Entregue-se, Joff
* Por
Marcelo Sguassábia
Devaneio
a partir de uma reflexão de Ruy Castro
É, Joff. Para quem
começou vendendo livros pela internet, o salto foi bem grande. Aonde afinal de
contas você imaginava chegar, meu velho? Se deu certo com livros, deve dar
certo com CDs. Deu, Joff. E você soube seguir em frente com a brincadeira. “Ou
consigo meu primeiro bilhão em seis meses, ou não me chamo Joff”, você deve ter
falado para si mesmo, olhando no espelho essa sua cara de bezerro desmamado.
Do quarto da casa onde
tudo começou, partiu em poucos dias para um galpão. Em seguida, um latifúndio
deles. Não precisou de porta aberta. Enter sem bater, a qualquer hora, e deixe
todo o dinheiro que puder. Tiro certeiro e mortal. Três livrarias fechadas em
Ohio. Cinco lojas de música passam o ponto em Oklahoma. Estes e outros estragos
só em um dia, Joff. Misericórdia.
Mais treze entrepostos
logísticos de mercadoria entram em operação. Outros oito são necessários para
dar conta dos pedidos apenas no noroeste da Pensilvânia. Crescimento exponencial,
fogo sobre palha seca. Sim, Joff, você acreditou mesmo que faria sucesso. Só
não conseguiu prever que ele seria tão rápido.
A loja de tudo entrega
em até 48 horas o iate que você comprou, envolto em plástico bolha. O império
Joff se alastra, as ações na Nasdaq não param de subir. Aponte o celular ou o
controle remoto para a tela e terá o produto girando em 4D bem à frente do seu
nariz. Gostou? Então dispare o feixe de laser sobre o ícone com a forma de
pagamento. Pronto: por biometria dos poros do antebraço, Joff já ficou sabendo que você é você mesmo. Para
que trocar o que ama fazer pelo desgastante e demorado ritual de compras?
A essa altura, você já
não sabia mais como lidar com tamanha velocidade na entrada de receitas. A
colossal engenhosidade de Joff azeitou as toscas engrenagens da máquina
capitalista. De sua chaise longue de vison belga, Joff faz como seus milhões de
clientes: compra remotamente. Mas compra condomínios inteiros de galpões para
estocagem. Nem vê direito o que está comprando. Precisa de mais e mais espaço.
Rapidamente. Um bunker de 12 hectares de extensão, com paredes de concreto de
80 cm de espessura, abriga em local secreto um infinito plantel de servidores
que processam exclusivamente os pedidos da Joff Inc.
Então suas vendas
começaram a cair vertiginosamente. Em velocidade ainda mais espantosa que a que
levou você ao auge. Ao mesmo tempo, o dinheiro já tinha lhe enfastiado tanto
que você já estava mesmo querendo se livrar dele. E pensou: vou gastar tudo
como se o mundo fosse acabar amanhã.
Só que o mundo tinha
acabado ontem, Joff. Quando botou a cara pra fora da sua mansão de 200 acres é
que viu o tamanho do estrago. Comércio algum restou aberto. Nenhum comércio,
nenhuma indústria – mesmo porque quase tudo você traz da China. Nenhuma
indústria, nenhum serviço, nenhum emprego. Vai gastar seu rico dinheirinho de
que jeito, Joff? Só resta a você fazer a entrega de si mesmo ao mundo que
destruiu, num prazo máximo de 48 horas. Envolto em plástico bolha.
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* Marcelo Sguassábia é redator publicitário. Blogs: WWW.consoantesreticentes.blogspot.com (Crônicas e Contos) e WWW.letraeme.blogspot.com (portfólio).
Um final bem infeliz, mas em seu país. Na China a economia está borbulhante.
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