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A propósito de Provocações da Memória
* Por Marco Albertim
O bom repórter é ou será um cronista fiel a seus arquivos, fiel à memória que capturou os fatos. Angelo Castelo Branco tem uma prosa escorreita, sabe temperá-la, dar-lhe sabor. Mas se de um lado repõe os fatos tais como os viu, de outro menciona-os sem entrar nas minúcias; e encobre-os com juízos pessoais, como a absolver protagonistas de prováveis culpas. No livro Provocações da memória, sobressai a preocupação – legítima – em registrar para não omitir, embora evitando o que a memória julga inconveniente dizer; a bem dos valores que ajuntou na formação de jornalista.
Há que se dizer que Castelo correu risco ao escrever sobre o golpe militar de 64; do golpe ao começo da redemocratização. Se por si a empreitada implica riscos, o perigo a emprenha quando mistura opiniões pessoais. “A história mostra que o governador Eraldo Gueiros optou sempre pelo sentimento humanista em suas posições políticas naquela difícil e turbulenta conjuntura do país”.
Se o propósito do autor não foi absolver Gueiros, a memória crítica baixou a guarda, distraiu-se. Inda que humanismo seja recurso genérico, e cada um o usa conforme a conveniência de classe, o propósito de absolvição está mais que subjacente. Não é, Castelo, avesso à história. Com franqueza de bom cronista, não doura as fissuras da então Arena, entre egressos da UDN, PSD e PTB. Diz: “Embora tivessem aderido aos generais presidentes pós-64, formando um mosaico político ininteligível, eles brigavam no varejo. Mas perfilavam-se disciplinados quando a temperatura esquentava e surgiam ameaças na forma de atos institucionais que lhes extirpavam mandatos e direitos políticos”.
No mesmo formato, diz que Felinto Muller, presidente da Arena, exigiu a renúncia do deputado Antônio Correia, correligionário, porque este fizera a saudação protocolar a Dom Helder Câmara, na Assembleia Legislativa. Vale lembrar a prisão de Carlos Garcia, chefe da sucursal do Estadão. O episódio foi narrado por Ricardo Carvalho em Memórias de um repórter. Mas é Castelo quem acrescenta o detalhe de, toda vez que era levado ao IV Exército para interrogatório, Garcia tinha o cuidado de deixar cheques em branco para sua mulher, caso demorasse a voltar. Divane Carvalho segurava os cheques, e no dia em que Garcia foi levado numa Rural-Willys, anotou a placa do veículo. Foi um funcionário revendedor de bíblias, em frente à sucursal, o primeiro a ser preso; para dizer o que ouvia nas conversas dos jornalistas. O homem tinha o costume de ler o jornal, filar as notícias do Estadão.
A prisão do colunista Alex é referida como episódio “surrealista.” Até o carcereiro do Exército ficou perplexo: “Não é possível!” Alex, conforme Castelo, assinou um “documento constrangedor”. O cronista não revela o teor do documento. O desmonte do show com artistas como Vinícius de Morais, Chico Buarque etc., em Nova Jerusalém. Plínio Pacheco fora o organizador do É preciso cantar. Trazido à força de helicóptero para Recife, dá entrevista que não é publicada.
Jarbas Vasconcelos, governador, bate boca com o usineiro Gilson Machado; acusa-o de “empresário falido”, de querer para o estado uma polícia “que ele usava na esplanada de sua usina para perseguir trabalhadores e operários”. Machado vai à Justiça, só retira o processo se Jarbas “pedir desculpas”. Jarbas explica que o que dissera fora “fruto de informações equivocadas”. O episódio mostra o perfil de cada um, até do raivoso Jarbas Vasconcelos. O perfil de Ulysses Guimarães é entrevisto quando o deputado telefona ao repórter Castelo Branco, pedindo para não publicar suas declarações responsabilizando os militares pelo surgimento de guerrilhas no norte do país.
Em almoço no gabinete de Roberto Marinho, Castelo senta-se de frente à paisagem carioca; encanta-se, elogia. Marinho lhe diz que Brizola sentara por duas horas no mesmo lugar, sem dizer uma palavra sobre a cidade. “... ele não reúne as mínimas condições para ser governador do Rio de Janeiro”, conclui Marinho. Boa revelação do juízo de Marinho! Brizola, o resenhista se arrisca a dizer, nada dissera para não fazer a corte ao anfitrião.
Há imprecisão quando diz que Gabeira “liderou” o sequestro do embaixador americano. É sabido que o cérebro da operação foi o operário têxtil Virgílio Gomes da Silva, desaparecido. Sobre Moura Cavalcanti, é artificial dizer que “Os deuses conspiraram a seu favor porque o nome de Moura Cavalcanti entrava em evidência exatamente no período em que os mandatos da safra de governadores indicados em 1970 estavam chegando ao final”. Na derrota de Marcos Freire para Roberto Magalhães, omite-se o fato de que a contagem dos votos foi objeto de desconfianças. Ainda que nada se possa provar.
É esclarecedor o depoimento de Egídio Ferreira Lima, suas contradições com Miguel Arraes, a solidão do mesmo na Argélia, sem visitas de correligionários. É o trecho mais ameno do livro
* Jornalista e escritor. Trabalhou no Jornal do Commércio e Diário de Pernambuco, ambos de Recife. Escreveu contos para o sítio espanhol La Insignia. Em 2006, foi ganhador do concurso nacional de contos “Osman Lins”. Em 2008, obteve Menção Honrosa em concurso do Conselho Municipal de Política Cultural do Recife. A convite, integra as coletâneas “Panorâmica do Conto em Pernambuco” e “Contos de Natal”. Tem dois livros de contos e um romance.
* Por Marco Albertim
O bom repórter é ou será um cronista fiel a seus arquivos, fiel à memória que capturou os fatos. Angelo Castelo Branco tem uma prosa escorreita, sabe temperá-la, dar-lhe sabor. Mas se de um lado repõe os fatos tais como os viu, de outro menciona-os sem entrar nas minúcias; e encobre-os com juízos pessoais, como a absolver protagonistas de prováveis culpas. No livro Provocações da memória, sobressai a preocupação – legítima – em registrar para não omitir, embora evitando o que a memória julga inconveniente dizer; a bem dos valores que ajuntou na formação de jornalista.
Há que se dizer que Castelo correu risco ao escrever sobre o golpe militar de 64; do golpe ao começo da redemocratização. Se por si a empreitada implica riscos, o perigo a emprenha quando mistura opiniões pessoais. “A história mostra que o governador Eraldo Gueiros optou sempre pelo sentimento humanista em suas posições políticas naquela difícil e turbulenta conjuntura do país”.
Se o propósito do autor não foi absolver Gueiros, a memória crítica baixou a guarda, distraiu-se. Inda que humanismo seja recurso genérico, e cada um o usa conforme a conveniência de classe, o propósito de absolvição está mais que subjacente. Não é, Castelo, avesso à história. Com franqueza de bom cronista, não doura as fissuras da então Arena, entre egressos da UDN, PSD e PTB. Diz: “Embora tivessem aderido aos generais presidentes pós-64, formando um mosaico político ininteligível, eles brigavam no varejo. Mas perfilavam-se disciplinados quando a temperatura esquentava e surgiam ameaças na forma de atos institucionais que lhes extirpavam mandatos e direitos políticos”.
No mesmo formato, diz que Felinto Muller, presidente da Arena, exigiu a renúncia do deputado Antônio Correia, correligionário, porque este fizera a saudação protocolar a Dom Helder Câmara, na Assembleia Legislativa. Vale lembrar a prisão de Carlos Garcia, chefe da sucursal do Estadão. O episódio foi narrado por Ricardo Carvalho em Memórias de um repórter. Mas é Castelo quem acrescenta o detalhe de, toda vez que era levado ao IV Exército para interrogatório, Garcia tinha o cuidado de deixar cheques em branco para sua mulher, caso demorasse a voltar. Divane Carvalho segurava os cheques, e no dia em que Garcia foi levado numa Rural-Willys, anotou a placa do veículo. Foi um funcionário revendedor de bíblias, em frente à sucursal, o primeiro a ser preso; para dizer o que ouvia nas conversas dos jornalistas. O homem tinha o costume de ler o jornal, filar as notícias do Estadão.
A prisão do colunista Alex é referida como episódio “surrealista.” Até o carcereiro do Exército ficou perplexo: “Não é possível!” Alex, conforme Castelo, assinou um “documento constrangedor”. O cronista não revela o teor do documento. O desmonte do show com artistas como Vinícius de Morais, Chico Buarque etc., em Nova Jerusalém. Plínio Pacheco fora o organizador do É preciso cantar. Trazido à força de helicóptero para Recife, dá entrevista que não é publicada.
Jarbas Vasconcelos, governador, bate boca com o usineiro Gilson Machado; acusa-o de “empresário falido”, de querer para o estado uma polícia “que ele usava na esplanada de sua usina para perseguir trabalhadores e operários”. Machado vai à Justiça, só retira o processo se Jarbas “pedir desculpas”. Jarbas explica que o que dissera fora “fruto de informações equivocadas”. O episódio mostra o perfil de cada um, até do raivoso Jarbas Vasconcelos. O perfil de Ulysses Guimarães é entrevisto quando o deputado telefona ao repórter Castelo Branco, pedindo para não publicar suas declarações responsabilizando os militares pelo surgimento de guerrilhas no norte do país.
Em almoço no gabinete de Roberto Marinho, Castelo senta-se de frente à paisagem carioca; encanta-se, elogia. Marinho lhe diz que Brizola sentara por duas horas no mesmo lugar, sem dizer uma palavra sobre a cidade. “... ele não reúne as mínimas condições para ser governador do Rio de Janeiro”, conclui Marinho. Boa revelação do juízo de Marinho! Brizola, o resenhista se arrisca a dizer, nada dissera para não fazer a corte ao anfitrião.
Há imprecisão quando diz que Gabeira “liderou” o sequestro do embaixador americano. É sabido que o cérebro da operação foi o operário têxtil Virgílio Gomes da Silva, desaparecido. Sobre Moura Cavalcanti, é artificial dizer que “Os deuses conspiraram a seu favor porque o nome de Moura Cavalcanti entrava em evidência exatamente no período em que os mandatos da safra de governadores indicados em 1970 estavam chegando ao final”. Na derrota de Marcos Freire para Roberto Magalhães, omite-se o fato de que a contagem dos votos foi objeto de desconfianças. Ainda que nada se possa provar.
É esclarecedor o depoimento de Egídio Ferreira Lima, suas contradições com Miguel Arraes, a solidão do mesmo na Argélia, sem visitas de correligionários. É o trecho mais ameno do livro
* Jornalista e escritor. Trabalhou no Jornal do Commércio e Diário de Pernambuco, ambos de Recife. Escreveu contos para o sítio espanhol La Insignia. Em 2006, foi ganhador do concurso nacional de contos “Osman Lins”. Em 2008, obteve Menção Honrosa em concurso do Conselho Municipal de Política Cultural do Recife. A convite, integra as coletâneas “Panorâmica do Conto em Pernambuco” e “Contos de Natal”. Tem dois livros de contos e um romance.
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