Olha o poste!
* Por
Fernando Yanmar Narciso
Sou um cara que gosta
de dar um passo de cada vez, de ideias firmes e irredutíveis. Prometi a mim
mesmo que antes de tirar a carteira de motorista não me preocuparia em arrumar
um emprego e sair da casa dos pais, não importa o tempo que levasse minha vida só
começaria depois que o volante estivesse na minha mão. Tanto que continuo
desempregado, solteiro e encostado até hoje, mas com integridade intacta.
Os videogames mentiram
pra mim. Passei uma vida a acreditar que bastava pisar fundo no acelerador,
virar o volante e você já era um motorista. Ledo engano... O que são doze anos
na vida de um homem? Minhas idas e vindas da autoescola começaram em 2002. Na
época, eu ainda era um pivete descontrolado, que não conseguia ficar sentado
nem por 5 minutos. Podem me imaginar querendo sair pela janela do carro com o
mesmo em movimento, descendo o morro?
Por esse motivo, fui
reprovado no primeiro teste psicotécnico. Só depois da terceira reprovação,
eles me sugeriram buscar ajuda psiquiátrica. E lá se foram seis anos de análise
e conselhos, até que eu finalmente consegui juntar coragem para voltar ao
miserável teste dos rabiscos de olhos vendados. Ô, ódio! Juro por forças
superiores que aquela ideia saiu dos porões do DOPS! E da primeira vez que eu
passei no teste, foi uma festa, principalmente porque não teve nenhum jogo de
risca-rabisca!
Cheguei em casa
cabisbaixo, e disse com o tom de voz mais triste do mundo “Sinto muito, fiz
tudo o que pude... E PASSEI!” Pai e mãe pularam de alegria. Mais uma etapa
havia ficado para trás, a agora precisava voltar à autoescola. Então, cometi o
erro mais comum quando as coisas começam a se acertar para mim: Excesso de
autoconfiança. Faltando pouco mais de um fim de semana para a prova de
legislação, estava com o ego fervilhante até a testa, achando que ia passar o
rodo na tal da prova sem nem suar.
Nas sextas-feiras a
autoescola costuma passar as tradicionais provas simuladas e eu inventei de
fazer. Menino, pra quê? O pavor tomou conta de mim ao ver que só havia feito 12
pontos em 30! Seu merda! Isso é tudo que tu consegue fazer? Não deu outra: Com
a ajuda dos indispensáveis remedinhos tarja preta, passei o sábado e o domingo
deitado no sofá da sala devorando aquele livretinho maldito de legislação, sem
levantar nem pra comer ou tomar banho - A mancha de gordura no estofado
permanece lá como prova.
Batalhando feito
Ayrton Senna na última volta com pedaços da McLaren esfarelando por todos os
lados, fiz a prova na segunda-feira e passei de raspão. Fiz 21 pontos em 30.
Comigo, as provas sempre são resolvidas assim, na corda-bamba. Mais festa! Aí
veio a parte mais divertida de todas: Mãos ao volante! As aulas que separam os
homens das torradeiras.
Tão grande como meus
dotes artísticos é minha capacidade de causar traumas nas pessoas. A maioria
precisa de no máximo umas 20 aulas de rua para ganhar jogo de cintura ao
volante e conquistar a tão sonhada carteira. Tive quase 60 aulas, três
instrutores, três carros diferentes e continuava sem saber dirigir. Descobri
que dirigia exatamente como vivo: Em completo abandono. Não conseguia prestar
atenção à sinalização, aos retrovisores, à troca de marcha, ao acelerador, ao
volante e ao chiclete na boca ao mesmo tempo.
Mesmo assim,
surpreendentemente conseguia fazer até bem a liçãozinha que costuma pegar todo
aspirante a condutor: A tal da baliza. Pra mim foi como passear no parque. Aí,
veio a primeira prova de rua. Hora de arrancar a Excalibur da pedra. Eu estava
praticamente cuspindo fora o aparelho digestivo completo de tão nervoso quando o
avaliador me chamou. Minha vida toda estava em jogo, todo meu destino
depositado naquele volante. Como é que qualquer pessoa poderia fazer algo que
preste com tanta pressão psicológica?
E, para coroar, ele
ainda esperava que eu mostrasse minhas habilidades de “grande motorista” em SÓ
10 MINUTOS, ÀS SETE DA MANHÃ?! Não teve jeito. Nada deu certo... Voltei pra
casa com o rabo entre as pernas e chorei todo o fim de semana. E aqui estamos
nós, sete anos depois. A maldita carteira é, para mim, uma questão de honra, e
depois de muita, mas muita insistência, consegui que meu Dr. Freud particular
me liberasse para voltar às ruas.
Mais moço e
controlado, superando meus traumas passados e causando novos traumas aos
instrutores, falta muito pouco para que a banca me convoque novamente. Tomara
que dessa vez eu consiga tirar meu verdinho! Como podem ver, quanto ao volante,
não sou um tigre, não dou passos felinos. Sou uma baleia que se move devagar,
mas com firmeza. Mas toda araruta tem seu dia de mingau. Cedo ou tarde, vou
estar a bordo de meu Diplomata prateado 1987, dirigindo pelo deserto e ouvindo
blues... Ou preso por seis horas num engarrafamento, como todo mundo.
*
Escritor e designer gráfico. Contatos:
HTTP://www.facebook.com/fernandoyanmar.narciso
cyberyanmar@gmail.com
Conheçam
meu livro! http://www.facebook.com/umdiacomooutroqualquer
Nesta segunda tentativa, falta bem pouco. Avante!
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