Considerações
sobre o tempo
*
Por Harry Wiese
Há
quem afirma que o tempo não existe. Cientistas e filósofos dizem
que ele só existe no contexto biológico/psicológico. Dizem que
fora do nosso ambiente, no longínquo universo, no mundo das galáxias
e dos mistérios, não há dia, nem noite; nem inverno e nem verão.
É um contínuo estar ligado ao eterno, sem início e sem fim,
portanto, sem tempo.
Procuro
Santo Agostinho
para me auxiliar e o bispo de Hipona, com toda filosofia e ciência,
mais perguntou que respondeu: “Que é, pois, o tempo? Quem poderá
explicá-lo clara e brevemente? Quem o poderá apreender, mesmo só
com o pensamento, para depois nos traduzir por palavras o seu
conceito? E que assunto é mais familiar e mais batido nas nossas
conversas do que o tempo? Quando dele falamos, compreendemos o que
dizemos. Compreendemos também o que nos dizem quando dele nos falam.
O que é, por conseguinte, o tempo? Se ninguém me perguntar, eu sei;
se o quiser explicar a quem me fizer a pergunta, já não sei”.
Como
se percebe Agostinho também se defronta com algumas dificuldades ao
falar sobre o tempo. É tão difícil como explicar os dogmas da
religião com cunho científico, que ele tantas vezes tentou durante
sua vida: “não podemos apreendê-lo, – afirma – pois o tempo
nos escapa, não conseguimos medi-lo. E também não podemos
percebê-lo”.
Diante
da situação que me deixa até perplexo, prefiro escrever sobre o
tempo nosso, sobre o tempo do dia a dia, o tempo da noite de insônia
que tende não acabar e o tempo que passa rápido demais nas horas da
felicidade exposta. Então me animo a ler e interpretar a bela
passagem do livro de Eclesiastes, que fala do tempo como nós o
percebemos e conhecemos. “Tudo
tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo o propósito
debaixo do céu. Há tempo
de nascer, e tempo de morrer; tempo de plantar, e tempo de arrancar o
que se plantou; Tempo de matar, e tempo de curar; tempo de derrubar,
e tempo de edificar; Tempo de chorar, e tempo de rir; tempo de
prantear, e tempo de dançar; Tempo de espalhar pedras, e tempo de
ajuntar pedras; tempo de abraçar, e tempo de afastar-se de abraçar;
Tempo de buscar, e tempo de perder; tempo de guardar, e tempo de
lançar fora; Tempo de rasgar, e tempo de coser; tempo de estar
calado, e tempo de falar; Tempo de amar, e tempo de odiar; tempo de
guerra, e tempo de paz”.
O
poeta e escritor Augusto Frederico Schmidt, por quem tenho respeito e
apreço, certa vez, em uma de suas crônicas, afirmou que “o tempo
passou por mim e marcou-me fundo, feriu-me, curou-me, mudou minha
maneira de compreender as coisas, fez-me esquecer ofensas e mágoas”.
Assim
como ele, também desejo descrever algumas situações sobre o tema.
Como há tempo para plantar e arrancar o que se plantou, também há
tempo de colher, pois em situações normais, quem planta, colhe.
Entre tantas situações importantes também destaco que há tempo de
ensinar e tempo de escrever. Quem ensina planta conhecimento e quem
escreve planta emoções. Professores e escritores plantam, mas não
colhem; aliás, colhem a alegria de ver a colheita dos que se
apropriaram do conhecimento e dos que fizeram das emoções um modo
de vida mais harmonioso.
O
tempo nosso do dia a dia fez e faz coisas extraordinárias. Não
tenho nada a lamentar. O que poderiam ser lamentos foram ocasiões de
aprendizagem. Minhas rugas e as suas rugas, caro leitor, caso as
tenha, ou está em evidência de tê-las, refletem e refletirão a
experiência acumulada dos dias. Quem tem rugas tem histórias para
contar, conhecimento a passar, textos a escrever e lições a
ensinar.
Se
o tempo existe ou não deixemos a resposta com os filósofos e
cientistas. O que importa é que nós estamos nele e a nossa
existência está insculpida na dimensão dele com o que fomos, somos
e seremos. O que está além ainda não nos pertence! E é bom que
seja assim!
*
Harry Wiese é escritor que reside em Ibirama - SC. É autor de
vários livros, dentre eles A sétima caverna, romance premiado pela
Academia Catarinense de Letras.
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