistência do sistema.
A escuridão dos astros
distantes do quarto de Bóris Preobrajenski e de Sônia Yevuchenka, conferiu a
marcialidade da relação entre os dois.
Os dois continuam
vivos, casados. Não se sabe é se houve rendição na noite trevosa e cunhada de
sentenças.
*Jornalista
e escritor. Trabalhou no Jornal do Commércio e Diário de Pernambuco, ambos de
Recife. Escreveu contos para o sítio espanhol La Insignia. Em 2006, foi
ganhador do concurso nacional de contos “Osman Lins”. Em 2008, obteve Menção
Honrosa em concurso do Conselho Municipal de Política Cultural do Recife. A
convite, integra as coletâneas “Panorâmica do Conto em Pernambuco” e “Contos de
Natal”. Tem três livros de contos e um romance.
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