O
preconceito do jornalista
*
Por Gustavo do Carmo
Na
pós-graduação em telejornalismo que eu não terminei, uma colega,
ao se apresentar para o professor, disse que precisou se despir de
preconceitos para trabalhar como repórter de rua numa certa
emissora. Um conselho indireto.
Pela
vivência que eu tenho, este conselho só vale para o horário de
trabalho, pois o jornalista – salvo algumas raríssimas exceções
- é o profissional mais preconceituoso e hipócrita que existe (e
pode me incluir também, se quiser!).
Durante o expediente ele é obrigado a viver os dois lados: entrevistar humildes trabalhadores honestos e comer bolo com eles, mas também enfrentar tiroteio em favela, entrevistar assaltantes detidos pela polícia, procurar prefeitos corruptos e mostrar o sofrimento dos pacientes nos hospitais públicos sucateados. Mas acabou o trabalho e ele volta para o seu mundinho esnobe e hipócrita: só faz amizade com gente bem-sucedida, com bom nível cultural, pessoas ricas, influentes e, principalmente, comunicativas.
Durante o expediente ele é obrigado a viver os dois lados: entrevistar humildes trabalhadores honestos e comer bolo com eles, mas também enfrentar tiroteio em favela, entrevistar assaltantes detidos pela polícia, procurar prefeitos corruptos e mostrar o sofrimento dos pacientes nos hospitais públicos sucateados. Mas acabou o trabalho e ele volta para o seu mundinho esnobe e hipócrita: só faz amizade com gente bem-sucedida, com bom nível cultural, pessoas ricas, influentes e, principalmente, comunicativas.
Usa
as eternas e convincentes desculpas do tipo “estou muito ocupado”,
“não tenho tempo nem para comer” e “não gosto de redes
sociais” para não ligar, não responder e-mails, não se reunir
para fazer trabalho em grupo, não seguir no Twitter, não adicionar
no Facebook. Mas, volta e meia, posta, no Instagram, fotos de seus
momentos íntimos, às vezes brindados com champanhe e posados perto
da banheira de hidromassagem, com amigos, parentes, maridos (ricos),
esposas (bonitas) e filhos.
O jornalista não se interessa pelos mais tímidos, anônimos e até ansiosos, mas os amigos e influentes ele faz questão de procurar. Jornalista mulher só quer se casar com homens ricos que conhece nas baladas da vida.
O jornalista não se interessa pelos mais tímidos, anônimos e até ansiosos, mas os amigos e influentes ele faz questão de procurar. Jornalista mulher só quer se casar com homens ricos que conhece nas baladas da vida.
Sou
vítima desse tipo de gente e de suas “desculpas” há mais de
dez anos. Deveria ter me acostumado, mas não consigo. A cada ano
fico mais amargo e desconfiado. Por causa desses hipócritas eu crio
ainda mais preconceitos contra os jornalistas preconceituosos.
*
Jornalista e publicitário de formação e escritor de coração.
Publicou o romance “Notícias que Marcam” pela Giz Editorial (de
São Paulo-SP) e a coletânea “Indecisos - Entre outros contos”.
Bookess
- http://www.bookess.com/read/4103-indecisos-entre-outros-contos/ e
PerSe
-http://www.perse.com.br/novoprojetoperse/WF2_BookDetails.aspx?filesFolder=N1383616386310
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