A pedagogia do grande irmão platinado
* Por
Elaine Tavares
Outro dia li um artigo
de alguém criticando o que chamava de pseudo-esquerda que fica falando mal do
BBB, mas que também dá sua espiadinha. E
também li outras coisas de pessoas falando sobre o quanto há de baixaria no
“show de realidade” da Globo. Fiquei por
aí a matutar. E fui observar um pouco deste zoológico humano que a platinada
oferece na suas noites.
Agora é importante
salientar que a gente nem precisa assistir para saber tudo o que se passa. É só
estar vivo para saber. As notícias estão no jornal, no ônibus, no elevador, em
todos os lugares. Então esse papo de que quem critica é hipócrita porque também
vê não tem qualquer sentido. As coisas da indústria cultural nos são impostas
de forma quase que totalitária. É praticamente impossível fugir destes saberes.
Mesmo no terminal, esperando o ônibus, lá está o anúncio luminoso onde buscamos
o horário do busão, dando as “notícias” dos broders. É invasivo e feroz.
Mas enfim, sou um bicho
televisivo, e gosto de ficar feito uma couve em frente ao aparelho de TV
analisando o que é que anda engravidando as gentes deste grande país que se
alfabetiza por esta janelinha. Lá fiquei acompanhando alguns episódios do
triste programa. Deveras, me causa espécie. Mas não falo pelo quê de promíscuo
ou imoral possa ter o “show”, já que coisas do tipo que se vêem ali também são
possíveis de ver na novela, nos filmes, etc...
O que me apavora é capacidade de ser tão perverso e desestruturador de
consciências. Está bem, as pessoas estão ali porque querem, elas mandam vídeos,
se oferecem, morrem até para estar naquela casa, em busca do que pensar ser seu
lugar ao sol. Mas, ainda assim, é perverso demais o que os “inventores” fazem
com aquelas tristes criaturas.
Sempre pensei que a
coisa nunca poderia ficar pior. Mas fica. Cada ano a violência fica maior. E o
que me espanta é que não há gente a gritar contra isso. Agora inventaram a
figura de um sabotador. Pois já não bastava colocar a possibilidade concreta de
alguém (o espectador) eliminar outro (o broder “????”), o que, obviamente
inaugura uma possibilidade por demais perversa de se apertar um botão e destruir
o sonho de alguém, com requintes de crueldade. Uma coisa de uma maldade
abissal. Então, o tal do sabotador é uma pessoa, do grupo, que precisa sabotar
os seus companheiros para poder se safar. Inaugura-se assim mais uma instância
da estúpida violência, a qual é parte intrínseca do “show”. Vi a cara do rapazinho. Estava em completo desespero. Precisava
sabotar seus amigos. E o fez. Em nome do milhão.
Depois, um outro, ao
atender ao telefone que sempre ordena uma sequência de maldades, obrigou-se a
mandar sua colega para uma solitária, coisa que, nas cadeias, é motivo de
grandes lutas dos grupos de direitos humanos. O garoto disse o nome da
sentenciada, e seu rosto se cobriu de desespero. No dia em que ela saiu do
castigo, enquanto os demais a abraçavam, ele se deixava cair, escorregando pela
parede, chorando. Sabia, é claro, que aquela ação o colocava na mira da outra e
na condição de um desgraçado que entrega seus colegas.
E assim vai o “grande
irmão” propondo maldades e violências aos pobres sujeitos que ali entram em
busca de um espaço na grande vitrine da vida. Confesso que a mim pouco se me dá
se são homossexuais, trans, bi, heteros tarados, loucas, putas ou santas. Cada
uma daquelas criaturas que ali estão quebrando todas as regras da ética do bem
viver são pobres seres humanos, perdidos num mundo que exige da juventude
bunda, músculo, peito e cabeça vazia. Não são eles os “imorais”. São vítimas.
Querem mais do que as migalhas do banquete. Querem pegar com as unhas a
promessa que o sistema capitalista traz na sua pedagogia da sedução: “‘qualquer
um pode neste mundo livre”.
Tampouco me surpreende
que um jornalista como Pedro Bial, dono de um texto refinado, esteja cumprindo
o triste papel de fomentar a perda de todo o sentido ético que um ser humano
pode ter. Ele, também buscando vencer nesse mundo que o capitalismo aponta como
o melhor possível, fez a sua escolha. Optou por ser um sacerdote destes tempos
vis. Um sacerdote muito bem pago.
O que me entristece é
saber que essa pedagogia capitalista seguirá se fazendo todos os dias nas casas
das gentes, que muitas vezes assistem ao programa porque simplesmente não têm
outra opção. O melhor sinal é o da platinada. Pega em qualquer lugar deste
grande país. Há os que vêem e nem gostam, mas ocorre que estas “lições” em que
se eliminam pessoas, em que se traem os amigos, em que vale tudo, passam meio
que por osmose. É a lavagem cerebral. É a violência extrema sendo praticada
entre risos e apupos de “meus heróis”. Tudo pela “plata”.
Enquanto isso, como bem
já levantaram alguns blogueiros, a Globo, junto com as companhias telefônicas,
lucra rios de dinheiro com as ligações que as pessoas fazem para eliminar os
“irmãos”. É galera, brother quer dizer irmão em inglês. E olha só o que se faz
com um irmão? Essa é a “ética”. Os empresários globais lambem seus bigodes.
Então, fazer a crítica
a esse perverso programa não é coisa de pseudo-esquerda. Deve ser obrigação de
qualquer um que pensa o país. A questão do “grande irmão” não é moral. É ética.
Trata-se da consolidação, via repetição, de uma pedagogia, típica do
capitalismo, que pretender cristalizar como verdade que para que um seja feliz,
outro tenha que ser “eliminado”. O show da Globo é uma violência explícita,
cruel, nefanda, sinistra e miserável. É coisa ruim, malcheirosa. Penso que há
outras formas de a gente se divertir, sem que para isso alguém tenha de se
ferrar! Até mesmo os mais importantes cientistas mundiais já alardearam a
verdade inconteste: vence quem coopera. Onde as pessoas, juntas, buscam o bem
viver, ele vem...
* Jornalista
de Florianópolis/SC
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