Progressão
* Por
Gustavo do Carmo
Matou uma família. À
sangue frio. Estuprou a mulher, a filha adolescente e o caçula de onze anos. Degolou
o avô e estourou a cabeça do chefe que chegara cansado e rendido do trabalho.
Mulher e filhos sobreviveram fisicamente, mas a moral e o prazer de viver de
ambos também foram dizimados. O vagabundo fugiu para o seu barraco na Favela do
Canário Pelado.
Zé Perygozo (com y e z,
mesmo) foi preso dois meses depois da sua festa de 18 anos, dada pelo pai
adotivo, líder comunitário e alheio ao crime do filho. A chacina da família foi
cometida um dia antes do aniversário. Mas já era maior de idade e podia
responder como adulto. Foi mandado para a Casa de Custódia, mas os assistentes
sociais defensores dos “direitos humanos” o mandaram para uma cela especial,
pois sua vida corria risco porque estuprara uma criança.
Como não tinha uma carceragem
só pra ele, o colocaram junto com um universitário acusado de injúria racial. O
jovem, mal interpretado num momento de raiva pelo segurança burocrático de um
museu, tentou fazer amizade com Zé. Teve o relógio roubado e foi esganado. O
meliante rasgou as roupas de sua nova vítima. O menino foi encontrado de cueca,
pendurado pelo pescoço e pelas roupas amarradas no cano d’água da cela.
Zé Perygozo foi apenas
uma inocente “testemunha” do suicídio do universitário, mas não escapou da
condenação por 16,5 anos pelo duplo homicídio da família pagadora de impostos.
O julgamento foi realizado três anos depois do crime. Pena em regime fechado
que Zé começou a cumprir no Presídio Estadual, para onde foi transferido. No
ano seguinte, ganhou progressão de pena por ter cumprido um sexto dela e
apresentado bom comportamento. Saiu com uma Bíblia nas mãos.
Zé Perygozo foi
assistido na sua saída da prisão por um casal de assistentes sociais. Um casal
chamado Culpa e Remorso, que o tentava dissuadir da vida de crimes. Os dois não
saíam do seu pé. Zé Perygozo também era teimoso. Não cedia nunca. Até que se
estressou e estuprou a Culpa e obrigou o Remorso a assistir a cena. Depois, os
acertou no coração com sua Divina, o revólver de estimação com o qual sempre
andava, matou a família do início e não se separou nem na cadeia. Abandonada,
só a Bíblia.
Zé Perygozo voltou para
a sua favela e foi recebido como herói. O pai havia morrido do coração quando o
filho foi condenado. Perygozo preferiu assumir a Boca do Tráfico da favela.
Zé Perygozo sentiu
saudades do trabalho de campo. Como um apresentador de telejornal que sente
saudades das reportagens de rua, o traficante foi até a Marginal e roubou um
carro médio importado da Argentina. Sortudo, apostou numa vítima indefesa e não
se preocupou com a película escura do vidro. Como agradecimento pela entrega
fácil do carro, engatilhou sua Divina na cabeça da professora.
Aliviado, curtiu pela
última vez sua Divina que não foi páreo para a Magnum da Justiça, ex-assaltante
de banco, ex-vereadora e ex-policial convertida ao evangelho, que expulsou os
traficantes da Favela do Canário Pelado e assumiu a liderança da comunidade,
promovendo a paz e a tranquilidade até as águas de março fecharem o verão,
quando o antigo lixão foi devastado por um temporal.
* Jornalista e publicitário de formação e escritor de coração. Publicou o romance “Notícias que Marcam” pela Giz Editorial (de São Paulo-SP) e a coletânea “Indecisos - Entre outros contos” pela Editora Multifoco/Selo Redondezas - RJ.
Seu blog, “Tudo cultural” - www.tudocultural.blogspot.com é bastante freqüentado por leitores
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