Interseção de tempos
desiguais
*
Por Anna Lee
Estamos em 1980. Festival de
Veneza. Glauber Rocha se prepara para o que será seu último
combate: lança A
Idade da Terra ––
o filme que acreditava ser uma revolução no Cinema Novo e que assim
descreveu: “Um filme brasileiro de Glauber Rocha. Um filme
latino-americano, um filme também universal. Não vou explicar nada,
eu quero que se veja e que se ouça. O filme tem um som
revolucionário, uma novidade muito grande. Um filme audiovisual,
infelizmente, não é um filme de enredo, clássico, convencional.
Este é um filme de imagens e sons. Não é um filme de palavras
porque isso é teatro, não é cinema”.
A tensão é muito grande. À
medida que o A Idade
da Terra vai sendo
projetado, as pessoas começam a sair. Primeiro discretamente para
passarem despercebidas. No meio delas, inclusive, alguns fãs de
Glauber se levantam e se retiram. Quando termina a exibição, a sala
está vazia.
Fora alguns franceses, os
críticos tiveram uma reação pouco favorável. “Ninguém entendia
direito a proposta de A
Idade da Terra e o
problema era que a maioria das pessoas não estava prestando atenção
no filme, mas na figura do cineasta brasileiro, cada vez mais
exaltado”, afirmou o jornalista Pedro Del Picchia, que assistiu à
projeção.
No fim do festival, quando
premiaram o francês Louis Malle, Glauber promoveu um evento
inusitado: fez uma passeata pelo Lido de Veneza, enquanto discursava
contra o “imperialismo cultural que abafava nossas raízes, a nossa
potencialidade”. Exasperado, ele não cansava de repetir: “Meu
estilo de filmar está profundamente ligado à cultura popular
brasileira, ao que são considerados símbolos e alegorias; não são
abstrações, mas são expressões diretas da cultura popular. É um
cinema feito sobre o povo e com a colaboração cultural do povo, que
expressa os mitos mais profundos do povo americano, que são herdados
da cultura negra, da cultura índia, pela moral do povo, que não é
a moral burguesa, pela psicologia do povo, que não é a psicologia
burguesa, pela imaginação visual, pela arquitetura, pelos trajes”.
Glauber morreu pouco tempo
depois.
Agora, estamos em Paris, numa
sala da Sorbonne. É 1933.
O psicanalista René Allendy e
Antonin Artaud estão sentados atrás de uma grande mesa. Allendy
apresenta Artaud. A sala está repleta. A cena forma um estranho pano
de fundo. Gente de todas as idades. O público das palestras de
Allendy sobre as Novas Idéias.
A luz é crua e mergulha na escuridão os olhos fundos de Artaud.
Isso acentua ainda mais seus gestos. Ele parece atormentado. Seus
cabelos longos às vezes caem sobre a testa. Ele tem a leveza e a
vivacidade do ator. Um rosto magro como devastado pela febre. Um
olhar que não parece enxergar o público. Um olhar de visionário.
Mãos longas com longos dedos.
Ao lado, Allendy parece prosaico, pesado, cinzento. Está sentado
atrás da mesa, maciço, concentrado. Artaud sobe no estrado e começa
a falar: O Teatro e a Peste.
Ele pedira à amiga Anaïs Nin que se sentasse na primeira fileira.
Ele dá impressão de querer apenas a intensidade, uma maneira
elevada de sentir e viver. Então, põe-se a representar alguém
morrendo de peste. Para ilustrar sua conferência, representa uma
agonia. Artaud esqueceu a conferência, o teatro, suas idéias, O Dr.
Allendy, a seu lado, o público, os jovens estudantes, a mulher de
Allendy, os professores e os diretores de teatro. Seu rosto está
convulsionado de angústias e seus cabelos, empapados de suor. Faz
com que todos sintam sua garganta seca e queimando, o sofrimento, a
febre, o fogo de suas entranhas.
As pessoas primeiro perdem o fôlego. Depois começam a rir. Todos
riem! Assobiam. Depois, retiram-se ruidosamente, falando alto,
protestando. Batem a porta ao sair. Os únicos que não se mexem são
Allendy, sua mulher, os Lalou, Margueritte. Mais protestos. Mas
Artaud continua. Está na tortura. Uiva. Delira. Representa sua
própria morte. E fica lá, por terra.
*
E eu aqui, no Rio de Janeiro, em 2007, tento promover um encontro
imaginário entre Glauber e Artaud, apostando na possibilidade de
renascimento de um e de outro e na interseção de tempos desiguais.
*Jornalista, mestranda em
Literatura Brasileira, autora, com Carlos Heitor Cony, de "O
Beijo da Morte"/Objetiva, ganhador do Prêmio Jabuti/2004, entre
outros livros. Colunista da Flash, trabalhou na Folha de S. Paulo e
nas revistas Quem/Ed.Globo e Manchete.
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