Yukio Mishima: um
enigma ambulante
O escritor japonês, Yukio
Mishima – cujo nome verdadeiro era Hiraoka Kimitake – foi, pelo menos para nós,
ocidentais, uma espécie de “enigma ambulante”. Sua vida, e sua morte, intrigam,
fascinam e não raro horrorizam os que tomam conhecimento dela. Tudo nele, e na
sua vasta obra, é polêmico, estranho e incompreensível, sobretudo para quem não
é familiarizado á cultura oriental. E quando digo “tudo”, não se trata de mera
força de expressão. É tudo mesmo! Ou seja, a família de que descendia, a forma
como foi educado, sua opção sexual, o pseudônimo que adotou (e a razão que o
levou a adotá-lo) e a morte que escolheu, mediante suicídio ritual dos samurais
(o “seppuku”vulgarmente conhecido no Ocidente como “haraquiri”) como desfecho
de uma tentativa de golpe de Estado que liderou. Como se vê, tudo o que se
refere a ele (e sequer mencionei ainda sua vasta e originalíssima obra), exige
competente explicação e induz a comentários específicos e esclarecedores, para
ser minimamente entendido.
Quem pretender tratar
do que Mishima foi, e do que fez, de forma sintética, minimalista, resumida, é
melhor que nem tente. Procure outro assunto para abordar. Se tentar resumir, estará
desperdiçando excelente tema e, ademais, dificilmente será minimamente
compreendido pelos leitores. Caso você, leitor amigo, me der a honra de me
acompanhar atentamente nestas explanações, entenderá a razão dessa minha
advertência. Destaco que não me sinto devidamente preparado para um desafio
desse porte, dado meu parco (diria primário) conhecimento da cultura e,
sobretudo, da maneira de encarar a vida dos povos orientais, sobretudo do
japonês. Tentarei ser o mais direto e objetivo possível. Todavia, por mais que
queira, não conseguirei, reitero, tratar desse escritor, excelente em todos os
gêneros literários, em um único texto, mesmo que mais extenso do que o usual.
Aos que se frustrarem
com a minha abordagem, provavelmente primária e cheia de furos, recomendo a
leitura de um livro, publicado em 1980 pela escritora francesa Marguerite
Yourcenar, intitulado “Mishima ou a visão do vazio”. O doutor em Teoria
Literária pela Universidade Federal de Santa Catarina, Kelvin Falcão Klein, em
excelente artigo publicado no jornal “O Globo”, explica: “A França tem uma
sólida tradição de livros de escritores sobre escritores, ou seja, monografias
críticas cujo objetivo é analisar detidamente a obra e/ou a figura histórica de
um escritor. Victor Hugo escreveu um volume sobre Shakespeare; Théophile
Gautier, sobre Balzac; e no século XX exemplos possíveis são os estudos de
André Gide sobre Dostoiévski e Henri Michaux ou os de Sartre sobre Flaubert e
Genet. São livros que oscilam criativamente entre o próprio estilo e as ideias
daquele que escreve e, por outro lado, a busca pela compreensão de uma obra ou
vida alheia”
Sobre o escritor
japonês e a abordagem de Yourcenar a seu propósito em seu livro, o mestre
catarinense observa: “Yukio Mishima preparou sua morte com antecedência de
anos, realizando-a em 24 de novembro de 1970 no ritual do seppuku, em que o
suicida rasga o próprio ventre e é, em seguida, decapitado por um assistente. A
cena final é uma fixação para Yourcenar, assim como o foi para Mishima, e a
autora rastreia na ficção do escritor japonês inúmeros momentos que parecem
comprovar esse desejo contraditório de manter a vida, e o trabalho, sempre
atrelados a uma percepção da morte como uma escolha e como uma condição honorífica”.
Este é um dos aspectos que pretendo abordar, em detalhes, a propósito desse
(para mim) enigmático personagem.
Klein acrescenta, em
seu artigo: “ O Mishima que surge da leitura de Yourcenar, um escritor vaidoso
(tanto com seu corpo quanto com sua obra literária), que esperava o Nobel e se
surpreendeu quando ele foi dado a Kawabata em 1968, mesclou de forma
indissociável vida e obra, e ambas foram forjadas em iguais medidas de rigor,
abnegação, e uma vasta confiança na memória das gerações futuras (...) Seus
temas recorrentes, como a morte, a honra e o erotismo, além de sua sutil e
continuada fascinação pela cultura ocidental, surgem de forma clara e concisa
na argumentação da escritora francesa”.
Yourcenar escreve, em
certo trecho de seu livro: “Quase se pode dizer que, até a idade de cerca de
quarenta anos, esse homem que a guerra deixou ileso — ao menos ele assim
acreditava — concluiu em si a evolução que foi a de todo o Japão, passando
rapidamente do heroísmo dos campos de batalha à aceitação passiva da ocupação,
reconvertendo suas energias no sentido dessa outra forma de imperialismo que
são a ocidentalização renhida e o desenvolvimento econômico a qualquer preço”.
Destaque-se que Yukio
Mishima passou uma temporada no Brasil. Foi em 1952, quando tinha 27 anos de
idade e buscava novas experiências. Hospedou-se, na ocasião, na fazenda de
Toshiko Tarama, na cidade de Lins, no interior paulista. Essa experiência
rendeu-lhe algumas obras. Uma delas foi o drama “A toca de cupins”. Outra foi a
opereta “Bom dia, Senhora”, nascida do seu encantamento com o Carnaval do Rio
de Janeiro, peça, aliás, que lhe valeu o Prêmio Kishida de Dramaturgia de 1955.
Também escreveu, no Brasil, o conto irônico “Mulheres insatisfeitas”,
importante em sua bibliografia. Em sua passagem por terras paulistas, fez
várias palestras e publicou artigos em jornais paulistanos de língua japonesa.
Voltarei a tratar do assunto, dessa vez com mais ordem e objetividade, com
abordagem como manda o figurino. Ou seja, mais organizada, com começo, meio e
fim.
Boa leitura.
O Editor.
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Boas pedidas: o personagem e a ordem.
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