Partilha
* Por Daniel Santos
Minha
mãe nunca foi mulher de esperar pelas iniciativas do marido e, de uma vez que
ele ficou desempregado meses a fio, a falta de dinheiro nos constrangeu, mas por pouco tempo, que ela
logo resolveu o problema.
De
fato, a escassez de alimentos feriu nosso orgulho, mas pior era ver meu pai
andando pela casa como um inútil, um peso-morto. Ela, então, interveio:
companheira, parceira, mais propriamente comparsa dele.
Não
digo isso de ouvir falar, mas porque vi com meus próprios olhos. Enquanto papai
percorria ruas e ruas à procura de ocupação, ela se esgueirava até o varal,
ladina como uma ladra, para recolher a roupa seca.
Era
final de tarde, os ventos enfunavam os lençóis ainda pendurados como velas da
grande nau que mamãe comandava como corsária, enquanto eu assistia um
inesquecível espetáculo – o espetáculo da pilhagem.
Com
habilidade de rapina que (curioso!) não me envergonhava, então, ela conseguia
apropriar-se da luz dourada do sol, antes que ele, arisco, se desprendesse do
tecido. E, assim, embrulhava sua fortuna!
Depois,
equilibrava a trouxa na cabeça e parecia carregar uma imensa lâmpada
opalescente. Aquela visão me encantava e corria a lhe abrir a porta para que
minha mãe entrasse com acervo tão valioso.
Noitinha,
meu pai chegava arriado de frustrações e a esposa logo o chamava ao quarto.
Ali, abriam o lençol sobre a cama, ansiosos pela partilha de tanto ouro. Ah, e
como eles se esquentavam, então!
* Jornalista carioca.
Trabalhou como repórter e redator nas sucursais de "O Estado de São
Paulo" e da "Folha de São Paulo", no Rio de Janeiro, além de
"O Globo". Publicou "A filha imperfeita" (poesia, 1995,
Editora Arte de Ler) e "Pássaros da mesma gaiola" (contos, 2002,
Editora Bruxedo). Com o romance "Ma negresse", ganhou da Biblioteca
Nacional uma bolsa para obras em fase de conclusão, em 2001.
Enquanto houver cumplicidade a partilha será
ResponderExcluirfarta.
Abraços Daniel.
Uma imagem capturada com brilho e bem diante do sol. Perfeita!
ResponderExcluir