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Preito aos humildes
* Por Pedro J. Bondaczuk
O poeta José Paulo Paes, falecido há já algum tempo, nos legou, entre tantos e tantos textos extraordinários – infelizmente conhecidos apenas por um punhado de eruditos – um curtíssimo, mas enfático poema, que aprecio em particular, em sua vasta e preciosa obra, e que serve de mote para as considerações a seguir.
Intitulado “Auto-epitáfio nº 2”, diz: “Para quem pediu sempre/tão pouco/o nada é positivamente/um exagero”. E, infelizmente, é isso o que recebem, hoje, dois terços dos mais de seis bilhões de habitantes da Terra, que vegetam na mais absoluta miséria (a maioria sobrevive com ínfimo US$ 1 por dia e muitos não têm nem mesmo essa absurda “renda”), apenas para que o um terço restante da humanidade esbanje os já escassos recursos do Planeta. Ou seja: nada!
O mundo, sem dúvida, evoluiu bastante no século XX, em diversos aspectos, notadamente no tecnológico. A ciência hoje opera maravilhas que, em um passado não tão remoto, nem os mais delirantes ficcionistas ousavam prever. As comunicações, por exemplo, se tornaram instantâneas, com sons e imagens de qualquer parte do Planeta chegando até nós em fração de segundos, através do rádio, da televisão, da internet, do telefone celular e do milagre dos satélites, nos mantendo inteirados dos acontecimentos quase que no exato instante em que ocorrem, não importa em que país, continente ou quadrante do globo terrestre se verifiquem.
Os meios de transporte, por seu turno, são cada vez mais rápidos e mais seguros. Transplantes de órgãos já se tornaram tão corriqueiros (para quem pode pagar, é claro), que sequer despertam mais espanto e nem curiosidade em quem quer que seja. A engenharia genética caminha para a erradicação das doenças antes mesmo de uma pessoa nascer. E já é viável (embora insensata e inútil) a clonagem de seres vivos, inclusive os humanos. Claro que as maravilhas da ciência e da tecnologia não são apenas as citadas. E nem sempre são usadas, apenas, em sentido construtivo. Pelo contrário... Está aí a parafernália bélica norte-americana.
Todavia, naquilo que é básico, que é fundamental, que é lógico e inadiável para o homem, ou seja, na garantia de vida e de oportunidades iguais para todos, sem distinção de sexo, raça, credo ou condição social, a situação continua a mesmíssima de séculos e séculos atrás, se não de alguns milênios dos primórdios da história. Há um fosso, virtualmente intransponível, um abismo largo e profundo, separando (talvez irreversivelmente) os que têm infinitamente mais do que precisam e os que não contam sequer com o “pão nosso de cada dia”.
Por que? É o que vivem perguntando os que raciocinam, os que têm sensibilidade, os que são bem informados e os que não se entregam a um egoísmo burro e calhorda e nem a um conformismo repugnante e covarde. O romancista austríaco, Erich Maria Remarque, tenta responder (em vão), com esta outra indagação, colocada na boca de um de seus personagens, no excelente livro “O Obelisco Negro” –, cujo enredo se desenvolve na Alemanha em um período imediatamente posterior à derrota germânica na Primeira Guerra Mundial e anterior à ascensão de Adolf Hitler, que conduziria o país à segunda (e desastrosa) grande conflagração planetária do século passado: “Acaso a vida pode ser jamais explicada, aprisionada e cavalgada como um cavalo domado, ou é sempre uma poderosa vela que nos impele no meio da tormenta e que, quando tentamos agarrá-la, nos arrasta para o abismo?”.
Em um artigo que publiquei na página 15, da editoria Internacional do Correio Popular, em 21 de junho de 1991, tentei (também em vão) explicar a razão dessa estúpida divisão entre seres privilegiados, sem nenhum motivo fundamental para que tenham esses privilégios, e a maioria condenada a um inferno de incomensuráveis sofrimentos e absurdas privações desde o ventre materno. Atribuí, na ocasião, a existência dessa realidade ao “egoísmo”, à “prepotência” e à “insensibilidade” dessa parcela da humanidade que sequer se dá conta de que é mortal. Escrevi, na oportunidade:
“Embora os homens precisem uns dos outros para sobreviver, a vida individual é a que conta. Ninguém está disposto, pelo menos conscientemente – embora pela educação as pessoas sejam condicionadas a isso – a receber um papel fixo assim que nasce, que não leve em conta suas ambições pessoais. Todo indivíduo saudável e razoavelmente inteligente sonha com notoriedade, conforto e, sobretudo, poder. O operário de uma fábrica, por exemplo, embora nem sempre revele isso ou sequer saiba como expressar tal vontade, tem como objetivo ser o chefe. O executivo de uma empresa luta por conquistar a presidência. E vai por aí afora. Todos, de uma maneira ou de outra, aspiram a chegar ao topo das atividades que escolheram ou que lhes foram impostas por condicionamentos”. A maioria, é claro, ajunta, à miséria em que vegeta, a frustração de jamais concretizar quase nenhuma dessas ambições, mesmo as mais medíocres.
Na impossibilidade de fazer alguma coisa (qualquer coisa), para acabar com essa estúpida, mas cristalizada, divisão da humanidade, em castas irreversíveis, rendo comovidas homenagens aos que sempre pediram “tão pouco” da vida e, para os quais, “o nada, positivamente, é um exagero”. Seu sofrimento (anônimo) e sua humilde resignação (imposta pelas circunstâncias) é que sustentam o mundo em seu eixo. Em troca, seus irmãos de espécie os condenam a privações de toda a sorte, à desumanização e à geração de uma linhagem de sub-homens, na figura de seus descendentes.
*Jornalista, radialista e escritor. Trabalhou na Rádio Educadora de Campinas (atual Bandeirantes Campinas), em 1981 e 1982. Foi editor do Diário do Povo e do Correio Popular onde, entre outras funções, foi crítico de arte. Em equipe, ganhou o Prêmio Esso de 1997, no Correio Popular. Autor dos livros “Por uma nova utopia” (ensaios políticos) e “Quadros de Natal” (contos), além de “Lance Fatal” (contos) e “Cronos & Narciso” (crônicas), com lançamentos previstos para os próximos dois meses. Blog “O Escrevinhador” – http://pedrobondaczuk.blogspot.com
* Por Pedro J. Bondaczuk
O poeta José Paulo Paes, falecido há já algum tempo, nos legou, entre tantos e tantos textos extraordinários – infelizmente conhecidos apenas por um punhado de eruditos – um curtíssimo, mas enfático poema, que aprecio em particular, em sua vasta e preciosa obra, e que serve de mote para as considerações a seguir.
Intitulado “Auto-epitáfio nº 2”, diz: “Para quem pediu sempre/tão pouco/o nada é positivamente/um exagero”. E, infelizmente, é isso o que recebem, hoje, dois terços dos mais de seis bilhões de habitantes da Terra, que vegetam na mais absoluta miséria (a maioria sobrevive com ínfimo US$ 1 por dia e muitos não têm nem mesmo essa absurda “renda”), apenas para que o um terço restante da humanidade esbanje os já escassos recursos do Planeta. Ou seja: nada!
O mundo, sem dúvida, evoluiu bastante no século XX, em diversos aspectos, notadamente no tecnológico. A ciência hoje opera maravilhas que, em um passado não tão remoto, nem os mais delirantes ficcionistas ousavam prever. As comunicações, por exemplo, se tornaram instantâneas, com sons e imagens de qualquer parte do Planeta chegando até nós em fração de segundos, através do rádio, da televisão, da internet, do telefone celular e do milagre dos satélites, nos mantendo inteirados dos acontecimentos quase que no exato instante em que ocorrem, não importa em que país, continente ou quadrante do globo terrestre se verifiquem.
Os meios de transporte, por seu turno, são cada vez mais rápidos e mais seguros. Transplantes de órgãos já se tornaram tão corriqueiros (para quem pode pagar, é claro), que sequer despertam mais espanto e nem curiosidade em quem quer que seja. A engenharia genética caminha para a erradicação das doenças antes mesmo de uma pessoa nascer. E já é viável (embora insensata e inútil) a clonagem de seres vivos, inclusive os humanos. Claro que as maravilhas da ciência e da tecnologia não são apenas as citadas. E nem sempre são usadas, apenas, em sentido construtivo. Pelo contrário... Está aí a parafernália bélica norte-americana.
Todavia, naquilo que é básico, que é fundamental, que é lógico e inadiável para o homem, ou seja, na garantia de vida e de oportunidades iguais para todos, sem distinção de sexo, raça, credo ou condição social, a situação continua a mesmíssima de séculos e séculos atrás, se não de alguns milênios dos primórdios da história. Há um fosso, virtualmente intransponível, um abismo largo e profundo, separando (talvez irreversivelmente) os que têm infinitamente mais do que precisam e os que não contam sequer com o “pão nosso de cada dia”.
Por que? É o que vivem perguntando os que raciocinam, os que têm sensibilidade, os que são bem informados e os que não se entregam a um egoísmo burro e calhorda e nem a um conformismo repugnante e covarde. O romancista austríaco, Erich Maria Remarque, tenta responder (em vão), com esta outra indagação, colocada na boca de um de seus personagens, no excelente livro “O Obelisco Negro” –, cujo enredo se desenvolve na Alemanha em um período imediatamente posterior à derrota germânica na Primeira Guerra Mundial e anterior à ascensão de Adolf Hitler, que conduziria o país à segunda (e desastrosa) grande conflagração planetária do século passado: “Acaso a vida pode ser jamais explicada, aprisionada e cavalgada como um cavalo domado, ou é sempre uma poderosa vela que nos impele no meio da tormenta e que, quando tentamos agarrá-la, nos arrasta para o abismo?”.
Em um artigo que publiquei na página 15, da editoria Internacional do Correio Popular, em 21 de junho de 1991, tentei (também em vão) explicar a razão dessa estúpida divisão entre seres privilegiados, sem nenhum motivo fundamental para que tenham esses privilégios, e a maioria condenada a um inferno de incomensuráveis sofrimentos e absurdas privações desde o ventre materno. Atribuí, na ocasião, a existência dessa realidade ao “egoísmo”, à “prepotência” e à “insensibilidade” dessa parcela da humanidade que sequer se dá conta de que é mortal. Escrevi, na oportunidade:
“Embora os homens precisem uns dos outros para sobreviver, a vida individual é a que conta. Ninguém está disposto, pelo menos conscientemente – embora pela educação as pessoas sejam condicionadas a isso – a receber um papel fixo assim que nasce, que não leve em conta suas ambições pessoais. Todo indivíduo saudável e razoavelmente inteligente sonha com notoriedade, conforto e, sobretudo, poder. O operário de uma fábrica, por exemplo, embora nem sempre revele isso ou sequer saiba como expressar tal vontade, tem como objetivo ser o chefe. O executivo de uma empresa luta por conquistar a presidência. E vai por aí afora. Todos, de uma maneira ou de outra, aspiram a chegar ao topo das atividades que escolheram ou que lhes foram impostas por condicionamentos”. A maioria, é claro, ajunta, à miséria em que vegeta, a frustração de jamais concretizar quase nenhuma dessas ambições, mesmo as mais medíocres.
Na impossibilidade de fazer alguma coisa (qualquer coisa), para acabar com essa estúpida, mas cristalizada, divisão da humanidade, em castas irreversíveis, rendo comovidas homenagens aos que sempre pediram “tão pouco” da vida e, para os quais, “o nada, positivamente, é um exagero”. Seu sofrimento (anônimo) e sua humilde resignação (imposta pelas circunstâncias) é que sustentam o mundo em seu eixo. Em troca, seus irmãos de espécie os condenam a privações de toda a sorte, à desumanização e à geração de uma linhagem de sub-homens, na figura de seus descendentes.
*Jornalista, radialista e escritor. Trabalhou na Rádio Educadora de Campinas (atual Bandeirantes Campinas), em 1981 e 1982. Foi editor do Diário do Povo e do Correio Popular onde, entre outras funções, foi crítico de arte. Em equipe, ganhou o Prêmio Esso de 1997, no Correio Popular. Autor dos livros “Por uma nova utopia” (ensaios políticos) e “Quadros de Natal” (contos), além de “Lance Fatal” (contos) e “Cronos & Narciso” (crônicas), com lançamentos previstos para os próximos dois meses. Blog “O Escrevinhador” – http://pedrobondaczuk.blogspot.com
Pedro, pergunta difícil de responder.
ResponderExcluirNa minha maneira simples de enxergar
a vida, talvez até simplória para alguns
vejo a coisa da seguinte forma, desde que
as sociedades se constituíram existem os desvalidos, talvez para justificar a existência
dos que possuem. Dentro daquilo que entendo por
hipocrisia ou pequenez, de que vale uma sociedade onde não se pode olhar para o outro com ar de superioridade?
Poderia ser diferente...mas "eles" não permitiriam.
Ótimo texto!
Abraços