Insatisfação e rebeldia
A insatisfação é a mola propulsora das
nossas realizações, desde que, claro, não superestimemos nossa capacidade, mas
nos empenhemos para ampliá-la, mais e mais. É esse descontentamento que move,
entre outras coisas, a economia, gerando necessidades (reais ou imaginárias),
que as pessoas empreendedoras e dinâmicas buscam satisfazer e lucrar com isso.
Por não estarmos satisfeitos com determinados comportamentos, nos empenhamos
(ou deveríamos nos empenhar) em mudá-los, em busca da perfeição. Desde que não
exacerbada – e tudo o que é exagerado tende a ser pernicioso – a insatisfação,
portanto, nos mobiliza e induz a criar obras materiais e espirituais e propiciar,
dessa forma, o que se define como “progresso”.
Carecemos, no entanto, nos dias atuais,
de certa rebeldia, sobretudo face à corrupção, aos desmandos e à violência que
campeiam e se multiplicam, arruinando nossas vidas. Onde foram parar os grandes
sonhos da juventude? Onde estão os valores éticos (e estéticos) defendidos, há
algum tempo, com garra e destemor por jovens determinados e idealistas? Foram
substituídos pelo comodismo? Parece que sim! Foram trocados por cômodas
posições individuais, sociais e econômicas, mais instáveis e efêmeras, todavia,
do que ousamos supor? É bastante provável! Foram abastardados? Sabe-se lá!!!
O pior de tudo é que aqueles idealistas
da década de 60 do século passado não só renegaram seus ideais como sequer os
transmitiram aos filhos, numa admissão tácita de que estavam errados (embora
errassem, apenas, na estratégia e não nos objetivos).. Daí o cínico desalento
de hoje. Daí o individualismo inconseqüente. Daí o materialismo exacerbado. Essa
frenética busca por meras miragens, estas sim “caretices” de quem não tem rumo
e nem sonhos pelos quais batalhar. Como no início da década de 60, temos, hoje,
pessoas rebeldes e até em maior número do que naquela ocasião. Mas sua rebeldia
é inócua, posto que sem causa. Não se volta (salvo uma ou outra exceção) à
conquista de ideais superlativos.
As pessoas estão insatisfeitas mas
sequer conseguem definir o foco de suas insatisfações. Sua rebeldia limita-se a
mera tentativa de auto-afirmação, de batalha desordenada, muitas vezes,
destrutiva, ou, no mínimo, “catatônica”. Caracteriza-se pelo ceticismo
generalizado, mas passivo; pelo imobilismo, pela amargura, pelo isolamento. Insisto:
há exceções. Estas, contudo, são cada vez mais raras. Bandeiras, convenhamos,
não faltam para serem erguidas e defendidas. Existem em muito maior quantidade
do que existiam nos anos 60.
A rebeldia (mesmo a com causa) é
atitude geralmente mal-interpretada e volta e meia mal direcionada.
Rebelamo-nos, amiúde, contra o que não deveríamos nos rebelar: contra normas de
conduta saudáveis e necessárias e contra imposições de disciplina e de ordem
sem as quais nada e ninguém prosperam. Todavia, o que realmente envenena os
relacionamentos, e torna o mundo perigoso e ruim, passa batido e se avoluma,
geração após geração. Esse comportamento é mais comum na adolescência, quando
nos julgamos poderosos, invulneráveis, indestrutíveis e imortais, sem que,
claro, de fato, sejamos. Na minha época de juventude, o título de uma famosa
canção transformou-se em lema, em mantra, em palavra de ordem para a minha
geração: “não confie em ninguém com mais de trinta anos”. Sequer é necessária
maior análise para concluir sobre a estupidez e falta de sentido desse tipo de
rebeldia.
Naquela época, pensávamos, até
inconscientemente, que o passar dos anos tornava pessoas acomodadas, dóceis,
desossadas e, sobretudo, “caretas”. Ou seja, sem criatividade e nem
originalidade. Sequer passava pela nossa cabeça que não seríamos jovens para
sempre (achávamos que sim) e que um dia seríamos iguaizinhos aos que então
ridicularizávamos e pretendíamos segregar. Hoje, as coisas são diferentes?
Nossos filhos e netos aprenderam alguma coisa com nossos erros, que foram
imensos? Não! Definitivamente não! Com algumas mudanças, aqui e ali, seguem
cometendo as mesmíssimas tolices que nós que, certamente, resultarão em
idênticas conseqüências. Não é essa, pois, a rebeldia que defendo e que devemos
assumir.
Temos que nos rebelar, sim, e muito, e
sempre, mas contra injustiças, violência, corrupção, prepotência, exploração do
homem pelo homem e outras tantas mazelas, desnecessárias de serem enumeradas.
Mas em sentido prático e construtivo e não apenas limitado a um inconseqüente e
monótono bla-bla-blá. Precisamos agir, em vez de discursar. Cabe-nos apresentar
alternativas, e vivê-las, em vez de nos limitarmos a deblaterar ou a agredir
nossos próprios corpos. Compete-nos, sobretudo, preservar e impedir que sigam
destruindo o Planeta, nosso único domicílio cósmico, que pede socorro e
agoniza, sem que a maioria se dê conta.
A maior das rebeldias é a de não
aceitar nada menos do que a felicidade, para nós e para os que amamos. Devemos não apenas sonhar com ela, não só
lutar por sua concretização, mas “exigi-la”. E não num futuro distante, que
provavelmente sequer conheceremos. Sejamos rebeldes, sim, mas inteligentes!
Considero as artes, todas elas, como expressões de insatisfação. Todo artista
é, no fundo da alma, um rebelde. “Cria” beleza e transcendência, por não estar
satisfeito com a realidade que vive. Falta-lhe, porém, imprimir sentido prático
a isso. Precisa tentar transpor o que imagina do mundo ideal, refletido em suas
criações, para o mundo real.
O conformismo – pregado, até não faz
muito, por determinadas religiões como “virtude” – é o caminho mais curto para
a acomodação. Daí para a mediocridade é simples passo. A perseverança é o
antídoto contra a conformação. A rebeldia natural dos jovens (posto que caótica
e sem objetivo) é, insistentemente, combatida pelos encarregados de sua
educação (pais, professores etc.). É um erro. Em vez de sufocada, deveria ser direcionada
e, óbvio, em sentido construtivo. E, bem orientada, precisa ser estimulada. Manda
o bom senso que se aproveite essa tremenda energia dos jovens para criar,
construir e modificar para melhor o que esteja errado e seja danoso e
inadequado. Ser rebelde não é, pois, “destruir” a si próprio, recorrendo ao
álcool e às drogas e, principalmente, não é atacar os outros, mediante atos de
violência (como o terrorismo, por exemplo) que, de uma forma ou de outra,
retornarão ao violento. Afinal, como acentua famosa lei da Física, “a toda ação
corresponde uma reação, de igual intensidade e direção contrária”.
Contrariando famoso provérbio, no final
das contas, “o hábito faz o monge”. E como faz! Isto, apesar de todos os
esforços, notadamente dos jovens, para “desmoralizar” esse tipo de
comportamento, que só leva em conta a aparência exterior, aqueles sinais
visíveis de riqueza ou de pobreza, facilmente disfarçáveis e escamoteáveis, sem
atentar para o que a pessoa de fato é. Por paradoxal que possa parecer, a moda
conseguiu transformar, até, a “deselegância” em padrão de “elegância”. Cooptou,
dessa maneira, a (inútil e mal direcionada) rebeldia da juventude em relação à
aparência (cabelos e barba compridos) e ao traje, de movimentos como os dos
“beatniks”, “hippies” e “punks”. Calças
jeans, e ainda por cima puídas, que eram vestes características de pessoas não
apenas mal vestidas, mas miseráveis, são ostentadas, hoje em dia, com orgulho,
como “sumamente elegantes”, por rapazes e moças de classe média e até de
famílias abastadas, sem que quase ninguém mais repare e nem estranhe. Isso,
contudo, não é rebeldia. É mera distorção dos padrões estéticos. Sinais dos
tempos? Acredito que sim.
Boa
leitura.
O
Editor.
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