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Recordações de uma final de festival
* Por Laís de Castro
Eu sei que estava nos bastidores do Teatro Paramount (hoje Teatro Abril, na Avenida Brigadeiro Luiz Antonio, em São Paulo) e corria o ano da graça de 1967. Não me perguntem, por favor, qual era o mês (fazia frio) e muito menos o dia. Na verdade, eu tinha tenros 20 anos de idade e era repórter de uma revista chamada inTerValo, da Editora Abril, a única no país sobre televisão. Naquele momento o Brasil vivia uma ditadura brava e pesada e não existiam (que bom!) as revistas de fofocas e nem as de celebridades. Os ricos eram discretos (ostentar era, e é, brega e esse quesito era levado a sério). Depois viriam a Fatos&Fotos, da Bloch, e a Folha e o Estadão começariam a se aventurar pela cobertura de TV. Mas isto é para uma outra ocasião.
Por enquanto estou nos bastidores do III Festival da Música Popular Brasileira da TV Record, tudo o que uma menina de 20 anos gostaria de fazer na vida. Todo mundo brigando por uma entrada e eu lá, no meio dos artistas…
Não se tratavam os artistas como deuses
Existiam ali quatro camarins, se é que assim poderiam ser chamados aqueles quartinhos sem banheiro, feios e mixos. Não havia o dono de um camarim, todos se arriscavam por todos. Maquiadores, assessores? Gente, uma maquiadora só para todos, e era muito. O pessoal chegava de táxi… Um outro camarim, mais amplo, também era ocupado por todos. Garçons? Nem pensar. Quem quisesse, que levasse seu uísque e pegasse o gelo no bar vizinho. Como vocês vêem, os tempos eram bem outros. Não que houvesse economia. É que não existia a mentalidade de tratar artistas como deuses, só isso.
Lá estavam, todos juntos, Elis Regina, Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Mutantes, Edu Lobo, Nara Leão, Geraldo Vandré, Paulinho da Viola, Jair Rodrigues, o Zimbo Trio, o Tamba Trio, Caçulinha e seu regional, e muitos outros. Até Roberto Carlos e Hebe Camargo cantaram no Festival – ou, como se dizia naquele tempo, defenderam suas músicas. Quem ganhou foi “Ponteio”, de Edu Lobo e Capinan, cantada por Edu e Marília Medalha; em segundo ficou “Domingo no Parque”, de Gilberto Gil, apresentada por ele e Os Mutantes. Em terceiro, “Roda Viva”, de Chico Buarque, com ele e o MPB-4; e, em quarto, “Alegria, Alegria”, de Caetano Veloso.
Posso dizer que eu convivia com todos esses artistas; eram pessoas bem mais simples, mais tranqüilas, mais accessíveis e menos assediadas então.
Eu sabia que no dia seguinte iria passear pela cidade com os vencedores para fazer as fotos da capa da revista com o José Ferreira da Silva ou o Paulo Salomão, fotógrafos contratados da revista.
Mas por enquanto ainda estou nos bastidores, onde as pessoas tomavam o uisquinho e conversavam. O festival rolava, cada um apresentava sua música e a gritaria do público era quase insuportável. Palmas e vaias em centenas de decibéis.
Do lado de dentro, todos estavam nervosos, mas fingiam calma.
Nara Leão me perguntou:
- Você sabe como é que eu chego a Paraty, daqui de São Paulo?
Eu me odiei porque não sabia e tive que mostrar minha ignorância. Naquele tempo Paraty era um lugar apenas para os intelectuais mais iniciados do país. Nara Leão era uma delas. Parece que ia para lá, quase sempre, com Ferreira Gullar, Cacá Diegues, sua irmã Danusa (ela ainda pode confirmar) e outros menos votados. Era uma turma linda.
Elis Regina estava vagando de lá para cá, bem nervosa, Edu Lobo, sempre isolado num canto. Chico Buarque nem se fala. Era um cantinho e um copo de uísque:
- Pode fotografar – ele falou. – Não tem nenhum problema eu tomar meu uisquinho aqui.
Verdade. Não tinha mesmo. Mas não fotografamos – para quê?
Os Mutantes, que se apresentariam pela primeira vez, estavam completamente deslocados. Rita Lee me perguntou:
- Você acha que vamos ganhar?
- Imagino que sim – respondi. E aproveitei para plantar uma matéria. – Se ganharem, me avisa onde vai ser a comemoração, para eu ir com o fotógrafo?
- Aviso – disse ela.
Gilberto Gil e os Mutantes não ganharam com “Domingo no Parque”, mas foram aplaudidíssimos; a música foi um sucesso e os Mutantes se tornaram astros. Eles foram comemorar, mas Rita Lee não me contou onde. Dias depois, estivemos na casa de Sérgio e Arnaldo Dias fazendo a primeira reportagem com eles para uma revista nacional. A casa ficava numa travessa da Avenida Pompéia e tinha uma varanda com recorte redondo. Fizemos várias fotos. Outro endereço onde estive para fazer uma reportagem foi a casa de Rita Lee, na Rua Joaquim Távora, na Vila Mariana. Ali moravam o pai dela, um dentista, a mãe e duas irmãs mais velhas. Era um sobradão com uma varandinha, janelas e portas bem antigas, que não combinava com ela. Uma garota moderna. Mas tinha que ser assim: Rita seria a ovelha negra. A mais branca que se conheceu.
Jair Rodrigues plantava bananeira
Voltando aos bastidores: num certo momento me enfiei no camarim maior, onde estavam Nara Leão, Caetano Veloso (ainda bem tímido) e Jair Rodrigues, que, inquieto, plantava bananeiras e brincava o tempo todo. O camarim era grande, mas tosco: tinha um carpete velho e meio rasgado, uma bancada de tábuas mixangas, implorando por uma lixa e um bom verniz. Na verdade não ouvíamos o que acontecia no palco.
Eu entrava e saía a toda hora para conferir tudo, não perder nem um lance. O pessoal do MPB-4, que acompanhava Chico Buarque, conversava na coxia, sobre a panela de pressão que aquilo estava virando.
- Vai dar pau – disse um deles, não me lembro qual.
- Não vai – respondeu o outro. – Festival é sempre assim.
A verdade é que os estudantes, prensados pela ditadura militar, precisavam gritar contra as músicas que consideravam “da direita” e aplaudir as “de esquerda”. Era uma válvula de escape. Mas neste terceiro festival não havia músicas escancaradamente políticas. De resto… o pessoal andava comportadinho depois de muito susto.
Daquele camarim maior, como eu já disse, ao lado de Nara Leão e Jair Rodrigues de cabeça para baixo, não se ouvia nada além de um zumbido forte. De repente, entrou pela porta Sérgio Ricardo, vermelho como uma cereja, furioso, gritando palavrões – “vão todos pra puta que os pariu” – o que na época era raro. Elis vinha correndo atrás e tentava abraçá-lo. Edu Lobo apareceu, apaziguador, mas assustado. Chico Buarque também entrou. Trancaram a porta e Sérgio começou a gritar: “Quebrei o violão e joguei mesmo, não estou nem aí com esse público grosso e mal educado, um bando de filhos da puta, não me deixavam cantar”.
Todos tentavam consolá-lo ao mesmo tempo, o que, afinal, não resultava em nada, tal a confusão. Nara continuou quieta no canto dela, Elis conseguiu consumar o abraço protetor, Edu falava pausadamente algo parecido com “que merda”, Chico estava mudo, mas com cara de solidário. Jair Rodrigues desvirou da bananeira e ficou olhando tudo, assustadíssimo. Nunca tinha visto algo assim de perto. Nem de longe. Sérgio Ricardo estava roxo, com lágrimas nos olhos, mais de raiva do que de tristeza. Os organizadores começaram a bater na porta e Jair Rodrigues saiu. Naquele momento, alguém me viu ali.
- Tem uma repórter aqui dentro. Põe ela pra fora.
Eu saí, mas já tinha gravadas na mente as primeiras reações de todos, que, na sua maioria, reclamavam das vaias da criançada da platéia.
“Foderam a música”, diz Elis para Dori e Nelsinho
Depois que tudo se acalmou, chegou o momento crucial dos resultados. A primeira categoria a ser chamada foi a de melhor intérprete.
Não poderia nunca ser outra senão Elis Regina, com “O Cantador”, de Dori Caymmi e Nelson Motta. Ela ouviu a indicação e, antes de entrar no palco para repetir a canção, deu um beijo no Nelson Mota, outro no Dori Caymmi, os autores da canção, e disse:
- Foderam a música; se eu levei intérprete, a música não vai levar mais nada.
Entrou no palco e cantou, como sempre, como ninguém. Uma deusa, uma criança, uma menina, Elis Regina.
Roberto Carlos foi vaiado intensamente quando cantou a quinta colocada, “Maria, Carnaval e Cinzas”, de Luís Carlos Paraná. Coisas daquela época em que tudo era radical, “de direita” ou “de esquerda”; para a platéia, “de esquerda”, Roberto Carlos era jovem guarda, alienado, “de direita”. Ele foi vaiado, mas manteve a verve.
Durante o ensaio
Cerca de seis horas antes, naquela mesma tarde, eu estava no ensaio dos cantores no mesmo Teatro Paramount. Conversava com um e com outro, passei por Elis Regina:
- Me conta uma novidade.
Ela deu uma daquelas gargalhadas gostosas e, ao lado de Nelson Motta, brincou:
- Nelsinho é veado! – e caiu na gargalhada de novo. Todos riram. Mas parecia mesmo que eles estavam era namorandinho… não sei.
Passei em seguida pela Marilia Medalha, sempre ao lado do Edu Lobo:
- Você acredita que vai ganhar hoje?
- Vamos ganhar, sim, a música do Edu é a melhor! – respondeu ela, confiante, sorriso no rosto, sempre simpática, uma voz densa e marcante.
Gil ensaiava com os Mutantes e alguns puristas reclamavam: - Guitarras, para quê?
Era o início da tropicália, alguém duvida? Mas naquela época era mais uma boa briga comprada pelos baianos do que qualquer outra coisa.
Ouvi o Chico ensaiando “Roda Viva” com o MPB-4 e sempre fugindo dos repórteres, o Caetano cantando “Alegria, Alegria”, com os Beat Boys, um conjunto de rock argentino. Ousado. Magro, seco, sentava sobre as duas pernas e ainda sobrava espaço. Com roupas coloridas. A música de Caetano cantava “o sol nas bancas de revistas”. Alguém me assoprou:
- A namorada dele, Dedé, trabalha em Salvador num jornal chamado O Sol.
Não acreditei, mas registrei o nome da namorada, Edelzuite, baiana de boa cepa. Depois eu saberia que Edelzuite era uma corruptela de Ethel Sweet, uma artista americana que havia feito sucesso três décadas antes… A mãe de Dedé era fã dela.
Durante aquele ensaio histórico, Nana Caymmi reclamava que dormia num colchão, precisava “comprar uma cama urgente, porque já estava com dores no corpo”. Ela, tão jovem, estava casada com Gilberto Gil naquela época, e ele não queria a cama.
Naquele ensaio histórico, que vi inteiro ao vivo, tirava uma notícia aqui, outra ali, quando o Sérgio Ricardo foi passar a música que cantaria à noite, “Beto Bom de Bola”. Depois, sentado ali, o cantor, compositor, cineasta famoso me perguntou:
- Gostou?
É claro que ele não vai se lembrar, mas, na resposta, cometi uma das maiores gafes da minha vida:
- Gostei, mas preferia sem aquela parte falada.
Ele ficou furioso:
- Não tem parte falada! É tudo cantado!
Eu me desculpei e saí de fininho. Imagino, afinal, que as vaias aconteciam por causa disso: o cara cantava meio que falando e naquela época não existia rap, gente!
No dia seguinte, depois que passou o Festival, na redação da revista, já cantávamos, usando a melodia de “Ponteio”: “Quem me dera agora eu tivesse a viola pra quebrar/ Bronqueio!” E, embora não existisse internet, esse refrão se espalhou e foi cantado por todos os experts da platéia dos festivais durante um bom tempo!
Bem, voltando ao camarim. Pronto, fui expulsa. Mas já havia visto o suficiente. Escrevi tudinho, que saiu na edição seguinte da revista inTerValo. Eu daria um bom dinheiro por aquele exemplar da revista, hoje. Não tenho mais nenhuma edição daquela raridade. Uma pena. Tenho apenas minha memória. E essa pude dividir com vocês.
(Texto reproduzido de “50 anos de textos”, http:// 50anosdetextos.com.br)
* Jornalista desde os 21 anos, quando estreou na tradicional revista Realidade, trabalhou 18 anos na Editora Abril, vários anos na Carta Editorial e outros mais na Azul. Ganhou 3 prêmios Abril, um concurso de contos infantis no Estado do Paraná e é autora do livro de histórias para adultos: “Um Velho Almirante e outros contos”, publicado pelo selo ARX (Siciliano). Atualmente dedica-se apenas à Literatura.
* Por Laís de Castro
Eu sei que estava nos bastidores do Teatro Paramount (hoje Teatro Abril, na Avenida Brigadeiro Luiz Antonio, em São Paulo) e corria o ano da graça de 1967. Não me perguntem, por favor, qual era o mês (fazia frio) e muito menos o dia. Na verdade, eu tinha tenros 20 anos de idade e era repórter de uma revista chamada inTerValo, da Editora Abril, a única no país sobre televisão. Naquele momento o Brasil vivia uma ditadura brava e pesada e não existiam (que bom!) as revistas de fofocas e nem as de celebridades. Os ricos eram discretos (ostentar era, e é, brega e esse quesito era levado a sério). Depois viriam a Fatos&Fotos, da Bloch, e a Folha e o Estadão começariam a se aventurar pela cobertura de TV. Mas isto é para uma outra ocasião.
Por enquanto estou nos bastidores do III Festival da Música Popular Brasileira da TV Record, tudo o que uma menina de 20 anos gostaria de fazer na vida. Todo mundo brigando por uma entrada e eu lá, no meio dos artistas…
Não se tratavam os artistas como deuses
Existiam ali quatro camarins, se é que assim poderiam ser chamados aqueles quartinhos sem banheiro, feios e mixos. Não havia o dono de um camarim, todos se arriscavam por todos. Maquiadores, assessores? Gente, uma maquiadora só para todos, e era muito. O pessoal chegava de táxi… Um outro camarim, mais amplo, também era ocupado por todos. Garçons? Nem pensar. Quem quisesse, que levasse seu uísque e pegasse o gelo no bar vizinho. Como vocês vêem, os tempos eram bem outros. Não que houvesse economia. É que não existia a mentalidade de tratar artistas como deuses, só isso.
Lá estavam, todos juntos, Elis Regina, Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Mutantes, Edu Lobo, Nara Leão, Geraldo Vandré, Paulinho da Viola, Jair Rodrigues, o Zimbo Trio, o Tamba Trio, Caçulinha e seu regional, e muitos outros. Até Roberto Carlos e Hebe Camargo cantaram no Festival – ou, como se dizia naquele tempo, defenderam suas músicas. Quem ganhou foi “Ponteio”, de Edu Lobo e Capinan, cantada por Edu e Marília Medalha; em segundo ficou “Domingo no Parque”, de Gilberto Gil, apresentada por ele e Os Mutantes. Em terceiro, “Roda Viva”, de Chico Buarque, com ele e o MPB-4; e, em quarto, “Alegria, Alegria”, de Caetano Veloso.
Posso dizer que eu convivia com todos esses artistas; eram pessoas bem mais simples, mais tranqüilas, mais accessíveis e menos assediadas então.
Eu sabia que no dia seguinte iria passear pela cidade com os vencedores para fazer as fotos da capa da revista com o José Ferreira da Silva ou o Paulo Salomão, fotógrafos contratados da revista.
Mas por enquanto ainda estou nos bastidores, onde as pessoas tomavam o uisquinho e conversavam. O festival rolava, cada um apresentava sua música e a gritaria do público era quase insuportável. Palmas e vaias em centenas de decibéis.
Do lado de dentro, todos estavam nervosos, mas fingiam calma.
Nara Leão me perguntou:
- Você sabe como é que eu chego a Paraty, daqui de São Paulo?
Eu me odiei porque não sabia e tive que mostrar minha ignorância. Naquele tempo Paraty era um lugar apenas para os intelectuais mais iniciados do país. Nara Leão era uma delas. Parece que ia para lá, quase sempre, com Ferreira Gullar, Cacá Diegues, sua irmã Danusa (ela ainda pode confirmar) e outros menos votados. Era uma turma linda.
Elis Regina estava vagando de lá para cá, bem nervosa, Edu Lobo, sempre isolado num canto. Chico Buarque nem se fala. Era um cantinho e um copo de uísque:
- Pode fotografar – ele falou. – Não tem nenhum problema eu tomar meu uisquinho aqui.
Verdade. Não tinha mesmo. Mas não fotografamos – para quê?
Os Mutantes, que se apresentariam pela primeira vez, estavam completamente deslocados. Rita Lee me perguntou:
- Você acha que vamos ganhar?
- Imagino que sim – respondi. E aproveitei para plantar uma matéria. – Se ganharem, me avisa onde vai ser a comemoração, para eu ir com o fotógrafo?
- Aviso – disse ela.
Gilberto Gil e os Mutantes não ganharam com “Domingo no Parque”, mas foram aplaudidíssimos; a música foi um sucesso e os Mutantes se tornaram astros. Eles foram comemorar, mas Rita Lee não me contou onde. Dias depois, estivemos na casa de Sérgio e Arnaldo Dias fazendo a primeira reportagem com eles para uma revista nacional. A casa ficava numa travessa da Avenida Pompéia e tinha uma varanda com recorte redondo. Fizemos várias fotos. Outro endereço onde estive para fazer uma reportagem foi a casa de Rita Lee, na Rua Joaquim Távora, na Vila Mariana. Ali moravam o pai dela, um dentista, a mãe e duas irmãs mais velhas. Era um sobradão com uma varandinha, janelas e portas bem antigas, que não combinava com ela. Uma garota moderna. Mas tinha que ser assim: Rita seria a ovelha negra. A mais branca que se conheceu.
Jair Rodrigues plantava bananeira
Voltando aos bastidores: num certo momento me enfiei no camarim maior, onde estavam Nara Leão, Caetano Veloso (ainda bem tímido) e Jair Rodrigues, que, inquieto, plantava bananeiras e brincava o tempo todo. O camarim era grande, mas tosco: tinha um carpete velho e meio rasgado, uma bancada de tábuas mixangas, implorando por uma lixa e um bom verniz. Na verdade não ouvíamos o que acontecia no palco.
Eu entrava e saía a toda hora para conferir tudo, não perder nem um lance. O pessoal do MPB-4, que acompanhava Chico Buarque, conversava na coxia, sobre a panela de pressão que aquilo estava virando.
- Vai dar pau – disse um deles, não me lembro qual.
- Não vai – respondeu o outro. – Festival é sempre assim.
A verdade é que os estudantes, prensados pela ditadura militar, precisavam gritar contra as músicas que consideravam “da direita” e aplaudir as “de esquerda”. Era uma válvula de escape. Mas neste terceiro festival não havia músicas escancaradamente políticas. De resto… o pessoal andava comportadinho depois de muito susto.
Daquele camarim maior, como eu já disse, ao lado de Nara Leão e Jair Rodrigues de cabeça para baixo, não se ouvia nada além de um zumbido forte. De repente, entrou pela porta Sérgio Ricardo, vermelho como uma cereja, furioso, gritando palavrões – “vão todos pra puta que os pariu” – o que na época era raro. Elis vinha correndo atrás e tentava abraçá-lo. Edu Lobo apareceu, apaziguador, mas assustado. Chico Buarque também entrou. Trancaram a porta e Sérgio começou a gritar: “Quebrei o violão e joguei mesmo, não estou nem aí com esse público grosso e mal educado, um bando de filhos da puta, não me deixavam cantar”.
Todos tentavam consolá-lo ao mesmo tempo, o que, afinal, não resultava em nada, tal a confusão. Nara continuou quieta no canto dela, Elis conseguiu consumar o abraço protetor, Edu falava pausadamente algo parecido com “que merda”, Chico estava mudo, mas com cara de solidário. Jair Rodrigues desvirou da bananeira e ficou olhando tudo, assustadíssimo. Nunca tinha visto algo assim de perto. Nem de longe. Sérgio Ricardo estava roxo, com lágrimas nos olhos, mais de raiva do que de tristeza. Os organizadores começaram a bater na porta e Jair Rodrigues saiu. Naquele momento, alguém me viu ali.
- Tem uma repórter aqui dentro. Põe ela pra fora.
Eu saí, mas já tinha gravadas na mente as primeiras reações de todos, que, na sua maioria, reclamavam das vaias da criançada da platéia.
“Foderam a música”, diz Elis para Dori e Nelsinho
Depois que tudo se acalmou, chegou o momento crucial dos resultados. A primeira categoria a ser chamada foi a de melhor intérprete.
Não poderia nunca ser outra senão Elis Regina, com “O Cantador”, de Dori Caymmi e Nelson Motta. Ela ouviu a indicação e, antes de entrar no palco para repetir a canção, deu um beijo no Nelson Mota, outro no Dori Caymmi, os autores da canção, e disse:
- Foderam a música; se eu levei intérprete, a música não vai levar mais nada.
Entrou no palco e cantou, como sempre, como ninguém. Uma deusa, uma criança, uma menina, Elis Regina.
Roberto Carlos foi vaiado intensamente quando cantou a quinta colocada, “Maria, Carnaval e Cinzas”, de Luís Carlos Paraná. Coisas daquela época em que tudo era radical, “de direita” ou “de esquerda”; para a platéia, “de esquerda”, Roberto Carlos era jovem guarda, alienado, “de direita”. Ele foi vaiado, mas manteve a verve.
Durante o ensaio
Cerca de seis horas antes, naquela mesma tarde, eu estava no ensaio dos cantores no mesmo Teatro Paramount. Conversava com um e com outro, passei por Elis Regina:
- Me conta uma novidade.
Ela deu uma daquelas gargalhadas gostosas e, ao lado de Nelson Motta, brincou:
- Nelsinho é veado! – e caiu na gargalhada de novo. Todos riram. Mas parecia mesmo que eles estavam era namorandinho… não sei.
Passei em seguida pela Marilia Medalha, sempre ao lado do Edu Lobo:
- Você acredita que vai ganhar hoje?
- Vamos ganhar, sim, a música do Edu é a melhor! – respondeu ela, confiante, sorriso no rosto, sempre simpática, uma voz densa e marcante.
Gil ensaiava com os Mutantes e alguns puristas reclamavam: - Guitarras, para quê?
Era o início da tropicália, alguém duvida? Mas naquela época era mais uma boa briga comprada pelos baianos do que qualquer outra coisa.
Ouvi o Chico ensaiando “Roda Viva” com o MPB-4 e sempre fugindo dos repórteres, o Caetano cantando “Alegria, Alegria”, com os Beat Boys, um conjunto de rock argentino. Ousado. Magro, seco, sentava sobre as duas pernas e ainda sobrava espaço. Com roupas coloridas. A música de Caetano cantava “o sol nas bancas de revistas”. Alguém me assoprou:
- A namorada dele, Dedé, trabalha em Salvador num jornal chamado O Sol.
Não acreditei, mas registrei o nome da namorada, Edelzuite, baiana de boa cepa. Depois eu saberia que Edelzuite era uma corruptela de Ethel Sweet, uma artista americana que havia feito sucesso três décadas antes… A mãe de Dedé era fã dela.
Durante aquele ensaio histórico, Nana Caymmi reclamava que dormia num colchão, precisava “comprar uma cama urgente, porque já estava com dores no corpo”. Ela, tão jovem, estava casada com Gilberto Gil naquela época, e ele não queria a cama.
Naquele ensaio histórico, que vi inteiro ao vivo, tirava uma notícia aqui, outra ali, quando o Sérgio Ricardo foi passar a música que cantaria à noite, “Beto Bom de Bola”. Depois, sentado ali, o cantor, compositor, cineasta famoso me perguntou:
- Gostou?
É claro que ele não vai se lembrar, mas, na resposta, cometi uma das maiores gafes da minha vida:
- Gostei, mas preferia sem aquela parte falada.
Ele ficou furioso:
- Não tem parte falada! É tudo cantado!
Eu me desculpei e saí de fininho. Imagino, afinal, que as vaias aconteciam por causa disso: o cara cantava meio que falando e naquela época não existia rap, gente!
No dia seguinte, depois que passou o Festival, na redação da revista, já cantávamos, usando a melodia de “Ponteio”: “Quem me dera agora eu tivesse a viola pra quebrar/ Bronqueio!” E, embora não existisse internet, esse refrão se espalhou e foi cantado por todos os experts da platéia dos festivais durante um bom tempo!
Bem, voltando ao camarim. Pronto, fui expulsa. Mas já havia visto o suficiente. Escrevi tudinho, que saiu na edição seguinte da revista inTerValo. Eu daria um bom dinheiro por aquele exemplar da revista, hoje. Não tenho mais nenhuma edição daquela raridade. Uma pena. Tenho apenas minha memória. E essa pude dividir com vocês.
(Texto reproduzido de “50 anos de textos”, http:// 50anosdetextos.com.br)
* Jornalista desde os 21 anos, quando estreou na tradicional revista Realidade, trabalhou 18 anos na Editora Abril, vários anos na Carta Editorial e outros mais na Azul. Ganhou 3 prêmios Abril, um concurso de contos infantis no Estado do Paraná e é autora do livro de histórias para adultos: “Um Velho Almirante e outros contos”, publicado pelo selo ARX (Siciliano). Atualmente dedica-se apenas à Literatura.
Que delícia! Viajei, vi tudo!
ResponderExcluirAdoraria esbarrar na Elis
a minha preferida até hoje.
Parabéns Laís!
Beijos
Estou adorando esta serie de crônicas sobre os festivais. Que saudade, Laís!...
ResponderExcluirBeijos
Maravilha, Laís! Tive a impressão de que me encontrava lá. Obrigada por compartilhar!
ResponderExcluirAbraços.
Muito agradável seguir viagem ao passado com você. Tão jovem e tão atenta ao que realmente importava.
ResponderExcluirA crítica e descrição que tanto nos faltam! A opinião formada pela expressão da arte,bruta,essencial! Acho que a cada década é mais difícil haver critérios! A maldita massificação da música. E hoje,vc nem tem como impedir,pq os automóveis são amplificadores de mal gosto! Obrigado a vcs todos que me emocionam,antes de minha própria história ter início. Eu falo e sinto emoção,com meu critério. Por vezez,querendo ter nascido em outro tempo.
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