A
espera de Natal
* Por
Gustavo do Carmo
A mesa já estava posta
desde a manhã da véspera. Foi quando Edith começou a preparar a casa para a
visita do ex-marido e dos dois filhos adolescentes, que ficaram sob a guarda do
pai.
Madrugou na feira para
comprar frutas frescas, especialmente as ameixas, as uvas verdes e o abacaxi. O
peru ela começou a temperar assim que chegou da feira. Passou a manhã inteira
na cozinha para isso. O resto da tarde levou para assar a ave no forno do seu
velho fogão de quatro bocas.
Enquanto o peru
assava, estendeu a toalha (a mais nova e limpa da casa) sobre a mesa para logo
colocar os descansos também novos, as louças, talheres e copos de cristal que
ela sempre guardava na cristaleira empoeirada para ocasiões especiais, assim
como os castiçais e as velas vermelhas.
As castanhas e as rabanadas ficaram prontas
pouco antes do peru chegar triunfante e esfumaçado à mesa retangular grande,
onde esfriaria em algumas horas.
Os presentes já
descansavam sob o pinheiro de 1,60m, feito de grama artificial. Comprara uma
moderna furadeira para o ex-marido. Um tablet
para a filha mais velha e uma prancha de surf para o caçula, que segundo
lhe falaram, já se interessava pelo esporte.
A prancha era mais
alta que a árvore e, embalada em um papel alumínio verde, confundia-se com o
ornamento natalício, repleto de bolas de plástico brilhante e colorido. O tablet
ficou dentro de uma caixa com embrulho rosa, que mais parecia um estojo. A
filha estava crescendo, mas continuava uma menina para Edith. A furadeira do
ex-marido repousava no chão da sala, embrulhada em um papel cinza. A árvore
também abrigava o presente do porteiro do edifício, Severino: uma garrafa de
vinho chileno.
Faltavam duas horas
para os filhos chegarem. Edith pensou ansiosa. Foi tomar um banho rápido, mas
revigorante para esperá-los. Ficou
receosa de tocar o interfone ou o telefone e não poder atender porque estava no
chuveiro. Lembrou-se de levar o telefone e o celular para o banheiro. Nenhum
deles tocou.
Saiu do banho e colocou
o seu melhor vestido: um azul marinho que comprara quando assinou o divórcio. Perfumou-se
com Madame Cabochard, com o qual conheceu o ex-marido e os filhos adoravam.
Enfim tocou o
telefone. Era engano. Sentou-se no sofá. Ligou a televisão para conter a
ansiedade. Já passava a novela das seis. O telefone voltou a tocar. Além de
esperar os filhos, Edith também esperava uma ligação da única irmã ainda viva.
Era apenas uma operadora de telemarketing com o seu sotaque paulistano querendo
vender um curso de inglês. “Raios! Até no Natal essa praga perturba! Quando a
gente precisa estão fora do expediente” Pensou, indignada.
O interfone tocou.
Tensão. “São eles! São eles!” Recompôs-se rapidamente. Colocou o brinco e o
sapato de salto antes de atender. Ficou decepcionada quando soube que era o
porteiro anunciando o entregador do jornal pedindo caixinha. Ficou tão
revoltada que se recusou a dar.
Aproveitou para chamar
o porteiro e lhe dar o presente. Severino agradeceu, se desculpou e disse que
estava sozinho na portaria e não podia ser visto com garrafa de bebida pelo
síndico. Mas iria buscar o presente e lhe dar um Feliz Natal depois, assim que
acabasse o seu expediente, pois não estaria de plantão.
A televisão já passava
a novela das sete. Ninguém aparecia. Começou a roer as unhas. Queria mesmo era
fumar, mas estava tentando largar o vício. O telefone tocou mais uma vez. Parou
após o terceiro toque. Resolveu se concentrar no jornal das oito, que já
começava. Adormeceu.
Acordou com a
campainha da porta. “São os meus tesouros, que subiram direto!” Correu para
atender, mas voltou a ficar frustrada quando ouviu a voz nordestina do porteiro
Severino. Já estava começando a ficar triste. Fingiu alegria.
Pegou o embrulho com a
garrafa na árvore, que já piscava há uma hora, e enfim lhe deu o presente. Não
sem antes tentar convidá-lo para ceiar com ela. Severino recusou novamente o
convite com carinho. Ia passar o Natal com a família no subúrbio. O porteiro
retribuiu e lhe chamou para passar com ele e a família. Agora foi a vez de
Edith recusar, pois estava esperando o ex-marido e os dois filhos.
Se despediu do
porteiro e olhou para a mesa farta, mas inútil. O peru já estava mais frio do
que cadáver de indigente no IML. Pensou em esquentar. Para quê? Ninguém ia
aparecer mesmo. Já ia dar dez horas da noite. A televisão já exibia a Missa do
Galo. Perdeu as esperanças.
Começou a chorar. Caiu
em prantos e na realidade. Foi abandonada pelo marido porque era alcoólatra e
viciada em jogos de azar. Os filhos preferiram morar com o pai. Os pais e tios
já eram falecidos. A única irmã viva estava sem falar com ela porque perdeu a
casa própria por causa Edith, de quem foi fiadora por causa de um empréstimo
para saldar as dívidas de jogo. Claro que Edith não pagou e o banco exigiu a
casa da irmã. Os amigos também a abandonaram porque souberam da história e
tinham medo de lhes acontecesse o mesmo.
O apartamento de três
quartos em Ipanema foi deixado pelo marido por gentileza e pena. Era o ex quem
pagava o condomínio e as contas de luz e telefone, porque se dependesse de
Edith, tudo seria gasto com jogo. Ele até conseguiu impedir a ex-mulher de
vender o apartamento. Por sorte, Edith fez tratamento contra o jogo. Mas já
estava em depressão.
A expectativa da vinda
do ex e dos filhos era uma tentativa de se manter otimista. O peru, de gelado,
estragou com o calor carioca. Assim como as frutas, as castanhas e as
rabanadas, todas cobertas por panos para não pegar poeira e nem moscas. As
nozes, protegidas pela dura casca que o seu filho caçula adorava quebrar com o
soquete de feijão, nem chegaram a tanto.
A furadeira continuou
silenciosa no chão. Nem saiu da caixa. O tablet ficaria eternamente offline. A
prancha só estava surfando a sua sombra na parede. O único presente dado foi o
vinho do porteiro e era o último da sua adega. Os outros presentes foram
comprados com o dinheiro que ela ganhou do bicho. Ainda estava voltando a
jogar.
Já era alta madrugada
do dia 25 de dezembro quando se olhou no espelho do buffet e se viu
esquelética, loura e acabada aos 50 anos. Deu uma última olhada nos presentes
abandonados, na televisão velha já desligada, nos copos e pratos empoeirados, nos
móveis velhos e nas paredes descascadas.
Abriu o janelão da
sala do apartamento, enquanto ouvia famílias rindo e trocando votos de Feliz
Natal, além de gargalhadas de amigos ocultos. Se jogou.
Seu corpo teve a queda
do décimo-primeiro andar amortecida por um ar condicionado e uma árvore.
Sobreviveu. Foi socorrida lúcida pelo porteiro plantonista, vizinhos, curiosos,
imprensa e a polícia. Pediu um cigarro.
*
Jornalista e publicitário de formação e escritor de coração. Publicou o romance
“Notícias que Marcam” pela Giz Editorial (de São Paulo-SP) e a coletânea
“Indecisos - Entre outros contos”.
Seu blog, “Tudo cultural” - www.tudocultural.blogspot.com é bastante freqüentado por
leitores
A tragédia também pode rondar a noite de Natal.
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