Corredor polonês no Ceará
Por
César Cavalcanti
O que move o mundo são
as ideias. Para frente ou para trás. A instalação do nazismo, na Alemanha dos
anos 1930, foi precedida pela publicação do ideário de Adolf Hitler, o livro
Mein Kempf. Na China comunista, Mao Tsé-Tung tinha o seu Livro Vermelho, de
leitura obrigatória nas escolas. De ambos nasceram ideologias totalitárias,
cegas aos direitos humanos, avessas à diversidade, pregadoras da violência.
Hoje, no Brasil, o
conjunto dos ideais disseminados por alguns dos mais conhecidos colunistas da
mídia tradicional aponta para um caminho análogo, sem volta, de interdição do
debate, aviltamento do adversário, exclusão do diferente. Corteja o
totalitarismo já superado pela sociedade brasileira.
"Escravos,
escravos!". A palavra de ordem dos médicos cearenses contra seus colegas
cubanos, que se preparavam para receber as primeiras noções sobre que Brasil é
esse que eles vieram apoiar, não foi gritada por acaso. Essa figura foi gravada
no imaginário coletivo dos médicos cearenses – e pode estar se multiplicando em
outras regiões brasileiras – por três, em particular, colunistas adulados na
mídia tradicional.
Do conforto de suas redações,
Reinaldo Azevedo, primeiro, classificou em Veja os médicos cubanos, cujo
trabalho é elogiado em todo o mundo no qual eles atuam em programas do tipo
Mais Médicos, da Finlândia à África, de "escravos". Na Folha, a
decana Eliane Cantanhêde disse que os profissionais viajariam em "aviões
negreiros". Augusto Nunes, para não ficar atrás, escreveu em seu blog que
o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, se tornou uma "princesa Isabel às
avessas". Todos, sem exceção, com a mesma imagem de degradação do ser
humano.
Não ocorreu à trinca de
colunistas circunscrever suas diatribes ao irmãos Castro, Fidel e Raúl, ou a
Karl Marx e Frederic Engels, os grande teóricos do comunismo. Não. Eles pularam
na jugular de cada um e de todos os médicos cubanos que atenderam, sob
supervisão da Organização Panamericana de Saúde, ao chamamento oficial do
governo brasileiro.
Na leitura de Azevedo,
Eliane e Nunes, depreende-se que eles são "escravos" porque merecem.
Vivem em Cuba porque são covardes para enfrentar a sua ditadura. Isso de um
lado. Noutra hipótese, felizes, percorrem o mundo para agirem como arautos do
socialismo, espiões à luz do dia, propagandistas de uma ideologia ultrapassada.
Nenhuma linha sobre o trabalho que os médicos cubanos desempenharam no Haiti
pós terremoto que devastou o país em 2010, classificado de
"maravilhoso" por seus colegas de primeiro mundo (finlandeses). Nada
sobre a ação pacificadora na África, na década de 1970. Nenhuma referência ao
mundialmente exemplar programa de medicina da família executado dentro da
própria Cuba, que por este tipo de expediente tem um Índice de Desenvolvimento
Humano maior que o do Brasil. Zero.
Igualmente, os três
colunistas não comentaram sobre os médicos de outros países – Espanha,
Portugal, Argentina, Itália – que igualmente aceitaram a proposta do governo
brasileiro para preencher vagas que os médicos brasileiros recusaram – com
salários de R$ 10 mil por mês. Afinal, por que entrar em questões mais
complexas para análise, se o mais importante é se divertir pela humilhação aos
cubanos?
Sabe-se que, por este
tipo de posicionamento rasteiro, a mídia tradicional está se afogando pela soma
de dívidas demais e leitores de menos. Mas guarda-se ainda, é claro, um tipo de
influência muito útil os momentos mais intensos de polaridade ideológica.
Nessas horas, diante de programas como o Mais Médicos, que, efetivamente, podem
mudar para melhor o padrão de atendimento de saúde nos rincões do País. Os
mesmos rincões que não recebem médicos desde seu desbravamento.
Os três colunistas
poderiam usar seus espaços para discutir, porque, afinal, a chamada classe
médica jamais, em tempo algum, como um todo, voltou seus esforços para o Brasil
real. A orientação da medicina brasileira é cobrar, e caro, pelo menor
atendimento. Os médicos querem os grandes hospitais, jamais os pequenos
pronto-socorros. Podia-se alegar, até aqui, que faltava incentivo para o avanço
pelas artérias do País, mas agora não há mais. A remuneração oferecida pelo
governo superou todas as expectativas. O programa Mais Médicos, por outro lado,
nada mais é que uma cópia escarrada do que já existe em diferentes partes do
mundo, notadamente nos países mais avançados, como Inglaterra e Alemanha. Lá
como cá foi preciso importar profissionais para superar carências. O que fazer,
então, para dizer que o Mais Médicos não presta?
Ocorreu aos três
colunistas chamarem os cubanos – esquecendo-se de todos os outros – de
escravos. Uma distorção não apenas da situação que eles vivem em Cuba, mas uma
covardia contra cada um e todos os integrantes do grupo recém-chegado. A opção
foi criar um clima hostil, de guerra, de oposição total e completa à presença
deles aqui. Viraram a mira de seus canhões para os mais fracos e indefesos.
Após chamar os
profissionais de escravos, restará aos colunistas continuar o linchamento moral
sobre eles. Poderiam, como Gandhi ou Luther King, atuarem pela conciliação
entre os homens, mas se inspiraram em Hitler e Mao para disseminar o ódio. O
resultado foi visto no Ceará.
*
Jornalista
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