Bolinhas
de gude e peões
*
Por Felipe Diemer de Lemos
Roda o peão
em plena rua de terra sem que ninguém
se preocupe com isso. Somente o menino que aguarda ansioso o fim do
rodear do pequeno artefato de madeira envernizada. Só
ele dá
risada sozinho ao ver que aquele brinquedinho não
faz barulho, mas diverte. Tem bolas de gude em um dos bolsos do velho
casaco escolar e enquanto limpa o nariz que escorre ouve os barulhos
da sua cidade.
Ouve o som da máquina
que perfura as calçadas
da cidade e olha de longe abismado com tanto ruído
quase ensurdecedor. Ronca a barriga oca desde o desjejum e corre para
dentro de casa em busca de um pão
qualquer com algo em cima. Volta saboreando o lanche feito pela mãe.
É
quase meio-dia. Vinte e cinco anos mais velho, o operário
da máquina
perfuradora também
sente fome, mas não
pode parar. Não
dá
para parar. E mesmo que parar, vai faltar dinheiro para comprar
almoço
porque precisa guardar para o remédio
da mulher que está
grávida
em casa. Limpa o suor e segue a sina diária
sem pestanejar, sem murmurar, apenas olhando esporadicamente com
testa franzida e olhos semi-abertos o sol escaldante.
Brinca o menino com seus
sonhos pueris, ilusões
de quem nunca pensa em crescer e a certeza de que tudo o favorece ao
redor. Joga bolinha de gude com dois amigos e brigam naquela arena de
jogos empolgantes sem olhar para o relógio,
sem pressa para terminar, sem prazos para cumprir e sem chefes para
fazer exigências.
O único
medo é
de chegar a temida hora de fazer a tarefa ou de tomar banho. Na outra
rua, a motoqueira corre ofegante com o capacete em uma das mãos
e a entrega na outra olhando fixamente para a numeração
dos prédios.
Precisa deixar uma encomenda urgente, mas o nervosismo a acaba
cegando. Finalmente encontra o prédio,
toca o interfone, ouve uma voz adormecida e irritada. Mesmo assim,
precisa entrar e fazer seu trabalho. Escuta meia dúzia
de desaforos de uma queixosa cansada, pega sua moto e ziguezagueia
pelo trânsito
enlouquecido das 4 da tarde na cidade grande. Na rua de terra,
calmamente a bolinha pára
dentro do gude e alguém
grita que já
era aquela esfera. Um menino toma e o outro reclama. Começam
a discutir, mas finalmente um terceiro põe
fim à
balbúrdia
e recomeçam
a partida. Estão
com os joelhos sujos, os narizes escorrendo e os cabelos sebosos de
tanto coçar
com mãos
cheias de areia.
Nada comparado ao advogado que
passa em frente ao campo dos garotos todo alinhado, mala escura,
cabelo bem penteado, sapatos impecavelmente lustrados, olhar altivo e
passos rápidos
e largos. Passa velozmente e sem querer levanta areia e suja ainda
mais os compenetrados jogadores de bola de gude. Eles olham com
raiva, mas estão
mais preocupados com o bater das minúsculas
bolinhas e com as regras a serem observadas na partida. O advogado
nem sabe onde passou; está
concentrado em resolver mentalmente um argumento para apresentar nos
minutos seguintes perante uma sessão
de tribunal. Sobe as escadas do prédio
grande com vidro espelhado da rua transversal a dos meninos e
desaparece. Para os garotos, foi apenas mais um adulto chato que só
atrapalha as brincadeiras.
Termina o jogo de bolinha de
gude ao chamado da mãe
de um dos atuantes jogadores. São seis da tarde e precisam se
recolher. Os outros dois se olham e ensaiam uma relutância.
Pressionam o terceiro a permanecer e desobedecer à
ordem da mãe.
O protesto só
dura até
a mãe,
quase rouca, aproximar-se e mostrar uma vara e sérias
restrições
caso não
seja atendida. Dissipa-se o local de intensos jogos da tarde. Seis e
meia. Para o vigilante do prédio
em frente aos meninos só
começou
mais uma noite de trabalho. Chega de bicicleta com sua marmita, toma
o posto, liga a televisão,
coloca o casaco na cadeira e senta para vigiar o condomínio.
Às
11 da noite, o vigilante precisa se levantar do seu posto e chamar a
polícia
porque tem bandido no residencial tentando arrombar um apartamento.
Os três
meninos, nessa hora, dormem bem acomodados embaixo de seus cobertores
limpinhos cheirando a amaciante. Só
sonham sonhos pueris, quem sabe imaginam as brincadeiras do amanhã
breve. Logo vão
crescer e ver uma vida diferente das bolinhas de gude e dos peões.
Mas até
lá
se sentem, mais do que nunca, crianças.
*Jornalista,
participou de três
antologias de escritores gaúchos,
mora em Florianópolis
e atualmente trabalha como assessor de imprensa. Prepara livro de
crônicas
e é colaborador ocasional de jornais e revistas.
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