Carta para Pedro
* Por Mara Narciso
Não tenha medo, meu querido amigo
Pedro. Um menino de dez anos aprende logo a falar Inglês, maravilhosamente e
sem sotaque. É natural que tenha receio do desconhecido. Antes de você nascer,
o lugar para o qual você está indo vem sendo preparado para recebê-lo. Os que
lhe esperam são o seu tio e a esposa dele. Seu pai disse que, ainda na barriga
da sua mãe, já havia essa combinação. Na longa espera, a sua segunda mãe vinha
se sentindo como se estivesse grávida. E só para os últimos preparativos, já se
vai quase um ano. Agora é hora de nascer. E queremos que nasça como um príncipe,
para um destino de luz e realizações.
Sei da sua capacidade de
aprender, do seu espírito curioso e do monte de perguntas que gosta fazer. E não
se esquece do que aprendeu. Não se deixe levar pela insegurança. Atrás da sua
pessoa tem uma estrutura de carinho e amor. A sua nova mãe tem um coração grande.
Ela escolheu cada detalhe do seu quarto e da casa, pensando na melhor forma de
agradá-lo. É só usar tudo, sejam coisas, sejam sentimentos com bastante cuidado.
Vai receber um amor tão gostoso que acabará se habituando ao país.
Não se aflija com as
dificuldades. A sua vida até aqui, foi uma colcha de retalhos de caras e
lugares. E em cada um deles as regras mudavam e quem mandava impunha pelo menos
uma coisa aparentemente absurda. Sei que pede respostas convincentes. Então me
lembro dos seus porquês. E dos resmungos incompletos aos seus questionamentos.
“Porque sim”. E você se queixou: “mas isso não é uma resposta”. Há quem ache
que manifeste irritação, mas sei que tenta negociar com seu irmão mais novo e
nem sempre consegue. Então, revida. Peço que não invente justificativas e evite
ser agressivo.
Não deixe as obrigações para
depois. Seja manso, calmo e paciente. Converse sempre. Explique e peça
explicações para os fatos. Dá melhor resultado. Será preciso negociar com adultos.
Eu gosto de você, desde que o conheci, há 18 meses (no Carnaval do Bairro
Morada do Parque. Lembra-se? Dia desses, me perguntou sobre isso). Eu gosto de
você, por que sim. Sei que vai reclamar que isso não é uma resposta. Pode não
ser, mas é amor.
Numa das nossas viagens, você
ficava vendo filmes, ou jogando videogame, depois do almoço. Àqueles almoços
que não tinham hora, pois na praia as regras são frouxas, se é que existem. Largou
o filme e veio me perguntar por que eu não largava os livros. Eu disse que da
mesma maneira que você se divertia vendo filmes, o mesmo se dava comigo com os
livros. De lá para cá, noto que anda gostando mais deles, e espero que este
gosto aumente mais.
A sua curiosidade exige uma
resposta completa. E muitas perguntas eu lhe respondi. Penso que foram do seu
agrado. A maneira que falo é a mesma que eu falava com meu filho: sem pressa,
parando, dando atenção para ouvi-lo e entendê-lo. O que você me diz tem a maior
importância. Eu valorizo a sua opinião. Eu aprendo com você. Na sua curta vida,
já passou por tristezas e dores grandes. Lembra-se do formigueiro? Foi uma dor
tão forte que aqueles bichinhos assassinos lhe causaram. Tive muita raiva daquelas
formigas. Corremos com água, álcool e gelo, para salvá-lo. As lágrimas pingavam
na sua barriga. Quando passou, logo dava risadas, contando piadas e nos fazendo
rir.
A história do umbigo também
rendeu uma conversa comprida. E você ficou pensando em como foi estar na
barriga da sua mãe, aquela “gata”, de olhos cor de mel. Ela é alguém que vai
ficar feliz por você estar melhor aí do que aqui, mas com aquela saudade
dolorida que as mães sentem. São tantas coisas que você quer saber.
Palavrinhas desconhecidas são
perguntadas. Reparo sua habilidade com as máquinas e os números. Brincamos com
eles e você me dava banhos, com a facilidade de fazer cálculos de cabeça. E o
mar? Eu vi que está praticamente nadando e quase surfando. Algumas aulas e já
vai fazer.
O seu pai lhe adora e elogia a
sua inteligência. Mais do que nós, vai sofrer de saudades. Eu não falo por
falar, não faço isso. Quando eu digo, pode acreditar. Sei que vai superar as
dificuldades, desenvolver novos talentos, e crescer forte no país mais
adiantado do mundo. Vamos ver você brilhar.
O mundo é grande, mas a internet
tratou de fazê-lo encolher. E mesmo fora daquilo que seus olhos alcançam,
estamos aqui. A qualquer hora podemos falar e escrever. Foi preciso cortar o
cordão umbilical, e o resultado deste corte será conforme o que você fizer. Estamos
torcendo pela harmonia em sua vida. Siga as novas regras, não deixe para
depois, obedeça, seja um bom menino. Gostaria que não engordasse. E quando a
saudade apertar, chore, mas não lamente. Esta é a sua oportunidade de crescer bem.
Envio beijos com a certeza de que você será tudo aquilo que quiser.
*Médica endocrinologista,
jornalista profissional, membro da Academia Feminina de Letras e do Instituto
Histórico e Geográfico, ambos de Montes Claros e autora do livro “Segurando a
Hiperatividade”
Mara, você escreveu um manual de navegação pela vida. Muito bom.
ResponderExcluirAgradecida pela sua atenção, Marcelo. Muito obrigada!
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